1755: O sismo que mudou Lisboa e nos deixa em alerta

Uma viagem imersiva pelo Quake e que é mais do que uma aula de História.

Há 270 anos, a 1 de novembro de 1755, Lisboa tremeu e mudou para sempre. Do que foi o sismo e de como ficou a cidade, podemos testemunhar no Quake, um museu imersivo e interativo dedicado ao grande terramoto. Ricardo Clemente é um dos fundadores e conduz-nos numa viagem no tempo que é mais do que a simulação do terror e destruição da altura. É um alerta para uma catástrofe que pode acontecer a qualquer instante, um ponto de partida para estarmos prevenidos.

Reportagem no Quake - Museu do Terramoto

“Nunca estamos preparados. É essa a conclusão a que chego, em três anos de existência do museu e de mais de meio milhão de visitantes, a maioria portugueses”, confessa Ricardo, enquanto dá início à visita. “Mas, tenho a certeza de que depois desta experiência, o 1 de novembro de 1755 tenha a devida importância. Foi um dos dias mais importantes da história de Portugal e da Europa. Portugal iniciou um processo de reconstrução e de renascimento. Foi um dia em que teve a força para mudar o pensamento, a forma como nós encarávamos o urbanismo, a ciência, a forma como tínhamos a nossa relação com a Igreja e o poder dos governos, tudo isso mudou de um dia para o outro. E é uma história que tem um final muito interessante porque Portugal talvez nunca tenha passado por um momento tão grave e conseguiu renascer das cinzas”.

Quando o visitante começa a visita ao Quake, é desafiado pelo “professor Luís”, uma espécie de guardião da informação, a ser também um personagem da história. Uma narrativa que é fundamentada por uma intensa investigação e documentação nas várias salas temáticas do museu. A todo o instante, é possível ouvir explicações que podem ser consultadas após a experiência através de uma pulseira que guarda esses testemunhos no seu email.

À narrativa aliam-se tecnologias imersivas, em todos os espaços. Consegue-se ver, tocar e até cheirar. “Com tudo isto estamos ali a acionar aqueles botões emocionais, os triggers emocionais, e acreditamos que a mensagem fica bem mais guardada porque onde aconteceram grandes sismos eles vão voltar a acontecer, não há dúvida na comunidade científica”, remata o fundador do Quake.

E, de repente, estamos na manhã e nos momentos que antecederam o terramoto, numa Lisboa de odores fortes (e bem presentes), das especiarias que se vendem nas ruas e do intenso cheiro a esgoto, à porta de uma igreja detalhadamente recriada à época. É ali que ocorre o “clímax” desta visita. O visitante é convidado a tomar lugar numa missa, durante o culto a todos os santos. Uma celebração em latim, envolta em incenso, velas e oração, até que um abanão sacode até o mais cético. Uma simulação intensa e realista, possível graças a um “equipamento mecânico de mais alta tecnologia”, assegura Ricardo Clemente, "semelhante, por exemplo, ao que é usado no Madame Tussauds, em Londres. São cadeiras que nos permitem fazer movimentos e com uma aceleração que faz com que as pessoas sintam realmente o movimento como se estivessem no epicentro de um terramoto. E depois conjugamos isto com a multimédia, com o videomapping, com os cheiros, com as máquinas de vento, tudo isto para ir tocando os vários sentidos das pessoas e fazer com que as emoções despertem”.

Estima-se que o sismo tenha durado cerca de sete minutos, mas não há registo rigoroso na altura. Certo é que além de várias réplicas, seguiu-se um tsunami. A onda não foi tão grande como no canhão da Nazaré, mas causou vários danos e custou muitas vidas. “Não foi um tsunami com 30 metros de altura, mas foi uma onda, foi uma elevação súbita da água, estima-se que à volta de 5 ou 6 metros e tenha entrado o equivalente a 250 metros para a terra. As pessoas, como não tinham conhecimento deste tipo de fenómenos, viram a água a recuar e ainda se aproximaram mais da água e depois muita gente morreu dessa maneira.”

Foi preciso depois, reconstruir uma cidade que foi arrasada pelo tremor de terra, pela força da água e pelos incêndios que duraram vários dias. Neste capítulo, uma sala que mostra a visão do Marquês de Pombal, não apenas de reconstrução, mas de renovação radical de Lisboa. "Entre os vários planos alternativos, escolheu o mais arrojado que foi construir a cidade no mesmo sítio, mas com uma arquitetura e com princípios urbanísticos completamente diferentes, construindo toda uma planta ortogonal que é algo único no mundo", esclarece o fundador do Quake ao apontar para os documentos, maquetes, réplicas e instrumentos que foram usados nesse processo.

O Museu mostra a História, mas também alerta para o perigo iminente de uma catástrofe e a importância de estar preparado. E, para isso, propõe que trace um plano de emergência com a ajuda de familiares e amigos e tenha sempre à mão o seu kit de emergência, onde não pode faltar "a água, a medicação crónica, um kit de primeiros socorros, algumas conservas, o rádio a pilhas, powerbanks para carregar telefones... E este tipo de kits não é só necessário para os eventos sísmicos, mas para as catástrofes e para as situações de emergência em geral, adverte Ricardo Clemente.

O terramoto e tsunami destruíram o centro da capital em 1755 e ficaram para sempre na memória coletiva dos portugueses. Conscientes agora da História, dos perigos, dos alertas: se fosse hoje? Estariam preparados?