A mestria vocal de Seal no MEO Marés

Cantor inglês conduziu magistralmente o seu espetáculo, depois das atuações de Diogo Piçarra e dos Vizinhos.

Há muito mais gente hoje no recinto do Marés Vivas, uma autêntica enchente. E foi esse público imenso que, na costa de Leça da Palmeira, pôde testemunhar a excelência vocal e de condução de espetáculo. 

Depois de um pastiche de vídeos que passa em revista a grandeza e história da carreira de Seal, o cantor surge com assertividade e com determinação para uma atuação de peso. De casaco de couro vermelho, canta ‘Fly Like an Eagle’ (da Steve Miller Band) com o braço esquerdo aberto como se fosse uma asa de uma grande ave.

Seal manda desligar as luzes de frente para o palco e manda iluminar o público. “Preciso de vos ver, vamos ter uma longa conversa”, diz Seal, como quem prepara o que vai cantar em ‘Future Love Paradise’.

Já sem o casaco de couro, canta quase sempre de olhos fechados ‘Prayer for the Dying’ já muito próximo do público, sobretudo as muitas mulheres nas filas da frente. Em minutos de muita compenetração, Seal trata o tema com a espiritualidade de uma prece.

Depois, cola os temas ‘Touch’ e ‘Loneliest Star’ como um díptico, enquanto que a música dos Talk Talk, ‘Life's What You Make It’, cai à medida da sua voz, com uma interpretação exímia da banda, que exibe a sua qualidade, sobretudo as cavalgadas do baterista escocês.

Tal como com o tema dos Talk Talk, Seal também respeita a música que o tornou famoso, ‘Killer’ de Adamski, apesar de tocado em orgânica de banda e não no formato eletrónico do original. Mas Seal tem que capitalizar a glória do tema, criando outras linhas vocais sinuosas e muitas interações vocais com o público.

Seal tem que repetir a entrada de ‘Bring It On’, depois de um imbróglio técnico com o microfone, mas depois, ao segundo take, entrega-se totalmente e até se fixa numa senhora com quem se enamora durante alguns versos durante o passeio pela língua de palco.

Depois de uma longa Intro vocal, ergue-se ‘Kiss From a Rose’ e erguem-se centenas de telemóveis no ar, para captar o momento. Seal está de guitarra acústica à cintura, alongando o tema, em mais um pingue-pongue vocal com o público, além de outros recantos que vai encontrando para eternizar o pináculo.

Ainda havia um ás para lançar no encore, ‘Crazy’, que mexeu com a grande massa festivaleira, antes do cantor se despedir na introspecção amorosa de ‘Love’s Divine’.

Ao final da tarde, o concerto de Diogo Piçarra contou com vários convidados, como Carolina Deslandes na canção ‘Anjos’, Satiro no tema ‘Só Existo Comigo’, o madeirense Zarco na música ‘Vem Me Salvar’ e Bispo em ‘Monarquia’ - este último a merecer um longo abraço.

O cantor atuou com ligaduras nas mãos, apoiado por mais cinco músicos. E veio calibrado de canções de amor, sobretudo ‘Saída de Emergência’, a instigar casalinhos a abraçarem-se e chega a dedicar ‘Porta 43’ à noiva Cláudia, que sobe a palco com véu e tudo.
 
Não faltou a selfie de Diogo Piçarra com o público atrás de braços no ar e ainda um encore com ‘Paraíso’ e, com a gravação da participação vocal de Pedro Abrunhosa, em ‘Amor de Ferro’. Depois de cumprimentar todo o público das filas da frente, o cantor sai de peito desnudado, com todas as suas tatuagens bem expostas.

O difícil concerto de abertura no Palco MEO foi assegurado pelo quarteto alentejano Vizinhos, que contou ainda com dois membros extra: Duarte Carvalho no baixo e Miguel Casais na bateria

Os músicos efetivos vinham vestidos de camisas brancas sobre camisolas escuras, com o sol forte como inimigo e um público já vasto como amigo.

Cantam ‘Laranjeiras’ coladinhos ao público. E em homenagem a um grupo académico de Évora, tocaram ao modo mais folclórico ‘Chumbo da Maria’ e ‘Ritinha’. Quando interpretam ‘Casar É pra Esquecer’, a mulher com véu de noiva, a tal Cláudia, ergue-se às cavalitas no meio do público.

Damos pelos bancos de jardins na canção ‘Vizinha’, quando os seus membros se sentam neles. ‘Por-de-Sol’ é guardado para o fim, quando o sol ainda reinava bem lá no alto, ainda longe de se deitar na linha de horizonte.