"A frustração de o mundo não se acalmar, mas eu também não e nem saber como fazer"

A psicóloga Ana Isabel Mota explica como podem ser sentidos os conflitos e os passos para que se conserve a saúde mental durante a escalada de tensões.

Os mais de cem conflitos militares espalhados pelo mundo podem ser refletidos na saúde mental. 

Ana Isabel Mota, Coordenadora do Programa Psicologia da Paz e Direitos Humanos da Ordem dos Psicólogos Portugueses, explica que os "conflitos que não nos tocam diretamente mexem mais com pessoas que tenham vulnerabilidade a nível psicológico" - como depressão, ansiedade ou perturbação bipolar -, mas "quando é algo que nos toca mais ou que choca acaba por mexer com todos" e pode até provocar ataques de pânico a quem nunca os teve.

A ausência de paz positiva pode levar  "ao descontentamento, ao extremismo e a uma necessidade de externalizar a raiva; a frustração de o mundo não se acalmar, mas eu também não e nem saber como fazer". A escalada dos conflitos reflete-se também na ansiedade sobre o futuro - "tenho o empréstimo da casa e do carro para pagar, a gasolina vai subir, não vou ter dinheiro para mais uma escalada de preços nos supermercados" - e pode despoletar inseguranças do passado - associadas por exemplo "à perda ou potencial não aproveitado". Estes sentimentos podem levar a comportamentos de risco "querer viver a vida inteira num segundo ou achar que não vale a pena, porque nem vamos estar aqui daqui a pouco". A ansiedade tende a aumentar quando há envolvimento de países próximos a Portugal e à União Europeia. "Os portugueses são bem ocidentais, se os Estados Unidos estão a criar alguma coisa, o nosso mundo acabou. O mundo tal como o conhecemos não é seguro. Há outras partes do mundo que não estão com os mesmos problemas. Podem estar com outros, mas não com os mesmos."

Mas esta não é a única reação possível, a dessensibilização para o conflito pode surgir. A psicologa explica que tanto se pode dar por "se tomar como normal" com a exposição constante "imagens de guerra" ou a uma aceitação de que "as pessoas perderam a cabeça, não há limites e vale tudo". Por outro lado, há quem não queira ser confrontado com a guerra como uma forma de defesa "o típico esconder a cabeça debaixo da areia".

Um estudo norte-americano mostra que cerca de 70% da população afetada por um conflito vai sentir sofrimento psicológico. Contudo, se houver uma disponibilização de meios para lidar com os efeitos na saúde mental - "a promoção de estratégias de coping e a promoção da resiliência individual e social na comunidade" - o valor pode baixar para 35%, "dependendo da reposta programada". Ana Isabel Mota dá o caso da pandemia "quando se criou a linha SNS24 para o apoio psicológico". Atualmente é preciso aplicar os primeiros socorros psicológicos e "de ter várias respostas, mostrar esta resiliência comunitária para que as pessoas não sintam essa pressão, - precisam de ter esta perceção de competência e de comunidade para lidar com o desafio". 

Em tempos de incerteza e ansiedade, a psicóloga recomenda que as pessoas procurem "pequenos prazeres da vida, coisas que podemos fazer para nós e de que gostamos": dá como exemplos um banho de imersão, música, dança, uma comida especial, livros - "que não tenham nada a ver com conflitos" - ou aprender uma língua. Além disso recomenda estratégias como a meditação e registos escritos, como um "diário de emoções" - onde se faz um registo diário das sensações - ou um "diário da gratidão" - no qual se tenta a "cada dia encontrar um ponto mesmo que pequeno de algo que valeu a pena". 

Para dar resposta a este período, a Ordem dos Psicólogos Portugueses está a desenvolver um programa psicologia da Paz e Direitos Humanos.