Cinquenta anos de Festa do Avante!
Entrevista à diretora do evento, Madalena Santos.
Começa nesta sexta-feira, na Quinta da Atalaia, no Seixal, a Festa do Avante! A edição deste ano vai ser ainda mais especial, com a celebração dos 50 anos da festa do Partido Comunista Português.
António Zambujo, Carolina Deslandes e Pedro Jóia com Ney Matogrosso são alguns dos nomes fortes do programa deste ano. Mas a diretora da Festa do Avante, Madalena Santos, já pensa mais à frente. Viúva do histórico dinamizador, Rúben de Carvalho, Madalena Santos traça-nos a história deste grande evento ligado ao Partido Comunista Português.
Madalena, lembra-se como tudo começou? O Ruben falava-me que o festival era inspirado na Festa do l'Humanité e também em festivais que aconteceram lá fora, como o Monterrey Pop, ou o Woodstock, que eram na altura ainda relativamente recentes face à primeira edição do Avante, que foi na FIL.
Foi na FIL, em 1976. Sim, de facto, mesmo logo antes do 25 de Abril, o Ruben, o Ari dos Santos e alguns outros amigos tinham o costume, sempre que possível, nem sempre, mas enfim, sempre que possível, de darem um saltinho à Fête de l'Humanité, em Paris, e era um espaço completamente de liberdade. Aqui em Portugal vivia-se na ditadura, como se sabe, e logo desde o início, aquele acesso e a forma como a festa da La Fête de l'Humanité, em termos de espetáculos e cultura e não só, cativaram desde logo, em termos de ideias, o sonho para realizar, se possível, e logo quando possível, tivéssemos um país em liberdade. E assim foi. O Ruben, de facto, logo a seguir ao 25 de Abril, uma das primeiras tarefas foi a de fazer essa proposta de realizar uma festa muito parecida, no fundo, com a Fête de l'Humanité, uma vez que tinha também o nome do jornal. E assim que o Avante saiu da clandestinidade e se tornou completamente acessível a todos, fez uma grandíssima publicação logo na, na primeira edição, que aliás esgotou e depois teve que ser feita outra edição, começou logo a pensar-se em fazer algo semelhante. Não existiam propriamente nem agentes, nem roadies, nem técnicos de som, como todas as profissões que agora são múltiplas relativamente aos festivais. A primeira festa do Avante foi ainda feita com PAs portugueses, mas foi a junção de muitos que existiam em Portugal, porque de facto não dava, não é? Quando fomos para o Jamor, em 1977 e 1978, uma das primeiras coisas que houve logo a fazer, de facto, foi procurar um sistema de som que pudesse ser para grandes massas. E o Ruben tem uma história muito interessante, porque ele de facto era uma pessoa da ação, era um grande fazedor de coisas e de iniciativas. Foi pura e simplesmente a Londres, meteu-se no avião, chegou, aterrou, meteu-se num café e, imagine-se, pegou numas Páginas Amarelas. Eu acho que as pessoas agora já não sabem o que são umas Páginas Amarelas, mas é um calhamaço enorme, onde no fundo estão todas as pessoas que querem anunciar e vender o seu negócio, estão ali. Portanto, encontrava-se por temas tudo aquilo que se queria. E foi assim que o Ruben alugou o primeiro PA que veio para Lisboa, em camião ainda, na altura, para fazer a festa já ao ar livre, que já teve uma dimensão e uma dinâmica brutal. E depois aquilo tudo em termos de som foi evoluindo bastante. Os PAs depois começaram a ser muito mais compactos. Nós temos, aliás, uma história muito gira que eu vou contar, talvez em primeira mão. Nesta edição dos 50 anos da festa, vai sair um livro sobre os 50 anos da festa. E o livro está muito bem organizado, porque no fundo é um resumo dos 50 anos. Depois, muitas das coisas que estão no livro, muito possivelmente terão de ser desenvolvidas depois noutros trabalhos. Mas é um resumo destes 50 anos da festa. Mas, por exemplo, só para contar essa história, houve um ano em que os PAs depois continuaram a vir de Londres e houve um ano em que, de facto, aquelas colunas eram todas de uma certa dimensão e quase gigantesca, e os PAs depois têm vindo a evoluir para cada vez serem mais pequenos do ponto de vista do tamanho. Então houve um ano em que não fomos avisados e estávamos com o palco todo montado para ter as colunas enormes, nomeadamente lá mais em cima do palco, quando veio um PA compacto. Quando o Ruben viu aquilo, ele disse: "Bem, como é que vamos resolver isto? Não podem ficar aqui uns buracos", digamos assim, "no palco", porque e com este PA todo reduzidinho, metido, que no fundo era bastante melhor em termos de som do que os outros. E então, imagine-se, para aquilo não ficar assim, construímos umas colunas em madeira, para colocarmos em todos os buracos e ver-se que aquilo de facto, estava tudo preenchido, mas no fundo o PA era compacto e toda a gente dizia: "Ah, de facto, isto o som este ano está muito melhor e tal e não sei o quê". Mal sabiam as pessoas que o PA era, de facto, em termos de qualidade, muito melhor, mas estava com umas medidas bastante mais reduzidas. Portanto, as primeiras festas tiveram essa componente de uma grande invenção, planificação e mobilização,
É um grande desafio.
Brutal, não é? Hoje em dia já é diferente, completamente diferente. Portanto, por um lado, há muito mais oferta e, e por outro lado, para além de estar mais diversificada toda essa oferta, até do ponto de vista da concorrência, podemos sempre ter outro tipo de atuação em termos do som, embora nós sejamos um pouco fiéis a todas empresas que têm trabalhado connosco e os técnicos que têm trabalhado connosco ao longo do tempo, porque de facto se têm mantido como amigos da festa e alguns deles até nasceram para a profissão na festa e aqui continuam.
O Avante esteve nessa evolução técnica da música ao vivo em Portugal, porque eu lembro que o Ruben dizia que os PAs não estavam preparados para os concertos. Havia sistemas de som para teatro, mas não para concertos.
Exatamente. Todas as profissões estavam mais ligadas quer à rádio, por um lado, em termos do som, quer também ao próprio teatro, e eram, digamos, concebidos e feitos para espaços interiores e pequenos e não ao ar livre. As festas ao ar livre, nas aldeias, não tinham bem PAs, tinham mais daquele sistema de cornetas, em que o som era completamente diferente daquilo que os nossos ouvidos hoje estão habituados, com mais qualidade. E, portanto, não havia essa possibilidade de termos um som com a qualidade que nós tínhamos em nossa casa, com os gira-discos profissionais. E a festa [do Avante!] deu um grande contributo para isso.
A única edição do Avante! em recinto fechado, foi na FIL. Depois, começam a ter outros tipos de desafios, o que vos obrigou sempre a usar o recurso a outros espaços, como foi o caso do Hipódromo do Jamor, logo em 1977. Que memórias têm desse segundo recinto, em 1977 e em 1978?
Na FIL, nós estivemos, em termos de construção, muito limitados àquilo que eram os módulos da própria FIL, de exposição. Portanto, os módulos eram aqueles, não tivemos muita possibilidade de inventar, por um lado e por outro, até porque foi tudo muito em cima do acontecimento. Não sabíamos bem ao que íamos ainda, embora toda a praça cá fora da FIL fosse ao ar livre, e foi aí que se foi realizado o comício e alguns dos espetáculos. Portanto, já houve uma componente de interior e uma componente de exterior, mas ainda relativamente pequena para a dimensão que depois veio a assumir no Jamor. E quando se viu a festa, o jornal Avante! titula: "A festa que o Portugal nunca tinha visto". Foi logo na quinta-feira a seguir, quando saiu depois da festa, porque foi de facto um imenso mar de gente em tudo. Só para terem uma ideia, todos os consumíveis de gastronomia esgotaram no no primeiro dia. O que quer dizer que nós nem sequer relativamente às quantidades de consumo das pessoas, tínhamos um conhecimento e não poderíamos ter, não é, sobre tudo isso. Portanto, quando fomos para o Jamor, digamos que houve aqui um golpe de asa em termos de invenção, de como é que nós iríamos agora ocupar um espaço e fazer uma construção toda ela muito mais dinâmica e completamente nova, surgindo do nada. Os materiais, na altura, que foram logo iniciados, eram os materiais da construção dos andaimes dos prédios e tudo isso. E, portanto, eram materiais muito em torno do tubo, que aliás ainda hoje em dia continuamos com esse tipo de materialização, embora com muito mais novidades e com muito mais inovação, e a madeira à parede, que eram, por um lado, os materiais que eram mais fáceis de poder manusear, e por outro lado, eram os materiais também mais acessíveis, quer do ponto de vista da oferta, quer do ponto de vista até das pessoas que não tinham o know-how ainda para fazer esse tipo de de pavilhões. E, portanto, a partir daí já foi possível, porque vamos lá ver, esse, esse tipo de materiais vai viver muito em função daquilo que nós quisermos que eles, no fundo, sirvam. Portanto, desde pavilhões, que foram construídos só para exposições, pavilhões só para gastronomia, para bares, restaurantes, houve toda uma possibilidade de invenção de arquitetos, engenheiros, pessoas que estavam connosco, operários que estavam connosco também, relativamente à possibilidade de construirmos novidades. Nunca ninguém tinha visto aquele tipo de exposição e de funcionamento. E no fundo, construímos uma cidade, com várias valências, que iam desde a cultura ao desporto, logo desde o início, à gastronomia, às exposições, às artes, a todo o tipo de cultura, espaços também para crianças, ainda nas primeiras festas, ainda não com a dimensão que agora já assumiu, aquela parte do espaço para as crianças, que hoje é brutal, é fenomenal. É uma coisa fantástica as crianças poderem ter ali um acesso com muitas sombras, com muitos brinquedos, com brinquedos inclusivos e com muitas atividades para crianças. Fomos evoluindo nesse aspeto e hoje em dia é um orgulho que nós temos relativamente a esse espaço.
Como é que o Avante! se impôs como um evento gastronómico de grande diversidade?
Evidente que nós não podemos viver sem consumir aquilo que mais gostamos e a gastronomia faz parte da nossa vida. E portanto, logo desde a primeira festa, cada região apresentou, como é óbvio, os seus petiscos locais, que é aquilo que sabe fazer. Pode divulgar e pode oferecer. Portanto, a componente gastronómica sempre esteve presente na festa. Claro, ela hoje está muito mais desenvolvida, porque digamos que houve uma certa especialização. As pessoas, os nossos camaradas de todas as regiões pelo país fora e ilhas que estão representados, e mesmo os convidados estrangeiros que vêm à festa, ao longo destes 50 anos, foram sabendo, em termos de experiência, aquilo que é mais rentável trazer para a festa e também aquilo que efetivamente as pessoas mais consomem. Portanto, digamos que há uma especialização relativamente a isso, mas podemos dizer que é o único sítio onde se pode encontrar todo o tipo de comida portuguesa regional e de qualidade, desde a doçaria, passando pelos pratos, até aos vinhos e licores e doces. Também no plano internacional, porque todas as delegações internacionais de partidos amigos e democratas que vêm à festa trazem também a sua regionalidade e especificidade em termos gastronómicos.
O desafio de passarem para o Alto da Ajuda torna-se ainda maior.
É maior. O Jamor era um terreno plano, não tinha dimensão de nos vermos uns aos outros, porque estava tudo numa dimensão do olhar, sempre do mesmo tipo de plano. Quando nós saltamos para a Ajuda, que foi extraordinária, a Ajuda é dos melhores espaços que nós já tivemos, comparando em termos históricos. Porque agora, de facto, a Atalaia é bastante bom. Doutros espaços que já tivemos, na Ajuda tivemos o desafio de ter planos diferentes e, portanto, pudemos jogar com essa diferenciação de planos diferentes em termos do olhar. O palco, que na altura se chamava Palco Um, que hoje se chama Palco 25 de Abril, tinha um auditório de excelência, porque era de fato num vale e o palco estava lá em baixo e, portanto, todas as pessoas tinham um anfiteatro natural brutal para poderem assistir aos espetáculos. Nós tivemos, em termos da da visão, grandíssimos artistas a construírem painéis gigantescos, que estão na memória fotográfica ainda de algumas pessoas dessa altura e também nas fotografias podemos ver coisas fantásticas que foram pintados em madeira, e que representavam os grandes monumentos a nível nacional, até painéis que representavam a luta dos trabalhadores. Uma coisa fantástica, que agora está também no livro dos 50 anos, poderá ser apreciada, essa forma diferenciada de fazermos arte e de estarmos, e de vivermos uma cidade, porque no fundo, esta referência sempre à cidade em festa e à cidade que assume as suas várias componentes da vivência humana, foi muito importante também na Ajuda. Portanto, aí nós pudemos espraiar-nos de outra maneira, arranjarmos recantos mais intimistas para algum tipo de exposições ou de espetáculos, mais zonas de sombra, com muitas árvores, porque estávamos mesmo ali ao pé de Monsanto, também de ter um outro tipo de acolhimento e de sossego, e de prazer e de estar em família. Portanto, a Ajuda possibilitou-nos essa visão diferenciada de vivermos o espaço.
As pessoas adoravam esse recinto do Alto da Ajuda. Isso também se devia ao fato de ouvir descrições de se verem as luzes da cidade.
Sim, era uma cidade dentro da cidade, com a visão do Tejo, que também se via do Alto da Ajuda e a Ponte 25 de Abril e tudo aquilo. Havia essa visão diferenciada, que hoje também encontramos na Atalaia. Também temos a visão na Atalaia, também vemos Lisboa, as luzes de Lisboa, também vemos o Tejo e também temos uma implantação que tem a ver com essa forma como estamos integrados também no rio.
1987 foi o ano em branco do Avante! Foi um rude golpe, não foi?
Foi um golpe duro, portanto, nesse ano não fizemos a festa, mas por outro lado também serviu pra refletir sobre a própria festa. Portanto, foi um ano de reflexão, em que muita coisa foi pensada, como encontrar um espaço que fosse nosso, que fosse do Partido Comunista Português, que fosse da festa e que pudéssemos finalmente assumir como um espaço permanente que pudéssemos usar, desfrutar e sobretudo, ter as infraestruturas necessárias para não andarmos com a casa às costas. Portanto, esse ano foi, desse ponto de vista, fundamental para essa reflexão.
Loures era um sítio mais complicado, não era? Em termos de acessos, não havia ligação ferroviária, tinha que se ir de carro muitas vezes. O Ruben lembrou-me que as saídas do recinto eram muito complicadas.
Esses dois anos foram muito complicados, pela questão das infraestruturas. Tivemos que retirar basicamente tudo o que tínhamos na Ajuda, e teve que ficar tudo armazenado. Trabalharmos aquele recinto, que mais uma vez era um recinto plano, ao qual já não estávamos habituados. Ou seja, a Ajuda tinha todos aqueles altos e baixos que eram bastante melhores de todos os pontos de vista. E por outro lado, o facto de estar também muito próximo ali do Tejo e de ser uma zona também muito ligada ao Sapal, também fez com que algumas questões de âmbito ambientais, a existência de alguns mosquitos, tudo isso foi complexo sobre todos os pontos de vista. Os acessos, de facto, foram uma das maiores dificuldades. Mas mesmo assim, quer uma festa, quer outra, em Loures, tiveram uma dimensão ainda muitíssimo massiva relativamente àquilo que nós esperaríamos. Até porque esta questão da festa estar sempre e continua a estar implantada num sítio de proximidade urbana, é fundamental. É fundamental precisamente porque as pessoas têm uma muito maior mobilidade e possibilidade de irem e voltarem da festa, e voltando para as suas residências. Embora nós tenhamos sempre tido, e continuamos a ter um espaço de acampamento para que as pessoas de mais longe possam ficar nesse acampamento exterior, com todas as comodidades que os acampamentos já hoje em dia requerem. E segurança. Mas de qualquer das maneiras, a implantação da festa sempre junta um grande tecido urbano, é sempre bastante melhor do ponto de vista da deslocação dessas mesmas pessoas relativamente à festa.
Há pelo menos uma boa memória de Loures: a angariação rápida de fundos para a compra da Quinta da Atalaia. Creio que foi lá feito o anúncio da compra.
Exatamente. O ano de reflexão deu de facto frutos.
Vocês deram um sinal na altura de cinquenta mil contos.
Cento e cinquenta mil.
Depois, o resto foi uma angariação até rápida.
Sim, desse ponto de vista, nós quando nos empenhamos numa tarefa com um objetivo determinado, acho que em geral conseguimos cumprir com relativa facilidade.
A partir de 1990 passa a ser na Quinta da Atalaia, já a vossa casa, sem preciso montar e desmontar. Outra história se começa a fazer no Avante!
Os desafios são diferentes. É evidente que as infraestruturas agora já estão todas lá. Mas atenção, há uma parte que as pessoas muitas vezes se esquecem que são as infraestruturas que estão lá, mas precisam de ser mantidas. Portanto, nós temos um núcleo de camaradas de apoio à manutenção do terreno da festa, que é fundamental. Porque os materiais também cada vez carecem de uma maior modernização relativamente a tudo. A festa não existiria. Portanto, a questão da manutenção é fundamental. É claro que o desafio agora é outro. Por um lado, tem a grande possibilidade de nós podermos rodar as organizações dentro do próprio plano da festa todos os anos, mais ou menos de dois em dois anos, de três em três. As organizações e os sítios que são mais clássicos na festa vão rodando, vão mudando. E isso traz-nos outros desafios, porque há sempre aquela emulação de uma organização que estava num ano num sítio, agora mudou para outro, faz outro projeto completamente distinto e tenta fazer sempre melhor do que a organização que lá estava. E portanto, há sempre essa emulação muito saudável entre as organizações do partido, que é muito interessante, pelos arquitetos e engenheiros que os vão construindo, que são sempre camaradas nossos ou pessoas com quem trabalhamos localmente, são fundamentais nessa invenção e nesse sempre reequacionar das estruturas da festa.
O palco principal está num anfiteatro natural. É fácil ver em vários pontos do recinto o que se passa.
E com muita relva. Nós semeamos, vamos fazendo várias campanhas de semear relva em vários sítios da festa e de facto aquilo está cada vez mais agradável. Por um lado, com muitas árvores que também têm sido colocadas lá. Muitas existiam também já, mas, mas para além disso, temos semeado muitas, muitas árvores e arrelvado vários espaços. As pessoas poderão este ano então ainda ver espaços mais agradáveis do que o ano passado.
O concerto de Zeca Afonso foi um momento histórico?
Foi um espetáculo global, nós não podemos dizer que foi o espetáculo do Zeca, mas sim um espetáculo onde, na altura, o chamado canto livre e a música de intervenção tiveram um papel de ADN fundamental do que foi aquele espetáculo.
A Amália Rodrigues é uma ausência de vulto na história da Festa do Avante?
Sobre a Amália Rodrigues, o que lhe posso dizer é que nunca se proporcionou. Mas devo dizer lhe, por exemplo, que o Ruben produziu o último espetáculo da Amália Rodrigues, aquando da sua comissão como comissário do Lisboa 94, no Coliseu dos Recreios. E foi um espetáculo muito emotivo. Mas digamos que a Amália tem esta-- olhe, o, por exemplo, hã, o, o Stereossauro, no espetáculo que fez, na Festa do Avante, incluiu no seu espetáculo versos da Amália, com a Amália a cantar, e o palco veio abaixo. Foi uma coisa extraordinária.
Os Trovante ligaram-se muito ao Avante!.
Acho que não sou simplista a dizer isto, mas os Trovante nasceram na festa. Foi o berço dos Trovante a festa do Avante, por vários motivos. Eles começaram a estar muito ligados ao Francisco Viana, que foi o poeta principal da carreira dos Trovante. Fizeram vários espetáculos de divulgação da primeira festa do Avante. Se hoje consultarmos o programa da primeira festa em 76, verificamos que os Trovante não constam, mas eles tiveram lá extra-programa. Tiveram lá extra-programa porque efetivamente uma das dinâmicas que nós tínhamos nas primeiras festas, havia muitos palcos, no fundo eram um puzzle. Porque havia que dar a possibilidade de várias pessoas, como não havia um palco assim gigantesco, várias pessoas puderam ter acesso aos mesmos artistas em horas diferenciadas e em locais diferenciados da festa. E então aquilo era um puzzle. Um artista podia tocar na festa duas e três vezes em palcos diferenciados. E o José Manuel Osório era um desses artistas, que efetivamente tinha três ou quatro possibilidades de atuação e atuou nesses três ou quatro palcos. E já muito à beira da festa, verificou-se que os Trovante tinham toda a possibilidade e dignidade e qualidade de estarem no palco principal, no palco um. E o José Manuel Osório abdicou da possibilidade de fazer o seu espetáculo nesse palco para os Trovante tocarem na primeira festa do Avante.
Aliás, o nome Trovante assumidamente vem do Avante.
Fizeram 11 atuações na festa, como Trovante e depois o Luís Represas também outras tantas, mas também esteve na festa.
Vão fazer alguma homenagem especial ao Luís Represas, hã, nesta edição?
Estamos a pensar nisso.
Um dos concertos especiais no Avante! foi o Chico Buarque no Alto da Ajuda.
Foi um espetáculo muito interessante, até porque na altura o Ruben só teria contratado e falado da possibilidade de vir o Chico. Nós já sabemos como é que são os nossos amiguinhos brasileiros, que são pessoas muito inclusivas, no sentido de todos falarem com todos e todos tocarem com todos, que acho uma característica muito interessante dos brasileiros e de ligarem muito também a outras possibilidades. E então, imagine-se, o Chico trouxe na sua comitiva o MPB 4, a Simone…
Que ninguém conhecia na altura.
Que ninguém conhecia na altura. E ainda trouxe o Edu Lobo.
E o Milton Nascimento era para vir e não veio.
Era para vir e não veio. Mas a comitiva, portanto, era muito maior dos bilhetes que nós tínhamos enviado pela TAP e não sei como, o Chico, enfim, já com a sua dinâmica de conhecimento no Brasil, terá conseguido embarcar mais pessoas do que os bilhetes que tinha na altura. E, portanto, quando chegaram a Lisboa, eram mais as pessoas do que os bilhetes que nós tínhamos enviado pessoalmente. Pois claro que tivemos que proceder a essa reformulação e dos bilhetes, mas foi de facto um espetáculo memorável para as pessoas da nossa geração.
E ainda por cima implicou uma logística de ensaios, não foi?
Uma logística de ensaios, uma logística de arranjarmos um sítio para ele jogar futebol com alguns amigos, porque ele gosta, continua a gostar muitíssimo de futebol. Portanto, no Estádio do Restelo, organizou-se um jogo entre o Chico e uma série de outros amigos que tivemos de facto também tratar disso, até comprar-lhe uns ténis, porque ele não tinha umas sapatilhas, não tinha trazido sapatilhas.
Em que medida este Avante! com 50 anos vai ser ainda mais especial?
Vai ser muito especial porque, digamos, já é um ponto de chegada, de balanço do que está para trás e dos 50 anos, mas sobretudo é uma perspetiva de futuro. Será mais difícil realizarmos a 51ª em função do programa e não só destes 50 anos do que propriamente, é mais importante a próxima festa do que esta. Ou seja, a 51ª será fundamental para percebermos que a festa continua e que a festa é sobretudo futuro e não passado.
A Festa do Avante! decorre até domingo, dia 6. Para hoje, está agendado o concerto da 9ª Sinfonia de Beethoven, no dia dedicado à música clássica.
