A música que o cinema filmou e projetou em 2020
Biopics exibidos ou em produção e muitos documentários.
A música está cada mais sob os focos de luz do cinema e nem a pandemia abrandou esta tendência crescente de biopics sobre músicos e acima de tudo documentários.
Basta atestar a produção nacional neste campo. Depois do sucesso de "Variações", sobre António Variações, outro sucesso iminente de salas estava já pronto a estrear em 2020, o filme sobre as Doce, "Bem Bom", realizado por Patricia Sequeira - que já havia rodado outro biopic, sobre Snu Abecassis (a mulher do primeiro-ministro português Francisco Sá Carneiro e importante editora de livros). O filme foi concluído este ano mas o agravamento dos condicionalismos provocados pela pandemia do novo coronavírus levaram ao adiamento da sua estreia para 2021. Mas a data de 2020 deste filme, sobre as peripécias da primeira grande girl band portuguesa, já ninguém apaga.
2020 é o ano do primeiro filme-concerto do cinema documental nacional, com a filmagem e exibição nas nossas salas de "Sol Posto" dos Capitão Fausto, realizado pelo homem da câmara de filmar da banda, Ricardo Oliveira. Os Capitão Fausto atuam em três locais diferentes, em três momentos diferentes do dia, na costeira Melides. Contorna-se este período de abstinência de concertos colocando o espectador no meio da banda lisboeta, como nunca aconteceu nos concertos pré-Covid.
2020 foi o ano da distribuição pelas salas do premiado documentário "Zé Pedro Rock'n'Roll", realizado pelo amigo de Zé Pedro, Diogo Varela Silva. O filme é fiel ao formato de reportagem televisiva, intercalando depoimentos de familiares, amigos e companheiros de bandas com algumas imagens de arquivo do fundador da mais popular banda rock nacional, os Xutos & Pontapés. Por trás do músico lendário, descobriu-se a pessoa: o amigo sempre disponível, o revolucionário de cravo na mão, o fã de música colecionador de memorabilia dos seus ídolos.
Lá fora, o biopic não autorizado sobre David Bowie, "Stardust", foi arrasado pela crítica. A falta de semelhanças entre o ator Johnny Flynn e o cantor que interpreta é uma das razões das apreciações negativas. A longa-metragem centra-se nos primórdios do músico inglês que viria a ser coroado como "a rainha do rock & roll".
Estreou esta semana em Lisboa o filme-concerto mais aclamado deste ano, "American Utopia", um espetáculo muito dançado de David Byrne rodado pelo cineasta Spike Lee. Com músicas dos Talking Heads e a solo, e uma intervenção socio-política que alarma para o sistema racista vigente nos Estados Unidos, o documentário não podia ter sido exibido em ano mais certeiro, marcado pelas manifestações Black Lives Matters em todo o mundo. A estreia nacional aconteceu no festival Porto/Post/Doc, na Invicta. "American Utopia" inspira comparações com outro grande filme-concerto, "Stop Making Sense", que documenta o espetáculo dos Talking Heads no início dos anos 80, a fechar a vida ao vivo da banda.
Houve mais documentários que foram exibidos em festivais em Portugal, com algum impacto, como "White Riot" sobre o movimento anti-racista do punk britânico Rock against Racism (com os Clash na linha da frente) no final dos anos 70, ou "Billie", sobre a diva do jazz Billie Holiday. O documentário "Aznavour By Charles / Le Regard de Charles", a partir de filmagens amadoras do próprio cantor francês Charles Aznavour (um pouco a lembrar "Everyone Stares", sobre os Police, a partir do ângulo da câmara do baterista Stewart Copeland), passou do circuito dos festivais em Portugal (como o IndieLisboa), para a exibição normal nas nossas salas de cinema, no final deste ano. No início de 2020, passou nas nossas salas de cinema, "PJ Harvey: A Dog Called Money", realizado e escrito pelo irlandês Seamus Murphy, com a cantora PJ Harvey num triângulo geográfico pelo terceiro mundo, entre o Kosovo, o Afeganistão e os subúrbios complicados da capital norte-americana Washington. Esta expedição fotográfica foi o ponto de partida para o seu último álbum, "The Hope Six Demolition Project".
Caetano Veloso recorda a sua experiência como prisioneiro político e torturado pela ditadura militar brasileira nos anos 60, no documentário "Narciso em Férias", que foi selecionado para a edição deste ano do Festival de Cinema de Veneza.
Este ano estreou mundialmente o primeiro documentário de Frank Zappa autorizado pela sua família, de título "Zappa", que contém imagens inéditas do compositor e explora a sua invulgaridade, enquanto músico ao vivo, inovador técnico, ativista e, de certo modo, humorista. Para o ano, passará certamente em Portugal.
Houve ainda outras lendas do rock a merecerem documentários, como o vocalista rebelde dos Pogues, Shane MacGowan, em "Crock of Gold: A Few Rounds With Shane MacGowan", pelo grande documentarista do punk Julien Temple, ou o símbolo do feminismo Suzi Quatro, em "Suzi Q".
Houve documentários de renome a passarem nas plataformas pagas de TV. A Apple TV+ tem na sua programação "Letter to You", sobre a gravação do último álbum de Bruce Springsteen (com o mesmo nome), e "Beastie Boys Story", sobre a história do coletivo de hip hop Beastie Boys. A Netflix tem a seu cargo a exibição de "Miss Americana", sobre o ativismo humanitário de Taylor Swift, e "In Wonder", o documentário sobre os passos mais recentes de Shawn Mendes. No mundo da HBO, pulula "The Bee Gees: How Can You Mend a Broken Heart", o documentário sobre o icónico trio Bee Gees.
Sem ser diante de nós, há equipas de filmagem no ativo, computadores a serem teclados por guionistas, ou empresários ao telefone em escritórios a negociarem compras de direitos. Isto é, em 2020 estiveram a trabalhados e planificados biopics como os que envolvem figuras como Elvis Presley (com Tom Hanks no elenco), a diva do gospel Mahalia Jackson (a ser interpretada por Jill Scott), Whitney Houston ("I Wanna Dance With Somebody"), Aretha Franklin, Ozzy Osbourne (dos Black Sabbath), Lemmy (dos Motörhead), Marianne Faithfull (a ser interpretada por Lucy Boynton), os Heart ou o compositor Leonard Bernstein... E quem é que está já a tratar de realizar um filme sobre a vida de Madonna? A própria Madonna. Em 2020, já se trabalha para 2021 e 2022 no mundo cinematográfico da música.
