"Ajudem-me, não tenho nada." Há teto na casa de Ilda, mas "chove nas camas e em todo o lado"

Em Monte Real, os ventos da depressão Kristin não quiseram saber se os telhados, paredes e vidas que mudaram eram da Força Aérea ou civis. Ilda está em casa, mas a chuva parece não saber disso.

Ilda está sentada num dos poucos cantos da casa onde não pinga. "Ainda há aqui muita água em casa, não tenho luz. Chove-me nas camas e em todo o lado. Não tenho nada", conta entre lágrimas. O cadeirão está encostado a um frigorífico que não está ligado, virado para uma televisão que não está ligada e debaixo de um candeeiro de teto que não está ligado.

Não estão ligados porque não há eletricidade há duas semanas. Os ventos da depressão Kristin levaram grande parte do telhado de Ilda Carrapeiro na noite de 27 para 28 de janeiro. A casa em que vive fique mesmo encostada à Nacional 349-1, em Serra do Porto de Urso, na freguesia de Monte Real. Na verdade, Ilda vive na Rua da Base Aérea, que é como quem diz, é vizinha da Base Aérea n.º 5 da Força Aérea.

Tem estado a receber ajuda de militares da Força Aérea, como é o caso do major João Ferreira, que ainda não consegue explicar nem definir o que aconteceu nem à base aérea, nem às casas da localidade. "As pessoas podem ver fotografias, podem ver vídeos, podem ver tudo, mas sente-se quando aqui se está, não quando se vê na televisão", reconhece, descrevendo a zona como "completamente devastada".

A estrada que entra em Serra do Porto de Urso mostra um cenário que não deixa dúvidas. As árvores que a ladeiam já só são meias-árvores. Parecem apenas pequenos paus, estão partidas a meio pela força do vento como fica partido um pau quando é pisado. Acontece tanto dentro, como fora da base aérea que registou a rajada de vento mais forte oficialmente registada naquela noite: foram 178 quilómetros/hora que partiram até o equipamento que a mediu. Foi registada uma outra rajada ainda mais forte, de 208 km/h, em Soure, mas esses dados ainda não foram validados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Além das árvores, há postes grossos, de cimento, dobrados a meio pela força do vento, uma das capelas da base aérea não tem telhado e veem-se pavilhões cuja cobertura foi reduzida a metade. Fora do perímetro militar, mas colados à base, há antigos barracões agora em ruínas e telhados tapados por lonas enquanto não recebem telhas novas.

É precisamente esse um dos trabalhos que o major João Ferreira supervisiona: há um grupo de militares a manobrar um trator para retirar paletes de telhas de uma carrinha que entretanto as trouxe. Outros vão apanhando destroços, chapas ou lixo que os ventos tenham criado.

Um dos casos que já foi atendido dentro do possível é o de Ilda. As rajadas arrancaram a cobertura da casa onde vive de tal forma que há divisões a céu aberto. Num dos quartos há um colchão a flutuar ao lado de um resto de mobília numa água com altura suficiente para cobrir o calçado de quem lá passa. Não há uma superfície da casa que esteja seca, e não é por falta de esforço das duas familiares que estão com Ilda.

Ao lado dela está também o cão Roque, um animal pequeno que a dona diz ter sido gigante. De tal forma que, das quatro patas, só está a usar três, já que caiu de uma altura considerável na noite da tempestade.

"Foi um herói", confessa a dona orgulhosa enquanto tenta controlar o feitio complicado do amigo de quatro patas que não achou muita piada ao microfone da rádio. "Ainda sai daqui com um jornalista na boca", comenta alguém. O diagnóstico é de que a pata não está partida, mas boa também não está.

Chove na cozinha e em todas as divisões da casa de Ilda. O teto está lá, mas a água que o ensopa é tanta que os pingos vão caindo aleatoriamente: uns acertam nas taças e baldes que estão lá para apanhá-los, outros caem no chão, na cabeça de alguém ou num microfone incauto. A lareira está acesa numa das pontas da divisão e o fogo arde com vontade, separado do inimigo mortal que é a água apenas por uma porta de vidro.

Ilda ainda não consegue falar da madrugada de 28 de janeiro sem chorar. Tem o telemóvel na mão e no ecrã está a irmã, que vive no Luxemburgo e tenta oferecer algum consolo por videochamada. Ilda garante que tem coragem suficiente para contar, ao microfone, o que aconteceu.

O relato de Ilda Carrapeiro

"Faz duas semanas. Eu estava a dormir e... Gritei. Pedi socorro à minha Bela para ela vir ter comigo e disse-lhe: 'Bela, fugimos dali para baixo, para a cave, senão morremos todos'", conta, sob o olhar atento de Bela, uma das familiares que está a tentar recuperar, aos poucos, a casa. Só que nessa noite, o vento "empurrava as janelas", conta Ilda, e Bela "quis voltar para dentro". Mas depois o vento "levou o telhado".

"Agarrei-me ao Senhor e abracei-o ao meu lado. Foi verdade, abracei o nosso Senhor aqui ao meu lado e pedi: 'Ó meu Deus, salva nós, por favor, e a toda a gente que esteja na minha situação. Depois comecei a chorar, e muito triste disse: "Bela, nunca pensei. Eu nunca pensei viver assim, com tanta tristeza na minha vida", recorda. Ilda já não consegue resistir às lágrimas. Agradece "tudo o que têm feito" para a ajudar, mas pede também "a todos que a ajudem, se puderem".

A única luz que entra em casa de Ilda é a da rua, tanto pelas janelas como pelo que devia ser o teto de algumas divisões, mas ainda é, duas semanas depois, um buraco aberto para o céu. O sótão já não é sótão porque não tem telhado. Agora é uma divisão que se vê da rua e que tem coisas que normalmente estão num sótão, como cadeiras a mais, jarros, vasos, pratos e cerâmicas que estavam guardados.

Há lonas de várias cores a tapar as zonas que ficaram a descoberto, mas a água também acumulada no chão do sótão multiplica-se ao ritmo da chuva que teima em não parar. Esse chão - que é ao mesmo tempo teto do andar de baixo, está saturado. Ensopado. E faz chover na cozinha, na sala, no corredor ou em qualquer ponto da casa de Ilda. Passa-se mais uma esfregona, enche-se mais um balde, mas a chuva não pára. Mesmo debaixo do teto.