Gloria Groove a poucos dias de atuar no NOS Alive: "a arte serve para me manter no caminho da liberdade"

Festa brasileira garantida a 12 de julho, no palco Heineken. O NOS Alive acontece de 11 a 13 de julho, no Passeio Marítimo de Algés.

Daniel Garcia Felicione Napoleão, de 29 anos, é também Gloria Groove, a drag queen de São Paulo que em 2023 foi a drag queen mais ouvida no Spotify Global. Groove vai agitar o palco Heineken do NOS Alive, a 12 de julho. A 16.ª edição do festival acontece nos dias 11, 12 e 13 de julho no Passeio Marítimo de Algés.  

Gloria Groove, que já editou três álbuns de estúdio - "O Proceder" (2017), "Lady Leste" (2022) e "Futuro Fluxo" (2023) -, anda a circular pela Europa com a digressão "ALÔ, ALÔ Euro Tour" - um circuito que serve para mostrar à Europa "o melhor que o Brasil tem". Em junho, Gloria Groove editou "A Serenata da GG" - um disco ao vivo, dedicado ao estilo pagode, que inclui duetos com Gina Garcia (a mãe de Daniel Napoleão) ou com a histórica Alcione. 

O cantor, compositor, rapper e ator paulista, que canta desde os sete anos, contou-nos que o propósito do espetáculo é o de mostrar às pessoas que o "brasileiro vai ser sempre a alma da festa", garantindo-nos logo depois que  "convocar" no palco várias expressões musicais brasileiras, como o samba-enredo, pagode, olodum, marchinha, baile funk ou pop brasileiro. Importa aproveitar a ocasião para celebrar a cultura do país que o viu crescer, amadurecer e brilhar.        
  
"A ALÔ, ALÔ Euro Tour tem sido das experiências mais incríveis que eu e a minha equipa já vivemos até agora. Estou a amar poder estar a desbravar novos horizontes. A sensação desta digressão é completamente diferente das outras", disse-nos Daniel, a partir de Berlim, na Alemanha, onde atou esta semana. O artista paulista promete surpresas para o palco de Algés e acredita que a experiência do próximo dia 12 vai ser de "transformação".  


Como é que está a correr a digressão pela Europa?

Tem sido a melhor digressão pela Europa até agora. Estou a conhecer vários lugares pelos quais ainda não tinha passado. Além disso, estou a mostrar um show que tem uma intenção e um desenho novos. É um show feito especialmente para tudo o que está a acontecer agora. E tem sido maravilhoso ver a reação do público.    

O que é que estás a preparar para o concerto no NOS Alive?
O concerto no NOS Alive é uma data muito especial na minha carreira. É onde a "ALÔ, ALÔ Euro Tour" se vai mostrar na sua potência total. O show é feito com o propósito de valorizar a cultura brasileira. Serve para mostrar a minha história, o meu repertório, mas foi pensado sobretudo para mostrar, com o meu repertório, tudo aquilo que o Brasil tem de melhor. No show há samba-enredo, pagode, olodum, marchinha, baile funk, pop brasileiro. É um jeito de eu conseguir trazer para a frente a importância e o peso das levadas, do groove brasileiro. Quero mostrar às pessoas que o brasileiro vai ser sempre a alma da festa. (risos)


Numa entrevista que deste ao programa brasileiro "Provoca", quando te perguntaram qual era o público internacional mais "descontrolado", respondeste que era o público português. Manténs essa opinião?
O público português já me acompanha há muito tempo. É o único país, além do Brasil, em que sou reconhecido no shopping. É insano saber que tenho uma base de fãs tão grande num lugar que está tão longe do país onde nasci. São pessoas que me fazem sentir em casa. Acho que, fora do Brasil, é o público mais ávido. Acho que era isso que queria dizer.

Como é que foi a criação da Gloria Groove?
A Gloria Groove é o resultado de um processo cultural que começou na altura em que fazia teatro musical. Tinha apenas 18, 19 anos. Foi no teatro musical que descobri mais a fundo a cultura drag. Aprendi sobre produção, montação, produção visual. Foi nessa altura que comecei a interessar-me por esse mundo. E isso aconteceu justamente na altura em que o programa "RuPaul's Drag Race" estava a começar a ser uma febre no Brasil. Ou seja, ao mesmo tempo que estava a viver a experiência drag no teatro musical, via a forma como as drag queens estavam a passar por uma transformação na cultura mainstream. Começaram a ser estrelas em potencial. Além disso, as minhas referências sempre foram as grandes divas, a começar pela minha mãe [a cantora Gina Garcia]. Senti que a Gloria Groove era uma oportunidade de mostrar ao mundo aquilo que consigo fazer de uma forma maximizada. E é assim que começa a minha história. Também foi com a Gloria Groove que comecei a compor. Antes não compunha com a integridade que ganhei a partir do momento em que passei a ser a Gloria Groove. Parece que precisei de me ver ao espelho, como uma estrela, para perceber que tinha coisas para dizer. 


Falas das tuas referências de uma maneira muito apaixonada. Sentes que também podes ser uma referência para outras pessoas?
Acredito que sim. No Brasil continua a ser problemático ter um estilo de vida como o meu. Ainda se sentem tensões em relação a isso. Não é fácil ser gay e efeminado. Não é fácil falar sobre expressões e identidade de género. Ainda é um debate muito delicado. Fico muito feliz por saber que consigo ultrapassar este tipo de  barreiras com a qualidade e a integridade do trabalho que faço. Se continuar a fazer o meu trabalho com carinho, atenção e disciplina, acho que posso ser uma referência. Gosto muito de trabalhar. Sou apaixonado pelo que faço. Creio que existe alguma juventude de olho no que faço e a olhar para o meu trabalho como uma referência. Vale muito a pena sermos nós próprios. Há uma recompensa tremenda em sermos nós próprios. Quando era adolescente tentava esconder que era efeminado. Receava que esse meu traço me impedisse de chegar onde queria, como ator. Lembro-me muito bem desse medo. Do medo de pensar que se mostrasse quem era realmente, não teria nada. A minha carreira mostrou-me precisamente o contrário. Mostrou-me que consigo o que quero quando sou honesto comigo e quando partilho com os outros aquilo que mais amo. 

É como se te abraçasses primeiro para depois abraçar o mundo, não é? Qual é o papel da arte para ti?
Eu olho para a Gloria Groove como um grande abraço à minha criança interior. É um abraço à criança que ouviu uma série de 'nãos' só por gostar de coisa de menina. Eu amo a forma como a Gloria Groove me diz que está tudo bem, que está tudo certo. De certa forma, ela protege-me para que eu possa fazer o que quero. O papel que a arte tem na minha vida é exatamente esse. É o papel de me mostrar - a mim e ao mundo - que não temos de viver limitados. Antes pelo contrário. A arte serve para me manter no caminho da liberdadePara que possa ser cada vez mais livre, com cada vez mais possibilidades. Acho que ainda vivemos com a concepção errada de que temos de delimitar o espaço em que criamos, em que vivemos. Não acredito muito nisso. Sempre fiz de tudo um pouco. Antes de ser a Gloria Groove tive outras vivências artísticas e acredito que depois da Gloria Groove vou viver mais mil coisas. Ter a visão de tudo o que posso fazer enquanto Daniel é essencial para poder navegar na carreira da Gloria.


E isso acontece também com os teus álbuns. Passas por vários géneros musicais, gostas de estar sempre a surpreender...
Eu venho de tantas vivências artísticas diferentes. Começa logo com a influência da minha mãe, que também é cantora e já fez de tudo um pouco. Canto desde os sete anos, estive num grupo infantil [A Turma do Balão Mágico], fiz dobragens, integrei bandas de baile, fiz teatro musical. Precisava de fazer um pouco de tudo para ter trabalho. Mas  ter estado em todos estes pequenos espaços foi essencial para a minha carreira. A versatilidade é a linguagem artística que conheço. E acho que isso se traduz na carreira da Gloria Groove. Traduz-se em múltiplas possibilidades. Dentro do meu processo criativo preciso de fazer coisas diferentes. Não quero repetir-me. Adoro a sensação de me reinventar. Ser drag acrescenta mais uma camada a essa sensação, que é a parte da reinvenção da imagem. Amo a ideia de vestir um estilo musical novo, com roupa e peruca novas. Com cores diferentes. É uma brincadeira que me atrai muito. Quero ser tudo o que posso ser. Quero mudar a chave e trocar o botão. É isso que me mantém animado e motivado para dar longevidade à carreira da Gloria Groove. 

Recentemente, editaste "Serenata da Gloria Groove (Vol. 1)", que é uma homenagem ao pagode e, como dizes, ao amor. Neste projeto partilhas canções com outros artistas, desde a histórica Alcione à tua mãe. Acredito que seja um projeto muito especial para ti... 
Sem dúvida. A Alcione é uma lenda da música brasileira. A mãe da minha mãe já era fã da Alcione. Cantar com ela foi muito especial. E foi especial não só para mim mas também para a minha mãe e para a minha tia. Cantar com a Alcione foi uma sensação de full circle por causa disso mesmo.


Fui criado ao som do pagode. A minha mãe esteve ligada a esse estilo musical durante muitos anos. E este projeto trouxe o pagode de volta à minha vida. Jamais imaginei que, aos 29 anos, estaria colhendo frutos tão bonitos nesse universo musical. É um trabalho que prova que a qualidade e a dedicação ajudam a derrubar barreiras. Ajudam a criar um espaço novo. O pagode é um estilo muito carismático, sentimental e sensível. E vai ao encontro de uma paixão antiga minha que é cantar o amor, cantar canções de amor. É um projeto que me faz sentir em casa. Vai buscar uma parte muito boa da minha essência. 


És uma pessoa muito apaixonada?

Posso dizer que agora ainda sou muito mais apaixonado. (risos) Agora vejo que o amor é mesmo algo que muda a nossa vida. Talvez por ser do signo capricórnio, estive muitos anos apenas focado no trabalho. Não queria saber de mais nada. Só queria trabalhar e fazer crescer a Gloria Groove. Quando fiz 29 anos, meti o pé no travão e comecei a olhar para outras coisas que também importam. Coisas que importame além do talento ou da disciplina. Percebi que o amor é o principal. O principal é ter o amor da minha mãe, da minha família, do meu marido, dos meus fãs e da minha equipa. É esse amor que me dá autoconfiança para falar sobre afeto e acolhimento. Quero falar sobre isso sobretudo para a juventude LGBTQIA+. No Brasil as pessoas ainda são abandonadas por quererem ser como são. Comecei a olhar para o amor como algo que cria possibilidades. A "Serenata da GG" é um projeto que serve para dizer isso mesmo às pessoas. Serve para lhes dizer que reconheço e vejo o amor como a força principal. É um dos pilares que segura a minha vida. Sem o amor que recebo de todos os lados, jamais conseguiria ser quem eu sou e jamais faria o que faço.     


E em matéria de liberdade de ser, de amar, de igualdade e de direitos humanos, mesmo que estejamos a dar passos em frente, parece que há sempre uma sensação de eventual recuo a qualquer momento. Sentes isso?   

Sinto, sim. Eu amo estudar História. Adoro mergulhar no estudo sociológico de forma a conseguir entender o nosso comportamento. Quando estudamos História percebemos que o nosso comportamento é repetido. Quando uma nova onda de liberdade de expressão avança e ganha força, levanta-se uma onda mais conservadora para tentar abafar a outra. Testemunhar todas estas tensões, que acontecem dentro e fora do Brasil, acaba por resultar em material rico para trabalhar. Acho que essas tensões vão existir sempre. De um lado está o grupo que luta pela liberdade, pelo livre arbítrio, pelos direitos humanos e pela Constituição e do outro estão as pessoas que ainda tentam conservar ideias que já não fazem sentido. Aprendi que é muito importante não desistir. Não podemos abrir mão da luta nem podemos ter um direito a menos. Este ano, o tema da parada LGBTQIA+ no Brasil foi, "basta de negligência e basta de retrocesso legislativo". Parece que sempre que damos um passo em frente há uma força que nos puxa para trás. Estudar História, perceber quais são os motivos deste movimento e saber quem foram as pessoas que abriram caminhos no passado é essencial para continuar a luta. Não podemos caminhar para trás. Temos de estar em alerta em relação aos direitos que adquirimos. Fico feliz por poder ajudar este lado da força com o meu trabalho, com o que amo fazer. Com a arte. É como diz o rapper C. Tangana: "eu nunca acredito neles quando falam/não acredito quando dizem que sou o melhor/nem quando dizem que sou o pior/só acredito quando dançam, quando riem, quando choram/aí não têm como mentir". Estou constantemente a testemunhar isto com o meu trabalho.