"A democracia não pode jogar com quem faz batota": o grito político de Valter Hugo Mãe

O escritor apresentou o seu novo livro "O Século dos Imbecis" e refletiu sobre um tempo em que a informação nunca foi tão abundante, mas o conhecimento parece cada vez mais escasso.

O título do novo romance de Valter Hugo Mãe não deixa ninguém indiferente. O Século dos Imbecis chega às livrarias como uma provocação aparente, mas o autor garante que a intenção é outra: lançar uma inquietação sobre o mundo contemporâneo e sobre a forma como lidamos com o conhecimento e a cidadania.

Durante uma conversa no festival Babell, no Porto, o escritor explicou que o título deve ser entendido como um sobressalto artístico. “Não podemos observar um objeto artístico sem sobressalto”, afirmou. Mais do que apontar culpados, o romance procura questionar se estamos a viver uma época em que a ignorância deixou de ser uma limitação reconhecida para se transformar numa identidade social aceite e até celebrada.

Para Valter Hugo Mãe, o problema não está na ignorância em si, inevitável na condição humana, mas na forma como ela passou a ser encarada. “O ser-se humano é ignorar-se”, observou, lembrando que haverá sempre mais para conhecer do que aquilo que conhecemos. O que o preocupa é uma espécie de “despudor” perante a ignorância, uma normalização que dispensa o esforço de compreender.

No centro da narrativa está Agilulfo, uma personagem que funciona como metáfora e experiência moral. Ao subir à montanha, torna-se mais inteligente; ao regressar, perde essa lucidez. A transformação, explicou o autor, coloca diante dos leitores um dilema que considera emblemático da contemporaneidade: escolher entre o caminho da aprendizagem ou o caminho do entretenimento fácil.

“Somos o tempo da informação, mas não sei se seremos o tempo do conhecimento”, afirmou. A reflexão atravessa todo o romance e dialoga com uma realidade marcada pelo acesso ilimitado a dados, notícias e conteúdos. Nunca foi tão fácil aprender, mas também nunca foi tão fácil dispersar a atenção.

Na visão do escritor, a sociedade atual vive uma espécie de infantilização coletiva. Os instrumentos que poderiam servir para aprofundar o conhecimento são frequentemente usados apenas para entretenimento. O resultado, diz, é uma cidadania menos robusta e menos consciente.

Valter Hugo Mãe observa ainda que as fronteiras culturais entre gerações parecem esbater-se. Pela primeira vez, sugere, os adultos consomem muitas das mesmas narrativas que as crianças, partilhando referências centradas na fantasia, nos super-heróis e em universos imaginários. Não se trata de rejeitar a fantasia, que considera profundamente sedutora, mas de questionar a sua predominância quase absoluta como referência cultural.

“O que não acho normal é que ela se instale como uma hipótese quase única de referência cultural”, afirmou, defendendo uma literatura e uma arte capazes de explorar a complexidade da condição humana.

A dimensão política do romance é assumida sem hesitações. Questionado sobre se este será o seu livro mais político, Valter Hugo Mãe respondeu que toda a arte é inevitavelmente política. Ainda assim, reconhece que O Século dos Imbecis procura refletir de forma particularmente direta sobre o tempo presente.

O autor rejeita a ideia de uma cidadania distante ou passiva. Num contexto em que vê crescer a desinformação e a manipulação, defende a necessidade de uma participação ativa e vigilante. “Quando existe batota na democracia ela precisa de ser pura e simplesmente abatida e denunciada”, afirmou, numa das declarações mais contundentes da conversa.

A apresentação do livro aconteceu no âmbito do Babel, festival literário que reuniu no Porto algumas das mais importantes vozes da literatura internacional. Visivelmente entusiasmado com o evento, Valter Hugo Mãe destacou a oportunidade rara de conviver e ouvir autores como Salman Rushdie, Margaret Atwood e Julian Barnes.

Mais do que as obras, foi a dimensão humana destes escritores que o marcou. Falou da “gentileza” de Rushdie, da fragilidade e generosidade de Atwood e da simplicidade com que Barnes conversa com leitores e colegas. “Quando a literatura prova a sua humanidade a partir do autor, isso comove-me muito”, confessou.

Num festival que celebrou livros, ideias e encontros, a intervenção de Valter Hugo Mãe deixou uma pergunta que ecoa para lá das páginas do seu novo romance: numa era de informação infinita, estaremos realmente a tornar-nos mais sábios ou apenas mais distraídos?

É precisamente nesse território de inquietação que O Século dos Imbecis se instala, transformando a literatura num espaço de debate sobre a verdade, a responsabilidade e o futuro da vida democrática.