A estreia triunfante dos NAPA no Coliseu de Lisboa

Deram um bailinho de música. A banda madeirense estreou-se ontem na sala lisboeta.

Esta sexta-feira, a banda, que há mais de dez anos ganhou forma numa cave na Ilha da Madeira, “convocou” o “um mar de gente” que tanto queria para o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, depois de, há poucos dias, ter esgotado o Coliseu do Porto. 

Se ‘Deslocado’, o tema que o coletivo madeirense levou à Eurovisão, andou a circular por playlists mundiais e viralizou nas plataformas digitais com vista para o mundo, cá por casa tivemos o privilégio de ver a dimensão inteira do quinteto.

A dimensão, essa, é bem maior que apenas uma canção que se colou aos ouvidos de milhares, dada a exposição da competição eurovisiva. O grupo expande-se em dois álbuns e na linha do horizonte tem um disco novo, a ser editado ainda durante este ano. Além dos discos, os NAPA expandem-se, com distinção, alegria e energia fervilhante, nos palcos. 

Em “formato big band”, como os próprios escreveram nas redes sociais, João Guilherme Gomes (voz e guitarra), Francisco Sousa (guitarra), João Rodrigues (bateria), Diogo Góis (baixo) e João Lourenço Gomes (piano) levaram extras para o palco: um trio de sopros, uma ilha de percussão (a cargo de Bernardo Rodrigues) e um coro feminino de quatro elementos.

Pelo “mar de gente” – palavras dos próprios quando convidaram o público para os coliseus – os NAPA fizeram uma travessia pelas canções dos álbuns que editaram até ao momento - "Senso Comum" e "Logo Se Vê". Também ofereceram temas novos que vão fazer parte do próximo passo discográfico da banda madeirense que para o novo registo se juntou ao produtor brasileiro Lucas Nunes. 

Ao elenco que, fielmente, foi acompanhando o quinteto ao longo do concerto, os NAPA somaram convidados. Beatriz Pessoa, Van Zee, Silly e o guitarrista madeirense André Santos, que levou para o palco lisboeta um pedacinho do som tradicional da Madeira. 

Outro extra foi então o tal "mar de gente" que fez a travessia pelas canções ao lado da banda, cantarolando, com entusiasmo e afinação, grande parte do reportório escolhido para a celebração do percurso de grupo nos icónicos coliseus. 

Já perto das nove e meia da noite, os últimos a chegar à sala iam-se acomodando nos lugares que ainda estavam livres, enquanto, na paisagem do palco, os instrumentos – que não tarda iam começar a encher as canções - repousavam à frente de um bonito cenário em tons púrpura que foi variando, com elegante simplicidade, a paleta de cores ao longo do espetáculo.  

Escutou-se um grito em uníssono quando as luzes do coliseu lisboeta se apagaram para anunciar a chegada do quinteto. A entrada foi triunfante e aclamada. Algures, vindo da plateia, um grito robusto deu as boas-vindas ao grupo. Os cinco rapazes entraram em cena, de sorriso aberto, a acenar para todos os cantos do coliseu e debaixo de palmas e gritos. O "mar de gente" já bem estava agitado. As ondas de euforia já se formavam na sala. 
 
'Jeito Para Tudo' foi a primeira a soltar-se do alinhamento. O frontman João Guilherme grita, "Lisbooooooooa" e desabafa com honestidade: "é surreal estarmos aqui".

Segue-se 'Enredos', agora com o quarteto de coros no palco. O irrequieto e carismático vocalista do coletivo pede mais cantoria - como se fosse preciso - pedido esse que foi acatado sem grande hesitação. "Muito obrigado a toda a gente que está aqui hoje", disse ao público, parecendo ainda um pouco incrédulo com a enchente. 

É então que apresenta 'Amor de Novo', canção que os NAPA fizeram ao lado dos brasileiros Jovem Dionísio, que ontem foram substituídos na voz por João Lourenço Gomes. A novidade foi acolhida com júbilo descarado - o que mostra que quem ali estava aguarda, com franco entusiasmo, o álbum que está por chegar.  

Pulo depois ao passado e ao álbum "Logo Se Vê". Em 'Ficamos Assim', entra o trio de sopros para encher ainda mais o palco. 'Coisas Simples' – outra novidade – veio a seguir. É nesta altura que João Guilherme explica, com claro orgulho no material novo, que o tema foi estreado no concerto que deram há poucos dias no Porto. Pois então, era agora tempo de replicarem a estreia para os fãs que se aglomeraram na sala centenária de Lisboa. Uma festarola de instrumentos e a energia contagiante do vocalista madeirense não deixam ninguém esmorecer. Grato, a voz dos NAPA pergunta ao público se o tema está aprovado e, de imediato, assume: "é fixe, é fixe".

Os tons do palco escurecem para o início mais sereno de 'Assim Sem Fim'. É a canção que chama a açoriana de raiz Silly (Maria Bentes) ao palco. A cantora entra a rimar, mas quando o tema começa a agigantar-se, as vozes de João Guilherme e Silly cruzam-se, bem embrulhadas pelo apoio instrumental. Até que tudo voltar a serenar.  

"Vamos acalmar um bocadinho", diz João Guilherme com a guitarra acústica nos braços para dedilhar os primeiros acordes de 'Lembra'. Telemóveis no ar, a servir de pontos de luz, acompanham a canção de "Logo Se Vê" que termina com a suavidade da flauta que, às tantas, se funde com o som do piano que "impõe" silêncio na plateia.

O silêncio só dura até à chegada da cantora Beatriz Pessoa, que recolhe aplausos enquanto se acomoda no palco, mas volta a "impor-se" quando Beatriz entrega a voz de gigante a 'Gigantes' ao lado de João Guilherme. O momento belo e delicado arrepiou, certamente, as emoções de quem ali estava. Um abraço entre os dois selou o final. 

Há uma sensibilidade de apelo à comoção na voz do vocalista madeirense que, por vezes, nos lembra a sensibilidade refinada de um Salvador Sobral, por exemplo. Mas também é certo que a voz de João Guilherme tanto se aloja nesse lugar, mais recatado, de comoção como, em picos de exaltação ou fúria, anda à solta pela sala.

Com a guitarra acústica outra vez nos braços, começa agora cantar 'Infinito', com uma leve luz a incidir no lugar onde estava. Eis que sobe ao palco o madeirense Van Zee para o dueto com o conterrâneo. O rapper puxa pelas vozes e palmas da plateia, e do palco ouve-se qualquer coisa como um exclamativo: “Madeira no mapaaaa!”. 'Infinito' é sobre a experiência mútua de perder um amigo e por isso foi também o momento em que os NAPA e Van Zee lembraram e celebraram o tal amigo que perderam quando eram mais novos.

Já a meio do concerto, o som de pássaros e do mar antecipa a ode à saudade e à nostalgia 'Não Admira'. Regresso dos sopros e um salto, sem gravidade que os prendesse ao chão, ao contagiante 'Na Lua' que se expande ao vivo até ao final apoteótico que merece uma nova aclamação do público. 

"É inacreditável estar aqui", desabafa, mais uma vez, João Guilherme, sublinhando que não há muitos madeirenses que tenham atuado numa sala como o lendário coliseu. O cantor e guitarrista aproveita o momento para manifestar gratidão pelos que estão ali, lembrando o início do percurso do coletivo numa garagem insular e longe dos maiores palcos do país. Desdobra-se, ofegante, em agradecimentos: aos amigos, à família e sobretudo ao avô que estava presente na sala, bem acomodado entre amigos e fãs. Sentado num dos camarotes estava certamente orgulhoso do neto que sabe reconhecer a sorte que tem por quem o ampara para as suas grandes travessias musicais. Segue-se no alinhamento a pujante 'Aparentemente'.  

Pausa depois para respirar e para um brinde coletivo. Mais um agradecimento e outro convidado, o guitarrista e amigo do grupo André Santos, que leva para o palco som das cordas da Madeira. O momento é para escutar 'Areia', com os quatro homens das cordas sentados à frente do palco, amparados, mais uma vez, pelas vozes dos fãs. "Isto foi muito bonito", exclamou o vocalista antes de fazer um convite à dança desenfreada. É que vinha aí 'Senso Comum'.

O manifesto de libertação das amarras da estupidez com que, por vezes, nos esbarramos nas redes sociais, foi embrulhado num mood upbeat e levou a plateia ao êxtase. Transição direta para a ritmada e saltitante 'Luz do Túnel', com direito a um solo do percussionista Bernardo Rodrigues. 

Mais uma pausa para a longa lista de agradecimentos - desde a equipa da banda à Rádio Comercial que apoiou a estreia do quinteto nos coliseus. 

'Deslocado', com André Santos também no palco, foi cantada e celebrada a uma só voz. Foi a que ficou para o fim, antes do encore, e ainda mereceu a repetição do refrão com quase todos os instrumentos silenciados para enaltecer as vozes do público.

O encore - o grande final - concentrou três temas. 'Se Eu Morresse', a primeira, meteu o "mar de gente" a ondular os braços. A “agitação marítima” continua em ''760' - a sátira mordaz a certos conteúdos televisivos que vão entorpecendo as massas. Mas ali, naquela sala, ninguém estava entorpecido, muito menos João Guilherme que, sem medos, mergulha no mar de gente e entrega-se aos braços da plateia para um épico crowd surfing que experenciou com um sorriso rasgado e aventureiro estampado na face.

Mesmo antes das despedidas, o frontman do grupo sente o pulso do público. Pergunta se há gente da Madeira ou até do estrangeiro, sendo que na resposta percebeu que sim, havia. É então que chama um batalhão de amigos, que estavam espalhados pelo coliseu, para, juntos, fazerem a festa em cima do palco.

É tempo para ouvir 'Vasse Lá Lem', mais um tema novo a ser incluído no novo disco - canção que é uma homenagem ao sotaque e regionalismos madeirenses e, no fundo, a tudo o que a Madeira significa para o quinteto.

É caso para dizer que os NAPA deram um grande bailinho de música (claro, da Madeira) na estreia em nome próprio no Coliseu dos Recreios.