Álbum de estreia do projeto Rita & Os Usados de Qualidade já está cá fora
Entrevista a Rita Redshoes e a Manuel Paulo sobre o novo projeto musical que reúne uma mão cheia de nomes conceituados da música portuguesa.
Há dias em que não cabemos na própria pele. Por cansaço, por desencontro, por dor alheia, não há medida que nos baste. Até a infinita felicidade do amor não nos cabe nos bolsos do coração. Sonhamos ser uma extensão de nós, uma versão melhorada, algo que chegue aos outros pelos poros onde a empatia engravida. Por isso cantamos. Somos sempre melhores quando cantamos. A fala bem podia ser a pontuação do canto e a música o desafio final do corpo. Andamos à flor da vida até que a vida nos encontre no doce suor da felicidade. É o desígnio do encontro. Às vezes escrevemos um disco. Às vezes lavamos a cara.
A descrição do projeto Rita & Os Usados de Qualidade é assinada pelo letrista e poeta João Monge e abre a porta às oito canções que compõem o álbum de estreia (homónimo) do coletivo, editado esta sexta-feira (21 de fevereiro).
O novo grupo é composto pela cantora e compositora Rita Redshoes (na voz), Norton Daiello (Couple Coffee, Pedro Jóia Trio e Bassday Portugal) no baixo, Ruca Rebordão na percussão, José Peixoto (Madredeus) na guitarra e Manuel Paulo (um dos fundadores da Ala dos Namorados) ao piano. João Monge, que também é poeta e escritor de peças de teatro, assina as letras.
Após dois anos desde início do projeto, o álbum que o apresenta chega numa edição de autor disponível nos formatos CD, vinil (LP) e digital.
Entre as oito canções, estão os dois singles que já tinham sido partilhados, 'Só Penso Nisso' e 'O Que é Que Tu Tens?', temas que, nos últimos meses, têm somado milhares de plays e visualizaçõess nas plataformas digitais.
A 15 de março, Rita & os Usados de Qualidade sobem ao palco do Cine Incrível, em Almada, para a primeira apresentação ao vivo do disco. Os bilhetes podem ser adquiridos no site da Seatickets. Segue-se depois uma digressão pelo país.
Como é que surgiu a ideia da criação do projeto Rita & os Usados de Qualidade?
MP: Isto começou à volta de uma série de canções, todas elas com letra do João Monge e música composta por mim e pelo José Peixoto. Mas a génese da ideia partiu do José Peixoto e do João Monge. Foram eles que me desafiaram. Estava calmamente em casa quando recebi um telefonema do Zé a propor que criássemos um grupo, uma vez que ambos tínhamos muito material com o Monge. Ele propôs que fizéssemos algo que fosse diferente daquilo que costumamos fazer. E eu achei graça à ideia. Foi então que fizemos uma escolha de canções e começámos a pensar em quem é que lhes poderia dar corpo. Lembramo-nos do Norton Daiello e do Ruca Rebordão, que formam uma secção rítmica fantástica, e depois começámos a pensar no mais importante que é a voz para cantar as canções. Fizemos uma pesquisa e em boa hora chegámos à Rita Redshoes. A Rita gostou do reportório, felizmente estava disponível e entrou nesta aventura musical. As canções ficaram ótimas. Posso ser suspeito a dizer isto, mas objetivamente as canções ficaram ótimas. Estamos muito contentes com o álbum que gravámos e neste momento estamos em ensaios para começar a nossa digressão.
Rita, como foi ser escolhida e entrar nesta "viagem"?
RR: Foi um convite muito inesperado. Não me passava pela cabeça que se pudessem lembrar de mim. Somos de gerações diferentes e a música que faço, apesar de tudo, é de um universo diferente ao da composição do José Peixoto e do Manuel Paulo. Mas fiquei muito contente. Foi um belo presente que a vida me deu. Gostei do reportório assim que ouvi as canções. E achei que conseguiria cantá-las à minha maneira, apesar de estarem distantes das que costumo compor. Achei que conseguiria levar um pouco do meu universo e da minha identidade, enquanto intérprete, a este reportório. Cantar estas canções tem sido uma viagem que estou a fazer com muito prazer.
O que é que cada um de vocês dá a este projeto?
MP: Como disse a Rita, uma das coisas realmente interessantes neste grupo é o facto de pertencermos a universos musicais diferentes. O José Peixoto está mais ligado à música acústica, a um ambiente mediterrânico muito forte, por vezes, até árabe. Eu venho do jazz, do blues e por aí fora. A Rita está num contexto pop mais atual. E depois temos a secção rítmica com o Norton e do Ruca. Acho que a nossa mistura dá uma personalidade particularmente interessante às canções. Uma boa parte do nosso entusiasmo também vem daí. Eram canções que já tínhamos feito e que, embora não sejam inéditas, praticamente não tinham sido tocadas ao vivo. Eram as canções mais obscuras dos discos que gravámos, digamos assim. Gostamos da dimensão que a "misturada" dos nossos universos musicais deu a estas canções.
E o cruzamento da experiência artística de cada um...
MP: Sim. Está tudo ligado. A música é uma arte em que essa "misturada" resulta bem. Já desde os barrocos...
Na descrição do projeto lemos que é "uma celebração da música na sua forma mais pura, trazendo composições que falam de amor, vida e experiências partilhadas". A dinâmica artística entre todos também tem sido partilhada, autêntica e intimista?
MP: Acho que sim. Acho que estamos cada vez mais ligados uns aos outros. O convívio e a partilha musical aproximou-nos imenso. E temos algo em comum. Estamos na música pela música e nas canções pelas canções. Não há nenhuma pretensão de fazer algo que seja mais audível ou que esteja mais encaixado nos cânones da moda. Estamos na música pelo prazer que a música nos dá. Só escolhemos e assumimos uma canção quando todos nós gostamos dela. Achamos que se gostamos da canção, as outras pessoas também vão gostar.
RR: Admiro imensos músicos e gosto de fazer música com outras pessoas mas se não me relacionar bem com as pessoas, não consigo fazer música nem subir a um palco. É essencial para mim dar-me bem com as pessoas com quem estou a fazer música. Acho que, além de este ser um conjunto musical muito rico, temos a sorte que seja composto por boas pessoas. Bons músicos e boas pessoas. Isso transparece nos ensaios e tem transparecido desde o início do projeto. Já lá vão quase dois anos. Tem sido maravilhoso.
E depois há a parte lírica, as letras. Certamente que é importante para ti a poesia que cantas...
RR: Sim, claramente. É um luxo ter o João Monge a escrever [as letras]. Torna-se mais fácil interpretar as canções. O João tem uma sensibilidade muito especial, o que, na verdade, não é novidade para ninguém. Já tem uma longa carreira. As palavras do João já foram cantadas por muita gente. É um homem com uma capacidade especial para escrever do ponto de vista de uma mulher. A sensibilidade que tem na escolha de palavras e de temáticas diz-me muito. E diz-me não apenas por eu ser mulher mas também pela sensibilidade que o João tem quando olha para as relações humanas e para as impressões e sensações do mundo. É um privilégio poder cantar as palavras que ele escreve.
Voltando à forma como apresentam o álbum, também ficamos com uma sensação que querem convidar quem escuta para a vossa casa...
RR: Quando nos pediram para descrever o álbum e cada uma das canções, achámos que só fazia sentido que fosse o João a escrever. Apesar de não estar fisicamente em palco ao nosso lado, está connosco enquanto autor. Pedimos-lhe a amabilidade de escrever umas palavras sobre cada tema e sobre o conjunto de canções. É um luxo ter o João a escrever sobre nós.
MP: Por norma, o João Monge manda-me a letra e depois eu faço a música. Já aconteceu o inverso, mas normalmente funcionamos desta maneira. O que acontece é que quando o João me envia a letra sinto que já lá está mais de metade da canção. É só não estragar. É sempre muito musical. É uma espécie de filigrana em palavras. É um prazer imenso trabalhar nas letras do Monge. Além de que tenho a vantagem de trabalhar com ele há mais de 20 anos. Já nos conhecemos muito bem musicalmente. Ainda assim continua a ser uma surpresa fantástica. É uma sorte termos as letras do João Monge. Acabam por ser o denominador comum disto tudo.
Já partilharam dois singles: 'Só Penso Nisso' e 'O Que é Que Tu Tens?'. Porquê estas duas canções para apresentar o disco?
RR: Com o primeiro single ['Só Penso Nisso'] a nossa preocupação maior foi mostrar que tanto na parte lírica como nas composições dos temas e entre a banda existe a componente de humor. Existe atrevimento, brincadeira. Existem segundos sentidos e digo isto num bom sentido. (risos) E o tema 'Só Penso Nisso' tem um pouco disto tudo. Não nos queríamos apresentar como uma banda baladeira. Essa canção tem uma vida e uma letra muito próprias que reúnem este lado mais maroto do João. E nosso também. No segundo single ['O Que é Que Tu Tens?'] entramos noutro universo em termos de arranjos e de lírica. É uma canção mais introspetiva, mais misteriosa. Pelo menos esta é a forma como eu a interpreto. E isso é algo que existe noutras canções do álbum. Também existe um lado mais virado para o interior.
MP: Precisamente. O reportório [do álbum] é bastante variado, mas, para uma estreia de grupo, estas duas canções representam bem o que fazemos.
E em relação às restantes canções, destacam alguma?
MP: É muito difícil. É quase como ter de escolher entre os filhos. Gostamos de todas e estamos sempre a aperfeiçoá-las. Os ensaios vão quase até uma zona doentia porque vamos ao ínfimo pormenor. Temos de ficar todos contentes com o resultado. Temos prazer em tocar todas. Acho que as pessoas vão perceber isso nos concertos. Assim o espero.
RR: Eu gosto muito de todas as canções do disco, mas há uma que me tocou particularmente logo desde o início. Aliás, foi a primeira canção que tocámos quando nos juntámos para ensaiar. O tema chama-se 'A Balada do Cansaço'. É uma canção muito bonita, com uma melodia muito bonita, mas a letra também diz-me muito. É uma perspetiva muito feminina, muito sensível da relação de uma mulher com um homem. Brinca, de uma forma muito terna, com os papéis que são atribuídos aos homens e às mulheres, passando por questões como a força ou a fragilidade.
Na descrição do álbum lemos que "todas as canções são janelas para abrir". Mesmo sabendo que cada canção tem a sua própria vivência, de uma maneira geral, as canções do disco têm vista para onde?
MP: A ideia de cada canção é uma janela que se abre é uma imagem muito bonita. E é verdade. Mas quanto à paisagem, acho que depende de quem ouve a canção. Quando conversamos com pessoas que já conhecem o nosso trabalho ouvimos histórias completamente diferentes sobre a mesma canção. É engraçado ver como é que as pessoas interpretam as coisas. Quando fazemos uma canção temos uma ideia, mas depois cada pessoa vai senti-la e interpretá-la à sua maneira. Cada um terá a sua janela, a sua paisagem.
RR: Isso acontece até entre nós. Por acaso, nunca nos sentámos para falar sobre a perceção que cada um tem das canções em matéria de significado. Provavelmente, também será bastante diferente entre nós. Essa é a liberdade da música. É uma linguagem meio abstrata que dá liberdade às pessoas para que a sintam com tudo o que guardam dentro de si.
E o que é que estão a preparar para o concerto de apresentação no Cine Incrível?
MP: Agora estamos na fase de escolher o alinhamento. Nós gostamos muito do que estamos a fazer e esperamos conseguir passar isso para o público que nos for ver. Até estamos um pouco sequiosos de mostrar o nosso trabalho. Quando ensaiamos estamos sempre a limar arestas mas agora já estamos na fase em que só queremos ir para o palco, para a frente do público.
RR: Acho que neste primeiro concerto vamos já ter alguns momentos cénicos postos em prática. Estamos a vestir o bebé. (risos)
Um bebé que vai crescer...
Sim! Queremos que cresça, que se torne adulto e que tenha vida própria. (risos)
