2022, o ano em que Gal Costa se despediu de nós

Recordação dos músicos que nos deixaram este ano. Jerry Lee Lewis, Armando Gama ou Olivia Newton-John fazem parte do obituário.

365 dias é muito tempo para a música perder alguns dos seus vultos. Para surpresa geral (sobretudo do grande público português), Gal Costa deixou-nos em novembro, com 77 anos. A cantora era uma das vozes mais doces da música popular brasileira, veículo de engrandecimento de algumas das maiores canções do país irmão, como 'Baby', 'Desafinado' ou o rocker 'Desafinado', o tema que fechou o seu derradeiro concerto em São Paulo em setembro. Foram quase 60 anos de carreira, mediatizada por momentos como 'Modinha para Gabriela', o tema de abertura da telenovela da Globo, "Gabriela" (exibida por cá a partir de 1977). Mas a música brasileira perdeu outros nomes lendários como a cantora Elza Soares (aos 91 anos de idade), que deu ao samba outras cambiantes, e Erasmo Carlos (aos 81 anos), figura relevante no rock e em todas as conjugações que fossem possíveis com os géneros do seu país.

 

O obituário musical registou alguns nomes antológicos da música norte-americana como o rock & roller Jerry Lee Lewis, um dos grandes fenómenos dos anos 50 e autêntica fera ao piano, com que corria as teclas com a mesma diabrura com que Elvis abanava a anca. Clássicos como 'Great Balls of Fire' e 'Whole Lotta Shakin' Goin' On' conferem eternidade ao homem que deixa de agitar a crosta terrestre aos 87 anos. Outro nome americano dos confins do tempo que faleceu foi a cantora principal das Ronettes, Ronnie Spector, voz de êxitos da primeira metade dos anos 60, como 'Be My Baby' ou 'Baby, I Love You'. A Austrália também chorou a morte de outra lenda, Judith Durham, a cantora dos Seekers, o primeiro nome de sucesso global oriundo do país. 'The Carnival Is Over', uma versão inspirada na folk russa, tornou-se o tema ao vivo mais emblemático da formação.

 

O grunge de Seattle (e o que sobrou dele) continua a perder os seus vultos de forma prematura. Depois de Andrew Wood (dos Mother Love Bone), de Kurt Cobain (dos Nirvana), de Layne Staley (dos Alice in Chains), de Scott Weiland (dos Stone Temple Piltos) e de Chris Cornell (dos Soundgarden), 2022 levou da existência terrena Mark Lanegan, o vozeirão sombrio que se destacou nos Screaming Trees e encetou um respeitável rumo, a solo e noutros projetos, bem longe do grunge onde se projetou. O cantor tinha 57 anos. Mas o rock teve mais notícias-choque. A poucas horas de um concerto dos Foo Fighters em Bogotá, o corpo do baterista Taylor Hawkins foi encontrado sem vida em março passado. O homem das baquetas era um dos elementos mais queridos do líder dos Foos, Dave Grohl. A agenda ao vivo da banda foi esvaziada, mas não as almas da comunidade musical do rock, que se juntaram à dor dos Foo Fighters, prestando numerosas homenagens a Taylor Hawkins. Elton John, Red Hot Chili Peppers, Pearl Jam e até o próprio filho Oliver Shane Hawkins lembraram-no das mais diversas formas. Raramente a morte de um baterista causou tanta comoção.

 

Nove meses depois de ter perdido o seu compositor principal Jim Steinman, Meat Loaf morreu em janeiro deste ano, aos 74 anos. Homem de épicos rock, Meat Loaf teve como a sua empreitada a trilogia de “Bat Out Of Hell”, iniciada em 1979, continuada com “Bat Out Of Hell II” em 1993 e concluída com “Bat Out Of Hell III” em 2006.

 

Várias figuras femininas fortes despediram-se de nós, a começar desde logo por Christine McVie (aos 79 anos), da ala britânica dos Fleetwood Mac, e uma das suas principais cantoras e compositoras do histórico grupo. Outra mulher de peso a morrer foi Olivia Newton-John, o par de John Travolta no musical "Grease" (de 1978) e intéprete do êxito de 1981, 'Physical'. Tinha 73 anos e não sobreviveu a um cancro. Irene Cara foi outra cantora-atriz a morrer este ano. Era dela a voz do tema-título da série de "Fame", cujo elenco pertencia, na personagem de Coco Hernandez. Mas a canção mais célebre que lhe foi entregue (das mãos do compositor Giorgio Moroder) foi o oscarizado 'Flashdance... What a Feeling', para o filme também ligado à dança "Flashdance" (de 1983), que lhe valeu o Grammy de Melhor Interpretação Feminina Pop. 


 
O Atlântico ficou ainda mais húmido em lágrimas com os desaparecimentos físicos de nomes referenciais da world music do lado americano e do lado africano. O coração de Pablo Milanés parou aos 79 anos. O músico cubano esteve ligado ao movimento revolucionário cubano da nueva trova dos anos 60, tendo desenvolvido a partir daí uma obra significativa. O público português conhece-o melhor pela sua participação a meias no tema 'Feiticieira' de Luís Represas. As mornas tornaram-se mais fúnebres com a perda de uma das suas maiores cantoras, Titina Rodrigues, com 75 anos.

 

Silenciou-se este ano a voz de um dos grandes clássicos rock dos anos 60, 'A Whiter Shade of Pale'... Gary Brooker, o vocalista e fundador dos Procol Harum, tinha 76 anos. Também de ilha de Sua Majestade morreu o guitarrista pub-rocker Wilko Johnson, que chamou a atenção nos Dr. Feelgood e que depois fez a sua vida. Outra lenda inglesa que se foi embora para todo o sempre foi Terry Hall, o vocalista da banda de ska e de new wave The Specials. O cancro foi demasiado fulminante e rápido para o deixar gravar só mais um álbum dos Specials. O seu contemporâneo Chris Bailey, vocalista dos punks australianos The Saints, também morreu neste ano, com 65 anos.

 

A bandeira da música portuguesa esteve a meia-haste por várias vezes. Uma das perdas mais assinaláveis foi a de Armando Gama, que ficou conhecido sobretudo pelo tema vencedor do Festival RTP da Canção de 1983, 'Esta Balada Que Te Dou'. Também se noticiou e lamentou as mortes de César Batalha, maestro e fundador do Coro de Santo Amaro de Oeiras, a violoncelista de 106 anos Madalena Sá e Costa, o contrabaixista de jazz de 90 anos e dirigente do Hot Clube de Portugal, Bernardo Moreira, ‘Binau’, e a cantora Claudisabel, que morreu de forma imediata numa colisão na Autoestrada 2 (A2) neste último mês do ano.

 

Este ano, o cenário estético de "Twin Peaks" parece que levou com um tornado negro que sugou de vez o compositor, a intérprete e uma sua infiuenciada. Comecemos pela última, a baterista e cantora dos Low, Mimi Parker, que a meias com o seu marido Alan Sparhawk edificou uma obra discográfica assinalável de quase trinta anos nos Low, que começou num som mais arrastado e com ecos das bandas sonoras dos filmes de David Lynch. A enigmática e poderosa intérprete das canções da série "Twin Peaks", Julee Cruise, também nos deixou. Cruise foi sendo uma colaboradora frequente de Angelo Badalamenti, o compositor principal das bandas sonoras de muitos dos filmes de David Lynch, de "Blue Velvet" (de 1986) a "Mulholland Drive" (de 2002), passando, claro, por "Twin Peaks" (de 1989). Também Angelo Badalamenti morreu, tinha o compositor 85 anos. O cinema teve mais golpes duros com a morte de outro compositor de bandas sonoras impactante, o grego Vangelis, que deixou a sua marca sonora inconfundível em filmes como "Momentos de Glória" (de 1981) e "Blade Runner" (de 1982), além de um trabalho ligado às eletrónicas e ao rock progressivo que não deve ser desvalorizado. O obituário 2022 de compositores de bandas sonoras tem também a registar outra morte impossível de não noticiar, a de Monty Norman (aos 94 anos), autor da melodia central da série de filmes sobre James Bond. 

 

Várias figuras icónicas dos anos 90 estão a desaparecer, como foram os casos de Maxi Jazz, vocalista dos Faithless e ligado à afirmação da eletrónica no meio cancioneiro, e o rapper Coolio, encontrado sem vida na casa de um amigo, aos 59 anos de idade. No jazz, choraram-se as mortes do saxofonista Pharoah Sanders (tinha 81 anos), e da cantora mais híbrida Betty Davis (aos 77 anos), que fora casada com o super-trompetista Miles Davis. 

 

No parágrafo dos homens de bastidores falecidos este ano, poderá parecer estranho colocar aqui Andrew Fletcher, um dos músicos fundadores dos históricos do synthpop Depeche Mode. Mas mais do que teclista, ele foi o homem do gabinete da banda, que tratava dos assuntos ligados ao management e às finanças. Andrew Fletcher tinha 60 anos. Atrás das folhas de pauta e das vitrines das cabines de estúdio esteve Lamont Dozier, da equipa criativa Holland-Dozier-Holland, que se tornou uma fábrica de êxito soul ao serviço da editora Motown. Lamont Dozier tinha 81 anos. Outra morte badalada foi a de Michael Lang, o "pai" do festival de música de Woodstock, a que ficou ligado na edição mítica de 1969 e, infelizmente, também aos fiascos de 1994 e de 1999.