"A Complete Unknown": a dyla(n)ceração elétrica da folk
Estreia-se o filme sobre Bob Dylan, bem encarnado por Timothée Chalamet.
No filme "A Complete Unknown", procura-se Bob Zimmerman, o homem por trás do músico, mas só reencontramos Bob Dylan. Quanto muito, chegamos ao “Bobby”, o tratamento fraterno dado pelas personagens mais chegadas ao músico.
Bob Dylan sempre foi uma personagem de Bob Zimmerman, cujo passado de infância e de adolescência no seio de famílias judias é tratado como um tempo remoto de que apenas vale a pena falar dos reveladores serões radiofónicos e das audições do boom do rock & roll. O cofre do passado anónimo de Bob Zimmerman está de tal forma fechado que nenhum biopic o tenta arrombar. Nesta longa-metragem, as memórias antigas de Bob Dylan, quando confrontado com a pressão da sua namorada Sylvie em contar o seu passado, são reduzidas à fábula de trabalhos em feiras e a dons de autodidata.
O biopic “A Complete Unknown”, realizado por James Mangold, fixa-se entre 1961 e 1965, nos primeiros quatro anos do percurso histórico de Bob Dylan, como se fosse uma transposição para ficção do documentário de Martin Scorsese, “No Direction Home”, que se centra no mesmo período e que tem o mesmo itinerário: os clubes folk de Greenwich Village (em Nova Iorque), o hospital de Greystone (onde estava internado Woody Guthrie), o Carnegie Hall (a respeitosa sala de concertos de Nova Iorque) ou o Festival de Folk de Newport.
Com interpretação fidedigna de Timothée Chalamet, o que vemos no filme é o Bob Dylan sub-24, sob brasas, que sobe ao estrelato rock. “Para quê querermos a lua, se já temos as estrelas?”, questiona a personagem de Bette Davis, numa das cenas do filme de 1942 “A Estranha Passageira”, que Bob Dylan vê com a sua namorada Sylvie num cinema nova-iorquino. Mas Bob Dylan torna-se ele próprio a estrela maior sobre a qual a Terra gira, naqueles anos de 1963 a 1965. Para quê a lua, se ele já é a estrela? Mas a Bob Dylan, não bastava.
No filme, vemos os contrastes entre 1961 a 1965, entre o Bob Dylan sem óculos escuros e com óculos escuros, entre o jovem aspirante a músico folk e o homem asfixiado pelos pedidos repetidos para tocar ‘Blowin' in the Wind’. O Bob Dylan de 1965 quer fugir daquele puritanismo folk, e Timothée Chalamet sabe pôr a ferver essas tensões, sem deixar que se perca na comparação com o original.
Tocar ou não o set elétrico no Festival de Folk de Newport de 1965, é essa a questão existencialista do músico que lhe atormenta a alma na parte final do filme. Visto como um profeta na Meca da folk, o Festival de Newport, Bob Dylan tornou-se um demónio para muitos dos que o beatificavam, quando surgiu em palco com um set elétrico e ruidoso, em contramão com o dogma acústico do evento. Aquele concerto elétrico foi como um assalto à casa do campo. Ou foi tão só o desejo de Bob Dylan continuar a ser livre, sem se aprisionar a rótulos. Mais do que músico folk, Bob Dylan afirmou-se como músico naquela eletrocussão de 1965.
Há um antes e depois na música, com o “rebentamento da bomba” do set elétrico de Dylan no Festival de Newport. “A Complete Unknown” replica com detalhe o acontecimento, as bulhas junto à mesa de som e os apupos, e todos os seus antecedentes. Bob Dylan saía do foco na folk, para um golpe e um novo porto de partida em Newport. A música descolou com ele e o folk-rock normalizar-se-ia. De 1961 para 1965, Bob Dylan passou de diletante a dilacerante. Ou melhor, Dyla(n)cerante, ultrapassado o dilema existencialista.
É com boa rodagem em biopics que o realizador James Mangold mostra a sua competência em recriar e em dar realismo ao que Bob Dylan viveu naqueles conturbados anos. James Mangold soube conduzir com alma o elenco do filme sobre a vida de Johnny Cash em “Walk the Line” e desafiou-se a reencarnar a realidade numa pista de corrida automóvel na longa-metragem “Ford v Ferrari”. James Mangold é, ainda assim, um ficcionista que faz uso de alguns dos truques em “A Complete Unknown” para bem do entretenimento. Mangold opta por alguns saltos biográficos e algumas tropelias aos factos, em nome de um bonito filme. Um exemplo disso é o ‘Judas’ vociferado contra Dylan, que aconteceu em Inglaterra da voz de um homem, e não numa mulher revoltada em Newport, como “A Complete Unknown” dá a entender.
O perfeccionismo técnico mostra um enorme esforço de equipa, quer na cenografia, quer na maquilhagem e guarda-roupa, que fazem o espectador viver sensorialmente quase em pleno aquela época, como se embarcado numa máquina de tempo de alta calibragem.
Quem aparece? Uma mulher normal no meio de um naipe de históricos
Suze Rotolo - É o único nome alterado do filme, a pedido de Bob Dylan. No filme, surge como Sylvie Russo, interpretada com fulgor e emoção por Elle Fanning. “A Complete Unknown” é também a história da relação entre Dylan e a sua namorada nova-iorquina ativista, desde que se conhecem numa igreja. Os dois chegam a viver no mesmo apartamento. O ativismo dela levou-o a lutas pela igualdade racial, que o inspirou para a sua célebre canção ‘Blowin in the Wind’. A dificuldade de Sylvie em lidar com o salto brusco para a fama de Dylan contribui para a tensão do filme - reavivando o drama vivido por Suze Rotolo, a mulher normal apanhada pelo furacão mediático à volta do seu par. No filme, Dylan (Chalamet) acende dois cigarros na sua boca, dando um a Sylvie (Fanning), como se fosse o ator Paul Henreid a contracenar com Bette Davis na tal cena do filme “A Estranha Passageira” em que se ouve a frase “Para quê querermos a lua, se já temos as estrelas?”. É Sylvie que enuncia a frase novamente, para assinalar o fim do namoro.
Joan Baez - é a atriz Monica Barbaro que a interpreta, num papel exigente em que a própria também canta. Não há dúvida que conseque o realismo da personagem e justamente está nomeada para o Óscar de Melhor Atriz Secundária. O filme é também o desenlace deste romance no palco e nos camarins entre os dois músicos, que se conhecem num dos clubes de folk de Nova Iorque. Tornam-se no grande par da folk na primeira metade dos anos 60. O choque de personalidades entre os dois - Bob Dylan em conflito consigo mesmo, Joan Baez zeladora da acusticidade da folk - é um dos motores da trama de “A Complete Unknown”. A forte ligação entre os dois, que é também romântica, precipitou o fim do namoro de Bob Dylan com a desamparada Sylvie.
Woody Guthrie - outra interpretação bastante convincente, neste caso de Scoot McNairy, a que se acrescenta a enorme similitude física. Como se esperava neste filme, Woody Guthrie está acamado num hospital, em estado terminal. Guthrie recebe as visitas de Pete Seeger e emociona-se com as canções do “miúdo” Bobby Dylan, a quem oferece uma harmónica.
Pete Seeger - retrato mais simplista de um músico que era mais do que um catequista da folk. Espécie de guardião do espírito acústico da folk, coube-lhe a missão ingrata de tentar persuadir Dylan a não tocar um set elétrico em Newport. A famosa ira de Seeger contra o ruído do concerto elétrico de Dylan está retratada no filme, mas não o mito de que terá tentado cortar o cabo com um machado. Edward Norton é um grande ator, mas neste papel caiu no cliché de um Pete Seeger como apenas um mero purista da folk.
Johnny Cash - James Mangold devia ter ido recuperar Joaquin Phoenix para novo papel de Johnny Cash, que o tinha dirigido tão bem no biopic “Walk the Line". O ator Boyd Holbrook está demasiado estiloso, com tiques que Cash não tinha, porque era um músico sem manias. No filme, é Johnny Cash que dá o “empurrão” para Bob Dylan tocar o set elétrico em Newport. O próprio Johnny Cash tinha dado esse passo na edição anterior do festival, em 1964, mas de forma menos controversa.
Albert Grossman - o ator Dan Fogler interpreta o manager de Bob Dylan. Fogler dá um cariz mais humorado ao empresário, que tinha uma imagem mais austera - tal como retratada no documentário de D.A. Pennebaker, “Don’t Look Back”.
Bob Neuwirth - foi um dos leais músicos de Bob Dylan e até seu road manager. No filme, é desempenhado por Will Harrison. O primeiro encontro entre ele e Bob Dylan num elevador é ficcionado em “A Complete Unknown”. Na verdade, os dois conheceram-se em 1961 num dos clubes folk de Nova Iorque.
Também aparecem no filme o produtor John Hammond, Peter Yarrow (dos Pete, Paul & Mary) e, de forma muito residual, a cantora Odetta e o musicólogo Alan Lomax.
