A "eterna menina" Björk faz 60 anos

Retrospetiva do seu percurso a solo e nos Sugarcubes.

Parece mentira, mas Björk passa a ter a partir de hoje 60 anos. O ar de menina cristalizou-se na nossa memória coletiva mas o tempo não falha nas contas e friamente nos mostra a idade que custa a interiorizar. É assim com todos, até mesmo com Björk. 

Comecemos pela banda que deu a conhecer a islandesa Björk ao mundo, os Sugarcubes.

O grupo eram formado por seis amigos de Reiquejavique, na Islândia, que já se conheciam do mundo artístico local e de outros projectos musicais como os punks Kukl.

Criados em 1986, os Sugarcubes estavam determinados em criar a sua própria cena, numa ilha nórdica acostumada apenas a importar as cenas de outras paragens.

Ao contrário da quase totalidade dos islandeses, que são loiros ou ruivos e de olhos claros, Björk tinha cabelos escuros e um olhar rasgado e exótico, a lembrar os esquimós. Por alguma razão, os seus compatriotias chamavam-lhe de Alf. 
  
A química dos Sugarcubes era alimentada pelos duetos constantes entre Bjork e o trompetista Einar Orn. Mas era Bjork que se destacava, uma autêntica força da natureza. Bjork cantava, Einar Orn falava.
  
‘Birthday’ foi o tema que os deu a conhecer ao mundo, com a ajuda de costume do radialista britânico John Peel, sempre ele. A canção é sobre uma estranha menina de 5 anos e sobre as suas aventuras com o misterioso vizinho.

O álbum de estreia de 1988, “Life’s Too Good”, é um disco demasiado fresco para se limitar à ilha vulcânica e isolada da Islândia. Os Sugarcubes eram suficientemente humorados para colorir uma música alternativa internacional demasiado marcada pela cor cinzenta.
 
A música era selvagem, excêntrica e, mais importante, diferente. A vocalista Björk estava sempre na dianteira, com a sua voz única e indomável. A cantora encarnava a inocência, com aquele ar de eterna menina, que mantinha a infância bem viva.
 
O inglês era fluído, mas com um sotaque islandês carregado que lhes dava um certo exotismo. A aclamação da crítica a “Life's Too Good” deu o passaporte aos Sugarcubes para viajarem pelos palcos do mundo, incluindo no Coliseu de Lisboa em 1989.
 
Uma das suas músicas mais brilhantes é o ateísta e sereno ‘Deus’, onde Björk e Einar Orn imaginam coisas do Senhor que não se podem dizer na catequese.

O fenómeno de culto à volta dos Sugarcubes espalhou-se pelo Velho Continente. Numa atitude tipicamente islandesa, os Sugarcubes recusaram uma série de sessões de fotos para capas de publicações britânicas. A banda dos seis amigos de Reiquejavique queria apenas divertir-se e passava bem sem a pressão do sucesso.

A vocalista Björk era o centro nevrálgico da acção em palco. As suas poderosas interpretações vocais em palco eram sublinhadas pelo homem do pequeno trompete Einar Orn com os seus dizeres trocistas.

A panóplia instrumental assegurava uma diversidade sonora ao grupo, Mas mais tarde ou mais cedo acabávamos a olhar para Björk,  o olho do furacão.

Os Sugarcubes dão sempre um toque divertido a uma imaginação sinistra. É o que acontece em ‘Sick for Toys’, um dos temas de “Life's Too Good”.


Bastou apenas um álbum, “Life’s Too Good”, para os Sugarcubes enfeitiçarem parte do mundo, dos dois lados do Atlântico. O disco de 1988 foi incluido numa série de listas de melhores álbuns do ano, como o Melody Maker, o New Musical Express ou a Q.  

Bem mais morna foi a reacção ao segundo álbum, “Here Today, Tomorrow Next Week!”, de 1989, que levou os membros do grupo a se dispersarem noutros projectos. Björk, por exemplo, gravou em 1990 o álbum mais jazzy “Gling-Gló” e colaborou com os esotéricos Current 93 para o disco “Island”.


O álbum “Here Today, Tomorrow Next Week!” pode ter sido um flop e perde muito na comparação com o antecessor “Life’s Too Good”.
 
Mas neste segundo álbum continuam os duetos surrealistas entre Björk e Einar Orn, e uma alegria bem viva que distinguia os Sugarcubes.

Em 1992, os islandeses Sugarcubes lançam o terceiro e último álbum, “Stick Around for Joy”.  O disco é mais dançante e é um prenúncio para a estética mais eletrónica da carreira a solo de Björk.
 
A música da banda está cada vez mais excêntrica. Mas depois de surpreenderem com o disco de estreia, “Life's Too Good”, os dois álbuns seguintes parecem um esforço inglório de que ainda podiam ter futuro.
 
Na verdade, o talento de Björk já não cabia nos Sugarcubes. E a banda separa-se no final de 1992. O baixista Bragi Olafsson liga-se mais à editora Bad Taste e é hoje um escritor reconhecido na Islândia. 
O vocalista Einar Orn passa a produzir poesia surrealista, chega a ser barman e colabora por várias vezes com Damon Albarn dos Blur e dos Gorillaz. 

O baterista Siggi Baldursson segue para a banda ao vivo de Björk que se torna uma autêntica estrela mundial, com o álbum de 1993 “Debut”.


Björk entrou-nos pelas casas adentro em 1993, com aquele ar de menina, no videoclipe de 'Human Behaviour'. O teledisco é realizado pelo cineasta francês Michel Gondry, sobre um urso que ataca um caçador. A promo de 'Human Behaviour', de apoio à natureza animal, inaugura uma videografia exemplar de Björk, que foi atraindo alguns dos maiores cineastas ou videastas, como Spike Jonze ou Chris Cunningham.
A MTV simpatizou com o vídeo, o que fez de Björk uma estrela mundial.

A cantora islandesa vinha de um nicho mais alternativo com a sua banda Sugarcubes de que se separou, quando foi viver para Londres em 1992. A integração na cultura eletrónica da capital inglesa influenciaria o som de “Debut”, o verdadeiro álbum de estreia a solo de Björk, com uma música mais expansiva e optimista que marcou imediatamente a diferença com os mais vanguardistas Sugarcubes.
O mundo apaixonou-se rapidamente por Björk.

Os anos ao vivo do álbum “Debut”, em 1993 e 1994, correspondem ao período mais eufórico da carreira de Björk. A cantora nórdica saltitava pelo palco todo, ora com os seus cabelos presos em carrapitos, ora com os seus cabelos escuros mais desgovernados, descalça e de vestido amarelo veraneante.
 
Em pouco mais de um ano, Björk tocou nos quatro cantos do mundo, e atuou nos maiores festivais de Verão da Europa. E ainda passou pelo então afamado MTV Unglugged. À singularidade das suas interpretações e à frescura da sua pop electrónica, Björk contou ainda nessa actuação acústica com uma panóplia instrumental igualmente exótica que incluía batucada oriental e a vibração em copos de água cheios.

A cantora com ar de esquimó estava mais famosa que o seu próprio país, a Islândia. O disco “Debut” abriu-lhe portas, com presença massiva nas listas de melhores álbum do ano de 1993. Björk deu alma e erudição à electrónica a partir de “Debut”.


A já extensa obra a solo da cantora islandesa tem como um dos discos mais importantes, “Post”, o álbum sucessor de “Debut”, lançado em 1995. Nessa altura, Björk ainda não tinha sequer 30 anos e continuava a ser a criança mais graúda da música.
 
“Post” é talvez o álbum mais versátil desta adulta com ar de garota. O disco é composto por temas pesados como o rock industrial de Army of Me ou por canções mais intimistas e recolhidas, robustas em orquestrações.

Há até um clássico de jazz, 'It’s Oh So Quiet', que mereceu um vídeo bem alegre do cineasta Spike Jonze, um autêntico musical que chamaria a atenção de Lars von Trier, que resolver dar o papel principal a Björk no premiado filme de 2000 “Dancer in the Dark”.

Em 1996, Björk era uma autêntica estrela mundial, com tudo o de bom e de mau que isso poderia ter. Em Fevereiro desse ano, depois de uma longa viagem aérea para a Tailândia, Björk não aguentou a pressão da imprensa cor-de-rosa e agrediu violentamente uma jornalista de TV, quando saía do aeroporto de Banguecoque. Björk não gostou que o inquérito da jornalista se tivesse dirigido subitamente ao seu filho e a cantora assanhou-se numa espécie de leoa a defender a sua cria.


Björk era agora uma figura pública. Tudo o que a cantora fazia no íntimo, o mundo passava a saber. Por exemplo, o seu namoro com o famoso DJ britânico Goldie era célebre. Quem não gostou nada deste namoro foi o fã obcecado e racista da cantora Ricardo Lopez. Este jovem norte-americano começou a fazer uma série de vídeos caseiros aterradores, onde se começou a transfigurar, rapando o cabelo, pintando-se como um monstro, enquanto mostrava o engenho explosivo que estava a preparar, com um monitor com a imagem de Björk atrás.

O correio-bomba foi enviado à residência londrina da artista islandesa, com o intuito de a matar. Ricardo Lopez filmou-se a matar-se e a carta explosiva foi detectada pela polícia. A tentativa de homicídio levou Björk a uma maior reclusão e a refugiar-se no sul de Espanha para gravar o seu terceiro álbum “Homogenic”. É desse disco que vem a canção All Is Full of Love que mereceu uma versão diferente para o vídeo emblemático de Chris Cunningham, de dois robôs entrelaçados amorosamente.


Em 1996, num Coliseu dos Recreios à pinha, saltitava descalça pelo palco uma cantora exuberante de cabelos pintados de loiro; em 2003, no festival Hype@meco, uma artista mais recolhida e virada para baladas assenhorou-se de um espectáculo fascinante. Esses dois espectáculos tão diferentes, separados por sete anos, foram dados pela mesma cantora: Björk de seu nome. Quando actuou no Meco, em 2003, Björk ainda cantava bastante o álbum de 2001, “Vespertine”.

A cantora islandesa vivia então em Nova Iorque, com aquele que foi talvez o amor da sua vida, o artista plástico Matthew Barney, de quem tem uma filha. A relação amorosa levou Björk a compor a banda sonora de um dos filmes de Matthew Barney, “Drawing Restraint 9”, onde os dois são protagonistas.


Mas o fim da relação com Barney ditou um álbum totalmente inspirado nas várias fases da rutura conjugal, de nome “Vulnicura”, um disco duro e confessional álbum de 2013.