À décima terceira é de vez? Escócia pode obter apuramento inédito

História longa de uma comédia negra, que tem deixado a Tartan Army fora das segundas fases das grandes competições.

Hoje a Escócia pode apurar-se pela primeira vez para uma segunda fase de um grande torneio, após 12 presenças falhadas em mundiais e europeus. O nome do adversário, Marrocos, faz parte da lista negra de traumas dos dark blues, mais dark que blues. 

Escócia – Marrocos joga-se às 23h00 (em Portugal), em Foxborough, nos Estados Unidos. Se este segundo jogo não correr bem à Escócia, a Tartan Army disporá ainda de uma nova tentativa, diante do Brasil, ao terceiro jogo. Mas ao terceiro jogo, as coisas nunca correm bem à Escócia. O dia da terceira ronda de jogos costuma ser o dia das rodadas finais de cerveja para os adeptos escoceses.

Apesar das numerosas presenças nas fases finais, a Escócia é a única nação das Ilhas Britânicas que nunca passou à segunda fase de uma grande competição. A República da Irlanda e até mesmo os mais pequenos País de Gales e Irlanda do Norte já pisaram a segunda fase das grandes competições de nações, já para não falar da poderosa Inglaterra. Para um país com um histórico de grandes jogadores, como Dennis Law, Dalglish, Souness, Jim Leighton, ou Ally McCoist, não deixa de ser bizarro.

Esta é uma história tramada de guardiões adversários inspirados, golos sofridos nos últimos minutos, más notícias do outro jogo do grupo, e tangentes ao apuramento com empates pontuais e até de goal average. O final do terceiro jogo tem sido sempre o encerramento da campanha escocesa.

Este artigo convoca ainda as memórias do soldado escocês William Wallace, o filme “Braveheart”, o livro e filme “Trainspotting”, as gaitas-de-foles (sempre, as gaistas-de-foles), os Highlands, e a extraordinária vocalista Shirley Manson, dos Garbage.

Cada vez mais equipas apuram-se para a segunda fase. Até 1978, apuravam-se só oito equipas à tal second phase. Hoje, avançam 32. Será que com esta margem enorme, a Escócia afasta a maldição?

Aqui vai um histórico de 12 takes falhados, para uma cena: a passagem da Escócia à segunda fase.

Take 1: Mundial da Suíça 1954
Escócia – Uruguai: 0-7
Apesar de cada grupo ter quatro equipas, cada seleção só disputava dois jogos na fase inicial, num modelo singular jamais repetido. Este modelo abriu a possibilidade da estreante Escócia poder apurar-se no segundo jogo, apesar da derrota no jogo inaugural frente à Áustria. Mas o adversário eram os campeões do mundo Uruguai que, com a sua orquestra de tango, deixou sem ar as gaita-de-foles da Tartan Army, na maior goleada alguma vez sofrida pela Escócia em Mundiais. Foi a 19 de junho, há precisamente 72 anos.

Take 2: Mundial da Suécia 1958
Escócia – França: 1-2
A campanha escocesa para o Mundial de 1958 começa a correr mal... antes de começar. Em fevereiro desse ano, o selecionador escocês contratado, o mítico Matt Busby, sofre graves ferimentos no famigerado acidente aéreo que transportava a equipa do Manchester United na Baviera. Busby sobrevive, mas não fica em condições de treinar a seleção da sua nação. O treinador substituto Dawson Walker nunca passará de um treinador interino. Os primeiros dois jogos da seleção de azul escuro valem apenas 1 ponto. O terceiro jogo é de aflitos, frente à poderosa França, que, para mal da Tartan Army, esteve inspirada em Örebro, especialmente a dupla de avançados, Kopa e Fontaine, cada um com o seu golo para o registo.

Take 3: Mundial da Alemanha Ocidental 1974
Escócia – Jugoslávia: 1-1
Como um alinhamento quase perfeito de planetas, os lendários Dennis Law (de 34 anos) e Kenny Dalglish (de 23 anos), apesar de gerações diferentes, fizeram parte da mesma seleção em 1974. E as coisas até nem estavam a correr mal. Os dark blues vencem o inexperiente Zaire por 2-0 e escapam ilesos num empate sem golos sofridos diante do Brasil, que ostentava o título de campeão do mundo. Faltava a ronda final. Seria uma corrida a três por dois lugares na segunda fase. E sempre que há uma corrida a três por dois lugares, a Escócia fica de fora. No jogo decisivo, a Escócia acercava-se cada vez mais da baliza adversária com uma fome danada. Mas o guardião jugoslavo Maric estava em todo o lado, para frustrar as tentativas ofensivas da Tartan Army. E quando Maric não estava presente, formava-se uma segunda equipa de guarda-redes, que por acaso não usavam luvas nem as mãos, meros jogadores de campo e bombeiros improvisados, mas que salvavam cada bola escocesa de fazer abanar as suas redes. Contra a corrente do jogo, o sérvio Karasi desfeiteia o até então imbatível guardião escocês David Harvey. O azar da Escócia nos momentos decisivos torna-se-ia um déjà vu amargo. A seleção britânica conseguiu empatar o jogo ao cair do pano, mas passou a estar dependente do outro jogo em simultâneo. E sempre que a Escócia fica a acompanhar remotamente outro jogo, as notícias nunca são boas. A mais de 200 quilómetros de Frankfurt, o Brasil ganharia em Gelsenkirchen ao Zaire por 3-0, superando a Escócia por um golo na corrida final, apesar dos mesmos pontos. A rodada final de cerveja de trigo para os adeptos escoceses aconteceria nesse dia, a 22 de junho de 1974. A segunda fase volta a ser uma miragem para os escoceses.    

Take 4: Mundial da Argentina de 1978
Escócia – Holanda: 3-2
Como habitual, a Escócia chegava aflita ao terceiro e decisivo jogo, em Mendoza. E desta vez, tinha uma missão quase impossível: vencer a fortíssima Holanda por uma diferença de três golos para passar à segunda fase. A Laranja Mecânica tinha mais ou menos as mesmas peças que a mítica campanha do Mundial de 1974 que os levou ao 2º lugar – Rep, Neeskens, Rensenbrink, Krol, exceto Cruijff, que boicotou o Mundial da Argentina. Escrever mirtilo mecânico não soa tão bem, mas os dark blues tinham uma constelação de jogadores de topo dos clubes gigantes da liga inglesa, incluindo Souness e Kenny Dalglish, que tinham sido campeões europeus de clubes pelo Liverpool, no mês anterior. A meio da segunda parte, a Escócia estava a ganhar por 3-1, a um golo de conseguir o apuramento para a segunda fase. Mas na vertiginosa cidade andina de Mendoza, o neerlandês Rep deu-se bem com as alturas e, com um tiro de longa distância com a precisão de um sniper, rematou ao alto para o canto superior da baliza, deixando no chão o guarda-redes Alan Rough e todas as esperanças da nação escocesa. Fica, no entanto, na memória escocesa o golo maradonesco de Archie Gemmill, que deixou legado na literatura e cinema da nação, através do livro e filme “Trainspotting”, em que a personagem junkie Mark Renton desabafa, após uma dose de cavalo: “Phew! I haven't felt that good since Archie Gemmill scored against Holland in 1978!”. 

Take 5: Mundial de Espanha de 1982
Escócia – União Soviética: 2-2
Os adeptos escoceses viveram o seu “Verão Azul” na Andaluzia no Mundial de 1982. Foi um verão de sonho, com uma das melhores seleções da Escócia de que há memória, com Souness, Stracham, Dalglish, Archibald, entre outros jogadores bem competitivos. Antes dos jogos, os adeptos viviam dias de euforia, ocupando as praias e as praças, banhando as barrigas nas fontes e enchendo-as de cerveja nas esplanadas. Era um “Verão Azul” de tons escuros, com mais kilts do que calções nas ruas de Málaga e de Sevilha. O estádio de Rosaleda era o Hampden Park veraneante. Málaga estava convertida numa Glasgow ou Edimburgo com praia. Porém… todavia… mas… contudo… Há sempre uma conjunção adversativa gramatical a atrapalhar a festa escocesa quando se trata de futebol. No terceiro jogo, a Escócia estava obrigada a vencer a poderosa União Soviética, um agregado dos melhores jogadores russos, ucranianos, georgianos, arménios e bielorrussos numa só seleção. A primeira parte da Escócia foi de sonho, a vencer a URSS por 1-0 e a “encostá-la às cordas”, com o apoio entusiástico da enorme mancha azul escura nas bancadas – numa época de Guerra Fria em que era muito raro os adeptos dos países de leste saírem para apoiar as suas equipas na Europa Ocidental. Mas na segunda parte, o verão azul escuro virou preto, com uma reviravolta que gelou o caldeirão com bafo de cerveja, whiskey e de gaitas-de-foles. Os dois golos soviéticos que valeram a passagem da URSS para a fase seguinte foram apontados por dois jogadores georgianos do Dínamo Tblissi: Chivadze e Shengelia. O golo de Shengelia revela a sua enorme qualidade, mesmo que o lance tenha nascido de um choque trapalhão entre os dois defesas escoceses; a bola para-lhe aos pés e isola-se com rapidez e muita habilidade a contornar o guarda-redes, que era Alan Rough. Mas quem brilhou mais foi na outra baliza o russo Dasaev, num dos grandes jogos do Mundial e numa das melhores exibições de que há memória da Escócia... mas com um final trágico.

Take 6: Mundial do México de 1986
Escócia – Uruguai: 0-0
Em 1986, já não passavam só oito seleções à segunda fase, como acontecia até 1978. Em 1986, passavam 16, e até os quatro melhores terceiros dos grupos conseguiam passar. Seriam boas notícias para a Escócia, portanto. Seria mais fácil ultrapassar a fase dos grupos. Mas o país das Terras Altas (as tais Highlands) volta a dar-se mal com as terras altas no outro lado do Atlântico. Depois de os escoceses se terem eclipsado com os Andes argentinos em 1978, os mais de dois mil metros de altitude em Nezahualcóyotl, no México, também não foram muito inspiradores. Após duas derrotas, a Escócia teria que vencer o Uruguai de Enzo Francescoli para ter algumas hipóteses de apuramento. Logo no primeiro minuto, a Escócia vê-se a jogar contra dez, na expulsão mais rápida de sempre num Mundial – a entrada dura do uruguaio José Batista não mereceu contemplações. Mas nem a vantagem numérica, nem a garra omnipresente do centro-campista Stracham conseguiram dar brilho à Tartan Army. A grande oportunidade tornar-se-ia a do Uruguai, num golpe de cabeça que obrigou a um voo salvador do mítico guarda-redes escocês Jim Leighton. Secaram os golos da Escócia, secaram os bares. Voltava a terminar cedo a campanha escocesa num Mundial. A seleção dos dark blues começava a dar sinais de um declínio que nunca mais conseguiu reverter. 

Take 7: Mundial do Itália 1990
Escócia – Brasil: 0-1
“How close can you get”, é uma frase que os escoceses conhecem bem, e foi esse mesmo o desabafo do relatador da televisão britânica, quando o avançado escocês Mo Johnston, com a baliza a três metros, remata para as redes, mas o guarda-redes Taffarel tem um reflexo que só os melhores nº1 conseguem. Teria sido o empate nos minutos finais que colocaria a Escócia finalmente na segunda fase. Como acontece sempre com os escoceses, Mo Johnston atira-se ao chão inconsolável. A Escócia fica em 3º, à espera de boas notícias no dia seguinte, no grupo E, de modo a que passasse como um dos quatro melhores 3ºs e se apurasse finalmente para a fase de eliminatórias. Mas como já estava escrito, sempre que a Escócia espera por boas notícias num outro jogo, por acesso remoto, as boas notícias não surgem. E o balde de gelo foi sofrido pelos escoceses na forma mais cruel, com um golo nos descontos de Fonseca, completamente solto na área sul-coreana, que colocava o Uruguai nos oitavos-de-final e punha de fora a Escócia. Depois do México 86, outra vez o Uruguai interrompia o sonho escocês. Nunca a tangente ao apuramento para a segunda fase foi tão próxima para os escoceses. 

Take 8: Europeu do Suécia 1992
Escócia – Alemanha: 0-2
Ao fim de sete presenças em Mundiais, a Escócia finalmente se apura para um Europeu. Mas, mais uma vez no historial escocês, David não venceu Golias, e a Tartan Army recebeu rapidamente, ao fim de dois jogos, guia de marcha para férias, depois de derrotada pelas fortíssimas Holanda (Koeman, Rijkaard, Gullit, Bergkamp, Van Basten) e Alemanha (Brehme, Kohler, Hassler, Effenberg, Klinsmann), detentoras respetivamente dos títulos de campeões europeu e mundial. Só a garra não vence jogos. Basta lembrarem a história da Escócia, como o corajoso soldado William Wallace (personificado no filme “Braveheart” pelo ator Mel Gibson), cujo exército foi derrotado pela poderosa armada inglesa. David não venceu Golias.

Take 9: Europeu de Inglaterra 1996
Escócia – Suíça: 1-0
A Tartan Army desceu à terra dos vizinhos de baixo, a rival Inglaterra, ainda para mais para jogar no grupo do velho inimigo. Mas mais uma vez, foi por uma nesga que a Escócia não “matou o borrego”. A seleção dos kilts acrescentou mais uma sequela “that was close”. A Escócia termina com os exatos pontos e o mesmo diferencial de golos marcados e sofridos que a Holanda. Adivinhem quem fica de fora das eliminatórias? Se o golão de Ally McCoist contra a Suíça, com um remate de fora da área, valesse três pontos como no basquete, outro destino ocorreria. Mas como cada golo só vale por um, a Escócia volta a assistir à fase de eliminatórias em casa.


 
Take 10: Mundial de França 1998
Escócia – Marrocos: 0-3
Lisboa, 23 de junho de 1998. A Expo 98 está a decorrer. A Praça Sony está cheia de gente para ver os jogos do Mundial no ecrã gigante, que tinha sido idealizado para os jogos de Portugal. Mas Portugal, como era dantes normal, tinha falhado o apuramento. Já muitos brasileiros viviam no nosso país então. E a torcida canarinha aglomerava-se na Praça Sony para ver os jogos do Brasil. Nesse final de tarde de 23 de junho, o escrete, que já estava apurado, jogava o terceiro jogo contra a mais fraca Noruega (uma equipa banal se comparada com a que tem hoje). Os escoceses apostavam as suas fichas no evidente favoritismo do Brasil, campeões do mundo em 1994. Deles precisavam para se apurarem. E já agora, também eles próprios precisavam de vencer Marrocos para deixarem de fazer da fase de eliminatórias uma mera miragem. Mas como está várias vezes escrito na história e neste artigo, sempre que os escoceses precisavam de boas notícias do outro jogo, as boas notícias não surgiam. Déjà vu? Sim, e é amargo. O Brasil perde surpreendentemente contra a Noruega, que se torna inalcançável pontualmente para a Escócia. Os dark blues, por sua vez, são arrasados por Marrocos, por três golos sem reposta, numa noite em que o veterano guarda-redes Jim Leighton parecia um boneco de matraquilhos abandonado, em que, a cada tiro, a bola entrava. Como sempre, o indefetível adepto escocês Rod Stewart estava mais feliz nas bancadas antes do jogo do que no final. Entretanto, na Praça Sony, em Lisboa, os portugueses festejavam os golos de Marrocos. Esses mesmos portugueses rejubilaram uma hora depois com uma outra escocesa, a ruiva Shirley Manson, vocalista dos Garbage, que teve uma performance estonteante na tal Praça Sony. Era o primeiro concerto dos Garbage em Lisboa, uma das bandas icónicas dos anos 90 mais desejadas. Shirley Manson, feliz e sorridente com o calor do público português, não esqueceu a noite triste da seleção do seu país nesse dia e dedicou-lhes a música ‘I Think I’m Paranoid’. “For a scottish girl, it matters”, desabafava a carismática rocker. 

Take 11: Europeu 2020
Escócia – Croácia: 1-3
Repete-se a história: a Escócia chega ao terceiro jogo com esperança de passar à há muito sonhada segunda fase. Mas surge um dado diferente: a Tartan Army ia jogar em casa, na sua catedral, o Hampden Park, em Glasgow. O efeito de jogarem em casa só era atenuado pela pandemia da covid-19, que em 2021 depauperava os estádios com pouco público. Bastava uma vitória para a passagem, mas o adversário era de monta: a vice-campeã do mundo Croácia. A primeira parte foi equilibrada, com golos e oportunidades repartidos para ambos os lados. 1-1 ao intervalo. Mas repete-se a história: a segunda parte foi o que sempre foi para a Escócia nos terceiros jogos, um pesadelo. A qualidade superior da Croácia fez-se sentir, e cada uma das suas estrelas, Modric e Perisic, faturaram à vez. Repete-se a história: a Escócia fica de fora da segunda fase. 

Take 12: Europeu da Alemanha 2024
Escócia – Hungria: 0-1
Já lá vão dez minutos de tempo extra. A Escócia tem um canto a seu favor, na procura desesperada pelo golo que os poderia levar à segunda fase do Europeu. Nesse mesmo lance, um defesa húngaro corta a bola na sua área, e em dois ou três toques, inicia-se um contra-ataque na direção da baliza escocesa... Já sabem como é que isto vai acabar, não é? O extremo húngaro Salai entra pela ala direita da grande área escocesa, faz um passe rasteiro para o centro da área e o ex-benfiquista Csoboth, na marca do penalti, atira para o fundo das redes. Mais uma vez, a enorme mancha de azul escuro de adeptos no estádio volta a testemunhar a festa dos adversários. “No Scotland, no party”. A Escócia fica novamente de fora. Déjà vu deve ser dito com sotaque escocês, esqueçam o sotaque francês.