Abuso cibernético no namoro entre jovens reflete padrões de violência familiar
Estudo do Instituto Superior de Serviço Social do Porto revela que controlo nas redes sociais é uma das formas mais comuns de violência digital entre jovens e pode ter graves impactos na saúde mental.
O abuso cibernético no namoro entre jovens portugueses continua a ser uma realidade pouco reconhecida, mas com impactos profundos na saúde mental e emocional. Um estudo desenvolvido no Instituto Superior de Serviço Social do Porto revela que as experiências vividas no contexto familiar, sobretudo em ambientes marcados pela violência, aumentam significativamente a probabilidade de os jovens reproduzirem comportamentos abusivos nas suas relações amorosas online.
A investigação, coordenada por Madalena Sofia Oliveira e Hélder Alves, envolveu 286 jovens entre os 15 e os 25 anos, maioritariamente do sexo feminino (84%) e estudantes (85%). O objetivo central foi compreender de que forma os padrões familiares influenciam o abuso cibernético no namoro, um fenómeno cada vez mais presente num contexto de relações mediadas pelas tecnologias digitais.
Segundo Madalena Sofia Oliveira, o interesse pelo tema não é recente. “Este é um tema que já comecei a estudar há sensivelmente vinte anos, relacionado com as relações de intimidade entre jovens”, explica. A investigadora sublinha que a crescente centralidade das redes sociais na vida quotidiana tornou evidente a necessidade de analisar estas dinâmicas num palco diferente: o online. “A literatura e a evidência clínica dizem-nos de forma muito clara que existe uma modelagem destes comportamentos, que podem ser reproduzidos nas relações de intimidade”, acrescenta.
Controlo e coerção facilitados pelo ambiente digital
O estudo confirma que as tecnologias digitais facilitaram novas formas de controlo e abuso. Para a investigadora, “é muito mais fácil usar estratégias de controlo e coerção num palco online do que num contacto direto”. A distância proporcionada por um ecrã permite comportamentos como o envio de mensagens insultuosas, a criação de perfis falsos ou a vigilância constante das atividades do parceiro, práticas que dificilmente ocorreriam com a mesma frequência em interações presenciais.
Entre as formas mais frequentes de abuso cibernético identificadas estão o controlo das atualizações nas redes sociais, a monitorização de onde o parceiro esteve e com quem, e o controlo das amizades online. Estes comportamentos são muitas vezes desvalorizados ou encarados como normais, sobretudo entre os mais jovens.
Diferenças de género e dados preocupantes
Um dos resultados que mais surpreendeu a equipa de investigação prende-se com as diferenças de género. Os jovens do sexo masculino reportaram níveis mais elevados de perpetração de agressões diretas online. “Um em cada quatro jovens assume que já enviou mensagens a insultar ou humilhar o parceiro ou que divulgou segredos ou informações comprometedoras através das novas tecnologias”, refere Madalena Sofia Oliveira.
Paradoxalmente, são também os rapazes que se assumem em maior número como vítimas de controlo. Quase metade refere que o parceiro já controlou as atualizações do seu perfil nas redes sociais, e 42% afirmam que o telemóvel foi acedido sem autorização. Estes dados, segundo a investigadora, demonstram que “há um número muito significativo de jovens que acabam por ser vítimas de controlo através das novas tecnologias”.
Relações mais longas, maior risco
Outro dado relevante é a associação entre a duração das relações e a frequência de comportamentos abusivos. Jovens em relações com duração entre um e três anos reportam mais experiências de abuso. De acordo com a investigadora, o tempo aumenta tanto o risco como a perceção. “Com o passar do tempo há uma escalada da violência, quer em intensidade quer em severidade, mas também uma maior tomada de consciência por parte das vítimas”, explica.
O peso do contexto familiar
O estudo reforça ainda a existência de um ciclo intergeracional da violência. Jovens que cresceram em ambientes familiares marcados por violência revelam maior propensão para reproduzir padrões abusivos nas suas próprias relações. “Este modelo que muitas vezes têm em casa acaba por ser repetido no âmbito das suas relações de intimidade, utilizando as novas tecnologias”, alerta a investigadora.
A escolaridade paterna surge também como um fator de risco a considerar. Níveis mais baixos de instrução estão associados a contextos familiares mais coercivos, embora os investigadores ressalvem que não se trata de uma relação direta de causa e efeito. “É um fator de risco importante a ter em consideração, sobretudo no trabalho de prevenção”, sublinha.
Normalização do abuso e sinais de alerta
Um dos aspetos mais preocupantes identificados é a normalização do controlo digital. Muitas vítimas não reconhecem estes comportamentos como abusivos, acreditando que, por ocorrerem online, têm menos impacto. No entanto, as consequências podem ser graves. Ansiedade, sentimentos de impotência, isolamento social e, em casos extremos, risco de suicídio são alguns dos efeitos associados ao abuso cibernético.
Os investigadores alertam para sinais de mudança comportamental que não devem ser ignorados, como o isolamento, a perda de interesse em atividades habituais, ansiedade, receio de interagir com amigos ou uso excessivo das tecnologias. “Se causa dano psicológico ou emocional, não é uma relação saudável e deve ser pedido apoio”, reforça Madalena Sofia Oliveira.
Prevenção e investigação futura
O estudo sublinha a necessidade de uma intervenção precoce e de políticas públicas que integrem a prevenção da violência digital no namoro. Campanhas de sensibilização, programas educativos e apoio a jovens, famílias e escolas são considerados fundamentais.
Atualmente, a equipa encontra-se a desenvolver novas investigações, centradas na relação entre abuso cibernético e saúde mental, bem como nas crenças dos jovens sobre normalização da violência e pedido de ajuda. “Em breve iremos lançar novos dados que serão relevantes para compreender a prevalência deste fenómeno”, conclui a investigadora.
