Álbum novo de Milhanas inspirado na música de Patti Smith ou nos filmes de Ingmar Bergman
"Surto" sai hoje. O cantor Nick Cave e o cineasta Jean-Luc Goddard são outras influências assumidas.
A cantora Milhanas edita hoje “Surto”, álbum que marca o início de um novo ciclo, num lugar de “liberdade, curiosidade e descoberta”, influenciada por músicos como Nick Cave e Patti Smith e o cinema de Bergman e Godard.
“Surto”, o segundo álbum da cantora e compositora de 24 anos, inicia com um tema, “Intro”, que é uma viagem cronológica até ao lugar onde Milhanas está hoje, que é, nas palavras da cantora, “um lugar de muita curiosidade”.
“Quis começar como concretizei o ‘Sombra à Sombra’ [álbum de estreia, editado em 2023] no seu todo, que é uma viagem cronológica pela minha vida. Quis começar esta nova fase, este novo ciclo, com esse pequeno apontamento, quase aquelas referências em que ninguém repara, mas a que gosto de dar atenção. É aquela canção que volta à origem, mas que já mostra que o caminho tem outra perspetiva”, partilhou, em entrevista à Lusa.
“Intro” tem alusões, por exemplo, a Fausto Bordalo Dias, influência musical de sempre, a par de outros cantautores portugueses, e que marcaram a criação do álbum de estreia de Milhanas.
No lugar onde se encontra agora, a cantora percebeu “que é preciso urgência e curiosidade”. “A coisa mais importante para mim neste momento, nesta fase da minha vida, é estar curiosa e atenta à vida, que era uma coisa que infelizmente não acontecia na outra fase da minha vida, que criou e concretizou o ‘Sombra à Sombra’”, partilhou.
O lugar de “liberdade, curiosidade e descoberta” tem também “muita vertigem, portanto não é necessariamente só cheio de encantos”. “Mas ao menos estou viva, estou à procura”, disse.
A descoberta, além de pessoal, levou-a também a alargar as influências musicais, abrindo a porta ao que chega do estrangeiro.
“Tenho tido a voz do Salvador Sobral na minha cabeça, que sempre me disse: ‘estás a perder tanto em estares tão recolhida e tão presa àquilo que é nosso, e que é uma beleza, mas vais ganhar muito mais quando abrires a porta e perceberes que há todo um mundo inteiro lá fora que te vai encantar’. Só que eu tinha uma postura um bocadinho conservadora, que também vem de um lugar um bocado de imaturidade, de achar ‘isto é onde eu pertenço, é isto que eu quero fazer, um bocado carrancudo’”, contou.
Milhanas não ouvia apenas música portuguesa, mas ainda não se tinha “debruçado sobre a viagem de forma tão plena ou tão atenta ou tão curiosa, de ouvir os discos do início ao fim”.
A “maior paixão, maior encanto” que teve no processo de criação de “Surto” foi o cantor australiano Nick Cave.
“Foi o grande amor da minha vida deste disco, mas passei muito pela Patti Smith também, e os clássicos Nirvana, Radiohead, já numa versão mais contemporânea, Massive Attack também trouxe muitas referências engraçadas ao disco”, partilhou.
As influências dos cantautores portugueses continuam lá, “é impossível deixá-las para trás, ou alheá-las do disco”, porque as tem dentro de si, “já ganharam o seu lugar”.
“Eu não renunciei a nada, simplesmente segui aquilo que estava a sentir e a verdade é que também o facto de o cinema ter aparecido, e de a parte lírica ter ganhado outro lugar, outra inspiração, acabou por me afastar um bocadinho também até dessa parte poética, que acabava por me ligar muito aos poetas portugueses”, explicou.
O cinema também foi sempre uma paixão de Milhanas, mas ver filmes e descobrir os autores e as suas obras completas exige tempo, que optava por usar a ouvir discos.
“De repente decidi começar a debruçar-me sobre os realizadores que de alguma forma já me tinham encantado no passado, e fiquei obcecada. Eu sou muito de obsessões, e não descansei enquanto não vi tudo o que estava disponível, tanto de [Ingmar] Bergman como de [Jean-Luc] Godard”, partilhou.
A letra de um dos temas de “Surto”, “Mais je ne suis”, é retirada do filme “Vivre Sa Vie”, de Godard, um filme que Milhanas viu “oito vezes nos últimos oito meses”.
À semelhança de “Sombra a Sombra”, também “Surto” é um álbum “muito pessoal”.
“Enquanto me fizer sentido, ou pelo menos enquanto sentir que tenho coisas que se calhar não consigo dizer de outra maneira, e que só consigo dizer através da música, far-me-á sentido fazê-lo desta maneira”, disse.
Mais do que ser pessoal, para Milhanas, o importante é que “os discos venham sempre de um lugar de verdade”.
“Essa é a minha máxima: conseguir sempre a verdade nos discos e conseguir uma coisa visceral, seja sobre o que for. Neste caso, eu sinto que ainda precisava deitar algumas coisas cá para fora”, partilhou.
Além de ter sido criado sob novas influências, o novo álbum de Milhanas teve um processo de gravação muito diferente.
“Sinto que o ‘Sombra a Sombra’ foi um namoro entre mim e o Agir [produtor do álbum], de ficarmos ali embutidos naquele ambiente os dois, e depois eventualmente iam aparecendo os músicos para gravar um piano, mas não foi um processo em grupo”, recordou.
Em “Surto” “tudo é diferente”. “Os arranjos são feitos em conjunto. A produção não é só minha, do Jon e do Agir, já apareceu o Rodrigo [Correia], apareceu o Manuel [Oliveira], o próprio do baterista [João Lencastre] também dava opiniões. Portanto, passou a ser uma coisa em banda”, contou.
Este processo trouxe à música e ao disco “uma vertigem, veneno”, visto que Milhanas e os músicos nunca procuraram a perfeição.
“Vivemos um bocadinho dos ‘takes’ mais especiais. Não escolhíamos os que estavam [mais bem] executados tecnicamente, mas aqueles que nos diziam mais ou que foram mais especiais para nós de gravar”, disse.
A ideia, que tanto a apaixonou, de “estar a gravar um disco imperfeito” só foi possível por estar em estúdio a gravar a voz ao mesmo tempo que a banda.
“Não estou muito preocupada com a minha voz naquele momento, estou a sentir a banda toda a tocar, estou atenta ao baterista, estou atenta ao baixo, estou atenta ao piano. Quase perdi algum protagonismo e fui muito feliz nesse lugar de estarmos todos no mesmo sítio”, referiu.
O concerto de apresentação de “Surto”, que terá edição digital e em vinil, será anunciado em breve. Mas, a partir de outubro, as canções do álbum já farão parte do alinhamento dos espetáculos de Milhanas.
