1ª edição do festival Concert For Earth é esta semana nos Açores
Conversámos com o músico Nuno Bettencourt, o mentor do festival que une a música à causa ambiental. Dias 22 e 23 de julho, em São Miguel, Açores.
É a 1º edição do Atlantis Concert for Earth - festival, sem fins lucrativos, que quer espalhar uma mensagem de esperança, sustentada por soluções práticas, em nome da restauração da saúde do nosso planeta.
Black Eyed Peas, Pitbull, Stone Temple Pilots, Bush, Mod Sun e Girlfriends são os nomes do cartaz que vão atuar nas Sete Cidades, na ilha de São Miguel, nos Açores. Os veteranos Sting e os Queen com Adam Lambert vão participar virtualmente. Nicole Scherzinger (das Pussycat Dolls) vai ser a apresentadora do evento, além de atuar num dos dias. O palco vai estar montado na cratera de um vulcão.
O festival, que está marcado para os dias 22 e 23 de julho, é a materialização de uma ideia que o músico, compositor e produtor Nuno Bettencourt tem estado a amadurecer há cerca de uma década. Como um bom filho dos Açores que a casa tornou, Nuno Bettencourt sublinha, essencialmente, a urgência em dar a conhecer e a pôr em prática as soluções que podem ajudar a sarar a Terra e a combater a crise climática que se faz sentir na rotina dos nossos dias. Foi por isso que o músico arregaçou as mangas, falou com amigos, sondou uma série de organizações ambientais e montou o festival.
É importante referir que todas as emissões de carbono resultantes do Atlantis Concert for Earth serão calculadas, reduzidas e, sempre que possível, removidas com o apoio da A Greener Festival, uma empresa, também sem fins lucrativos, que está comprometida em ajudar eventos, festivais e locais de todo o mundo a tornarem-se mais sustentáveis e a reduzir os impactos ambientais.
Além deste relevante detalhe, o festival (criado pela Atlantis Entertainment) quer focar as soluções dos principais conservacionistas e organizações ambientais - os verdadeiros 'Rockstars for Earth', como os organizadores lhes chamam, que apresentam e promovem alternativas que ajudam a minimizar os danos provocados pela mão humana na natureza. Na lista estão associações como a Blue Azores, The Ocean Cleanup, Innerspace, Juccce, The White Feather Foundation, fundada por Julian Lennon (Embaixador da Concert for Earth), Grounded, Earth Uprising - fundada pela Embaixadora da Concert for Earth, Alexandria Villaseñor, Earth Percent e muito mais.
O Atlantis Concert for Earth quer, acima de tudo, inspirar as pessoas a agir, a fazê-las acreditar que é possível mudar o curso da narrativa que nos condena mais do que nos salva. Quer inspirar as pessoas a tornarem-se autênticas estrelas rock pela Terra.
Algumas atuações serão transmitidas para o mundo inteiro no sábado, 23 de julho, via Veeps, em concertforearth.veeps.com. Os bilhetes presenciais estão disponíveis em atlantisconcertforearth.bol.pt.
O evento quer inspirar as pessoas a agir e a tornarem-se "rockstars for Earth/estrelas rock pela Terra". Como é que podemos ser rockstars pela Terra?
Acho que quando as pessoas pensam em fazer algo pelo planeta, neste caso em ser rockstars pelo planeta, acabam por pensar que é uma "tarefa" demasiado grande. Há tanta coisa a acontecer, tantos problemas. Há uma crise climática, uma emergência climática. Creio que acabamos por nos afastar dessas questões porque parecem demasiado grandes para nós. As pessoas perguntam-se: "como é que posso salvar o mundo, como é que posso salvar o planeta?" mas depois seguem com as suas vidas, com a expetativa que outro alguém salve isto.
Acho que também passa pela forma como que colocamos o assunto. A forma como falamos da questão climática é algo do género: "vamos todos morrer. Se não fizermos nada agora, restam-nos 10, 20 anos". Abordamos a questão sempre com o foco no problema e não na solução. O que queremos fazer [com este evento] é mostrar como podemos viver e não como vamos morrer. Queremos mostrar que há um caminho e que há soluções. Podemos ser estrelas rock pela Terra no momento em que começamos a fazer algo pelo planeta. Sei que trabalhamos, temos filhos, estamos sempre ocupados, mas, em prol dos nossos filhos, temos mesmo de prestar atenção a estas questões. Temos de fazer alguma coisa. Temos de fazer o que estiver ao nosso alcance. As pessoas precisam de conhecer as soluções ecológicas que existem, como as que implementámos neste evento (e que já são usadas noutras partes do mundo). Não há só a parte negativa. Há esperança. Há opções.
E assim ser uma estrela rock pelo planeta…
E podemos sê-lo de diversas maneiras. Podemos apoiar este tipo de soluções ecológicas, podemos ser voluntários e fazer parte dessas soluções, podemos doar para ajudar essas soluções e, talvez mais importante, podemos pressionar as decisões políticas da comunidade onde vivemos ou junto dos governos para que a política vá ao encontro destas soluções. Eu não sou cientista mas passo-me quando sei que existem pessoas que oferecem estas soluções incríveis e depois percebo que o meu irmão ou os meus amigos não conhecem estas alternativas. A imprensa não fala destas alternativas, a rádio não fala destas alternativas. Só ouvimos falar do que está mal. Temos de mudar a narrativa. Temos de mudar a forma de pensar. Acho que este evento pode inspirar e unir as pessoas. Até os mais novos. É importante que as crianças saibam que podem ajudar a limpar os oceanos, por exemplo. É importante que saibam que se podem envolver nas soluções do problema.
É um festival aliado à Greener Festival - uma empresa, sem fins lucrativos, que ajuda eventos, festivais a reduzir os impactos ambientais...
O que é que temos em comum? O que é que nos une? Pergunto-te a ti que trabalhas na rádio. O que temos em comum é a música. A música é um ótimo equalizador. Os Black Eyed Peas tocam agora em Portugal mas depois podem ir tocar a Singapura ou à América do Sul onde vão estar cerca de 60 mil pessoas que vão perceber a linguagem da música. É uma linguagem universal. As pessoas cantam as canções, conhecem as melodias. Qual é a melhor maneira de chegar ao maior número de pessoas possível? Falo das pessoas comuns não de políticos ou cientistas. O que queremos é que as pessoas também prestem atenção à mensagem. Talvez possam educar-se entre a atuação de cada artista, seja no festival seja na transmissão online. Vamos partilhar estas soluções incríveis, usando a música como um megafone. É como se juntássemos um pouco de açúcar ao remédio.
E quem quiser pode fazer doações para ajudar as organizações que estão empenhadas em arranjar soluções para o problema, certo?
Sim, sim. Podem fazê-lo através do livestream. Podem doar o que puderem ou o que quiserem. Mas aqui o dinheiro é o que menos importa. Não somos propriamente angariadores de fundos, embora estejamos a aceitar doações. Estamos mais interessados em mudar a psicologia e a perceção do problema. Queremos dar esperança às pessoas. Queremos mudar a perspetiva das pessoas em relação à conservação do planeta.
Qual foi a reação dos artistas quando souberam que iam atuar na cratera de um vulcão?
Vou ser honesto. Não sei se eles viriam, se não lhes tivesse dito que os concertos iam acontecer dentro de um vulcão. (risos) Foi a parte mais excitante para eles. Quando convidei os Black Eyed Peas ou o Brian May perguntaram-me logo: 'desculpa, vamos tocar onde?' Quando mandei um e-mail ao Paul McCartney disse-lhe: 'ouve, sei que já fizeste tudo na tua vida. Sei que já foste um Beatle e que tocaste em todo o lado mas posso garantir que nunca tocaste dentro da cratera de um vulcão'. Todos eles responderam com um 'uau'. Adoraram o sítio quando viram as fotografias.
Esta é a 1ª edição. Há planos para dar continuidade ao evento?
A ideia é continuar e fazer uma edição por ano. Quando falei com o Brian May disse-lhe que não queria que isto fosse como o Live Aid. Disse-lhe que achava que o Live Aid tinha sido espetacular e que fez toda a gente sentir-se bem mas depois acabou. A questão é que o problema não vai desaparecer. É por isso que o nosso objetivo é fazer este evento todos os anos. Quanto ao lugar, não sei se vamos conseguir arranjar um sítio melhor. Em Lisboa e no Porto, já existem vários festivais. Quero manter este evento em Portugal. Espero que, ao longo dos anos, possa ser parte da nossa cultura. Fomos os primeiros e acontece nos Açores. Nunca houve um festival, sem fins lucrativos, inteiramente dedicado ao planeta Terra.
Tenho esperança que se transforme num símbolo como o Grande Prémio de Mónaco, por exemplo. Algo que seja verdadeiramente especial para os Açores. Quero que seja um motivo de orgulho para as pessoas dos Açores. O mundo inteiro vai estar a ver. Captámos a atenção da imprensa internacional, desde a Rolling Stone a publicações na América do Sul. Há jornalistas que vieram aos Açores pela primeira vez só por causa do festival. Começa aqui e deve continuar aqui.
