A "Neverland" de Michael Jackson: mais certezas do que dúvidas?

O documentário de Dan Reed, que anda a destroçar corações em todo o mundo, chega hoje à HBO Portugal.

Esta sexta-feira, chega a Portugal "Leaving Neverland", o controverso documentário de que tanto se fala e que, ao longo de quatro horas, volta a abrir feridas antigas sobre o que, durante vários anos, assombrou os dias e os fãs de Michael Jackson - as alegadas acusações de abuso sexual de menores.

A estreia oficial do documentário, assinado pelo veterano realizador Dan Reed, aconteceu no passado mês de janeiro, no festival de cinema Sundance, nos Estados Unidos, e, desde então, tem provocado reações por todo o mundo, não fosse Michael Jackson já um conceito universal e transversal a todas as gerações.

O foco é o testemunho doloroso de dois homens: Wade Robson e James Safechuck, duas alegadas vítimas de abusos sexuais por parte de Michael Jackson que, na altura dos acontecimentos relatados por ambos, frequentavam a mansão que o cantor mantinha na Califórnia, a conhecida Neverland. Wade tinha apenas 7 anos e James contava com 10.

 

 

"Leaving Neverland" chegou esta semana aos pequenos ecrãs norte-americanos e britânicos (transmitido pelo HBO e pelo Channel 4) e hoje chega ao serviço de streaming HBO Portugal. Já se adivinham muitas reações, outras já são públicas.

Na crónica que assina no Público, Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre o assunto, como se precisasse de desabafar:

“As histórias são convincentes porque Robson e Safechuck contam tudo. Apaixonaram-se por Michael Jackson e foram cúmplices com ele, mentindo em tribunal para defendê-lo. Fica-se com a noção que poderia ter acontecido o mesmo a qualquer criança. O mundo de Jackson era irresistível para os dois miúdos, como era para as famílias”.

Sim, ver o documentário, feito meticulosamente quase em jeito de denúncia, poderá ser uma experiência angustiante, confusa e revoltante. É que separar a obra do homem nem sempre é fácil, sobretudo se o homem é a entidade máxima da Pop e o dono de um legado de dimensão maior no espólio da história musical.

Por outro lado, o lado mais próximo de Michael Jackson, há um reforço contínuo da sua inocência. A família do cantor recusa as acusações, alegando a falta de provas, e define o documentário como um ato de “linchamento público”. De acordo com o New York Times, os gestores do património de Michael Jackson não só rejeitam as alegações, como já deram entrada de uma petição, no Tribunal de arbitragem de Los Angeles, pedindo uma indemnização de 100 milhões de dólares à HBO.

E agora? Como é que continuamos a ouvir as canções de Michael Jackson?

A angústia prolonga-se nesta dúvida. Afinal de contas, quase toda a gente tem uma canção de Michael Jackson na lista da banda sonora da sua vida, num momento que viveu ou numa recordação que guarda. Poderá isto deixar de acontecer?

Uma das respostas possíveis é do próprio realizador. Numa entrevista ao jornal britânico The Telegraph, Dan Reed afirma que, pelo menos, “Leaving Neverland” irá obrigar-nos a reavaliar a forma como olhamos para Michael Jackson, falecido há já uma década. O autor do documentário vai ainda mais longe e acrescenta que “a mentira que Michael Jackson encarnou enquanto foi vivo, de defensor e apoiante das crianças, e a ferocidade com que os seus parceiros de negócios e a sua família o defenderam pode significar uma queda ainda mais dura”.

Para já, várias estações de rádio, em todo o mundo - sobretudo na Nova Zelândia e no Canadá - já retiraram das suas playlists as canções do Rei da Pop, canções essas que, num mundo ideal, deveriam ser eternas. Muitas rádios não o fizeram, outras ainda estão a analisar o passo que deverão dar a seguir.

A presença de Michael Jackson não está a ser “apagada” apenas nas rádios, até o produtor da famosa série The Simpsons, James L. Brooks, já fez saber que vai retirar de circulação um dos seus episódios mais icónicos, o episódio “Stark Raving Dad”, de 1991, no qual o músico empresta a sua voz a uma das personagens.

 

 

Inegável é a formação de uma onda - também universal - de indignação, tão grande como a dimensão de Michael Jackson. É daqui que emerge a pergunta: Is this it?