Russos, censura e mais de oitenta livros: Alice Vieira, uma vida entre histórias

Do jornalismo aos livros, há mais de sessenta anos que Alice Vieira se dedica às letras.

Alice Vieira é jornalista há mais de sessenta anos, passou plo Diário de Lisboa, Diário Popular e Diário de Notícias. Integrou redações em ditadura e em liberdade. Enquanto autora, conta com mais de oitenta livros publicados, quarenta e cinco fazem parte do plano nacional de leitura. 

Saiu de casa muito cedo. Lembra-se da sua infância?

Digo sempre que devo ter sido a rapariga que saiu mais cedo da casa dos pais, porque a minha mãe deu-me tinha eu treze dias. Não estava para criar filhos, então tinha filhos e dava. Portanto, nunca fui criada com os meus irmãos, porque cada um era dado a outra pessoa, que não conhecíamos. Só conheci o meu irmão mais novo nos anos sessenta, quando fui para Paris e ele me apareceu lá. Eu disse: "A gente tem nomes iguais. Se calhar somos irmãos". Depois fomos ver e éramos. 
Portanto, a minha infância foi assim. Se calhar, não sei se por isso ou não, o resto da minha vida foi muito bom, também à minha custa: vivi sempre onde quis, tive os homens que quis, tive os filhos que quis. Até ia dizer que tive os netos que quis, isso já não era comigo claro, mas se pudesse escolher também era estes. 
Tive dois cancros e fui operada. Sou muito realista. Perguntei ao médico depois da operação "Olhe, tenho coisas para fazer, quero isto quanto tempo de vida mais é que me dá?". Ele disse que era difícil dizer, estava cheia de metástases, não tinham tirado nem metade. "Está bem, mas quanto é que me dá?" Dois ou três anos. E eu disse: "Vão ser os melhores anos da minha vida". Fui viajar, por aí fora. Estava diante do muro de Berlim quando se foi abaixo. Tenho fotografias extraordinárias desse dia. Dois, três, quatro anos. O dinheirito começou-me a faltar, tive de voltar para casa. Tinha me despedido do jornal, voltei a ir para o jornal. Isto já foi há trinta e sete anos. O médico que me disse isso, coitadito, já morreu. Acho que se quando ele me disse isso, se me tivesse ido abaixo, tinha morrido logo.
De resto é assim, ando por aí, já vou nos oitenta e dois e faço o que quero e ando por aí e viajo. Agora não viajo muito porque me chateia, vou muito a escolas, a partir do 5.º ano. Dou aulas na Universidade Sénior aqui na Ericeira, que é uma coisa que eu também gosto muito. 

Por falar em educação, por que não foi para a escola em criança? 

Naquela altura, havia muito medo da tuberculose e dessas doenças que se apanhavam. A minha família, com medo disso, não me deixou ir à escola. Fui fazer os exames, da terceira classe e quarta classe, já assim um bocadito mais crescida. Fiz finca-pé e disse: " Quero mesmo para o liceu, não quero estudar mais em casa". Eles disseram-me: "Vai, vai. Tu nunca estiveste com muitas crianças juntas, não vais gostar nada e vens logo para casa". 
Então fui para o Liceu Filipa de Lencastre, que ainda existe. Gostei tanto daquilo que inventava aulas que não tinha só para lá ficar mais horas. Era muito popular, porque ia para casa das professoras todas. Uma das coisas que me orgulho muito, é que hoje uma das salas da escola tem o meu nome. 
Depois fui para a faculdade, fiz licenciaturas, fiz doutoramento.

É na faculdade que vai experimentar o jornalismo? 

Na faculdade, sim, tinha dezoito anos quando entrei para o jornal. Estava no jornal e fazia a faculdade. O primeiro onde trabalhei foi o Diário de Lisboa.
Quando me dizem que sou escritora, eu digo: "Calma aí. Eu sou uma jornalista que também escreve livros, que é diferente". E é verdade, porque eu tenho mais de oitenta livros publicados. Agora já são demais, já não estou a fazer nenhum. Agora, se os jornais pra onde eu trabalho me dissessem: "Não faças mais para cá". Ah, isso é que era bom, daquilo é que eu preciso. Quer dizer, uma pessoa que é jornalista, é jornalista sempre. Olha-se para uma coisa e pensa: "Assim que chegar a casa, vou logo contar isto".

Na década de sessenta, como eram as redações? 

Era uma fumarada que a gente quase nem se via uns aos outros. Toda a gente fumava, era daquelas coisas... Depois, se queríamos notícias, tínhamos de ir procurá-las. Havia sítios - bares, sobretudo - que nós sabíamos onde se reuniam muitos jornalistas e outras pessoas influentes. Era onde a gente ia buscar as notícias. Há um bar que se chama Snob, hã, que era onde nós íamos todos. Ali a gente sabia tudo, o que é que estava e o que é que ia acontecer, depois íamos saber melhor. 

Como se fazia jornalismo com a censura? 

Já nasci com a censura e com ditadura. Depois do 25 de Abril, foi muito difícil habituar-nos a escrever sem censura. Lembro-me perfeitamente de estar a escrever uma notícia e dizer: "Ah, isto não posso dizer". Depois parar um bocadinho: "Não posso? Claro que posso, agora posso dizer tudo". Nós já estávamos formatados para isso. Havia coisas que não se falava, pessoas de quem não se falava, coisas que não se podia dizer. Levou bastante tempo a sair. 
Nós estávamos mesmo habituados e isso era terrível. Às vezes até percebia porque é que a censura cortava. Mas havia outras coisas. 
Quando o Papa Paulo VI veio a Portugal, escrevemos um artigo e pusemos uma fotografia da sala onde o Papa ia descansar quando chegasse antes de ir para Fátima. Cortado. O Papa chega no avião. Cortado. Tudo o que dizia respeito ao Papa era cortado. Começámos a estranhar. E então, porquê? O Papa, antes de vir a Portugal, tinha recebido no Vaticano os dirigentes dos movimentos de libertação de Angola e Moçambique. Pronto, era pessoa non grata. Quem não soube que o Papa vinha cá ficou sem saber, porque não saiu uma única linha. 
Os jornais naquela altura eram privados. O dono do meu jornal, que era o Ruela Ramos, chamou-me: "Olha, vamos pôr aqui uma notícia a dizer que não estávamos contentes com o teu trabalho. Despedimos. Passamos uns diazitos e depois dizemos que já contratámos outra, obviamente que és tu, e assinas com um pseudónimo, outro nome." Está bem. Fiz tal qual, cortaram tudo e os censores mandaram assim: "Esta ainda é pior que a outra!" Era terrível a censura, às vezes nós nem percebíamos porque é que as coisas eram cortadas. Fazíamos todos os possíveis para ver se eles não entendiam, mas eles não eram burros. Às vezes lá passava uma coisa ou outra sem eles darem por isso. 
Foram tempos muito complicados. Sobretudo para determinados jornais, o Diário de Lisboa era terrível, dos que era mais cortado. Uma vez cortaram tanto que os meus patrões decidiram que nessa tarde, a primeira página saiu toda só com receitas de cozinha para as pessoas perceberem que tinha acontecido qualquer coisa. Claro que no dia seguinte ainda fomos mais cortados. 
Depois os telefones dos jornalistas estavam todos vigiados, mas nem nos lembravamos disso. Mal de nós se a gente se lembrasse. Há uns bolos que se chama os russos. São uns bolos de ovo. Um dia tinha feito, liguei para uma tia minha que gostava muito e disse : "Ó tia, os russos já aí vão". Quando desci estava a polícia cá em baixo a perguntar onde é que estavam os russos, quando é que eles tinham entrado, quem é que os tinha trazido, onde é que eles tinham ficado. Levaram-me para a esquadra e só quando, por acaso, na esquadra apareceu um fulano que nos conhecia e começou a sorrir: "Ai, não! Deixe estar! São mesmo os bolos!" 
Quando a gente falava em Santo Antoninho, obviamente que era o Salazar, tínhamos de fazer coisas para ver se as pessoas percebiam. O Solnado conseguiu fazer isso uma vez numa revista, quando estava a ser construída a Avenida Liberdade. Ele dizia: "Fizeram e cavaram, foi-se a liberdade!" Então, no teatro e nas revistas sobretudo estava sempre um censor todas as noites ali a assistir. Todas as noites. Depois daquilo já ter sido cortado e mais cortado.

É por isso que vai para Paris?

Vou para Paris porque já não aguentava com a censura, ter de trabalhar e não poder... Um dia sem saber muito bem o que é que fazia, meti-me num avião e fui a Paris. Lá me lembrei que tinha lá uma prima: sabia a morada, mas não sabia onde é que ficava, que era a Maria Lamas. Até ao dia em que eu me vim embora, nunca me perguntou porque é que eu tinha saído. Foi uma pessoa extraordinária.  A minha estada em Paris, essa é que foi a minha verdadeira universidade. Ela era uma pessoa muito conhecida lá. Todas as pessoas mais ou menos importantes que lá iam, iam logo vê-la. Conheci Jorge Amadas, Zélia Gattai, Pablo Neruda, pessoas que iam ter com ela e eu ficava com eles. Comecei a trabalhar num jornal que se publicava também na Suíça, que era o Lusitano, para os imigrantes portugueses - ainda hoje trabalho. Foi realmente muito bom. 
Até que um dia, dá-se o Maio de 68. A gente estava a ver que aquilo ia dar numa guerra. Foi uma coisa extraordinária. A Maria Lamas depois disse-me uma coisa muito certa: "Podes ficar comigo o tempo que tu quiseres, eu não posso sair daqui senão sou pressa, mas nós quando queremos lutar pela liberdade é no nosso país que a gente deve lutar." No dia seguinte eu apanhei o avião e vim para Portugal. 
Foi complicado, mas estava de acordo com ela. Abriu-me os olhos.

Como é que chega aos livros?

Cheguei muito tarde, quando afirmo que sou uma jornalista que também escreve livros, digo sempre: "Entrei para os jornais tinha dezoito anos, o meu primeiro livro escrevi tinha trinta e cinco. Os anos que eu tive sem escrever livros.”
Foi por um acaso; no verão os meus filhos que eram miúdos estavam de férias, eu não estava de férias, portanto, para os ter em casa era complicado. Dei-lhes uma ideia. Escrevermos os três um livro, sobre a nossa vida, sobre as nossas pessoas e a gente divertiu-se muito. Dissemos mal da família toda, que é um desporto muito saudável. 
Um dia estava no jornal, nessa altura já trabalhava no Diário de Notícias e recebo um telefonema: "Ah, é para dizer que ganhaste o prémio". Qual prémio? Eu não tinha concorrido a prémio nenhum. Então o que é que tinha acontecido? O meu marido tinha pegado naquelas páginas que eu tinha escrito com os miúdos, juntou aquilo tudo e mandou para um concurso que havia nessa altura – a propósito do início da Editora Caminho. Um concurso para o melhor livro para crianças daquele ano.
Depois pediram para eu escrever outro livro, eu escrevi outro e mais outro. Quando tinha uns cinco livros publicados disse à editora: "Fica lá com esses cinco livros. A minha vida não é esta." Mas depois começou-me a fazer falta, porque escrever um livro não é a mesma coisa que escrever nos jornais. Recomecei e cá estou. Já são quase mais de oitenta livros. 

Enquanto jornalista, qual foi a entrevista que mais a marcou? 

Uma vez, ia na rua para o Diário Notícias e vejo a passar um ator de uma telenovela brasileira que estava a dar com muito serviço, fazia de Mundinho Falcão na “Gabriela”, que era o José Wilker. Olhei para o tipo, peguei nele e disse: "Venha cá". Entrei com ele para o Diário de Notícias e fiz-lhe uma entrevista. O tipo era extraordinário. Gosto muito de entrevistar pessoas, acho que se soubermos falar e tirar coisas delas, qualquer pessoa pode dar uma grande entrevista. É isso que eu gosto mais de fazer nos jornais. 

O que é que ainda lhe falta fazer? 

Tudo. A gente sabe lá o que é que nós temos amanhã. Enquanto cá estiver vou olhando para as coisas, vou escrevendo sobre o que se passa. Falta-me fazer as coisas que vão aparecendo e a gente nem dá por elas. A vida é tão diferente hoje do que era há dez anos ou isso. Portanto, há sempre coisas novas...

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.