Aline Frazão: "a guerra é a devastação da esperança"

A artista angolana lança hoje o disco "Uma Música Angolana".

Aline Frazão (cantora, autora, compositora e produtora musical) nasceu em Luanda, Angola, em 1988. É uma das vozes de referência do universo artístico angolano e a partir de hoje, 4 de março, soma mais um álbum à discografia que assina desde 2011. "Uma Música Angolana", assim se chama o disco editado esta sexta-feira, junta-se a "Clave Bantu" (2011), "Movimento" (2013), "Insular" (2015) e "Dentro da Chuva" (2018). 

O novo registo chega aos ouvidos do mundo a "navegar entre vários ritmos de matriz africana, como a massemba e o kilapanga de Angola, o batuku de Cabo Verde, o soukous do Congo e o afoxé e o maracatu do Brasil". São ritmos "desconstruídos e reinventados", como conta a nota de imprensa que descreve o álbum, "reivindicando-se não só a origem comum a todos eles mas também imaginando uma sonoridade nova de fronteiras perdidas, que se consolida sobre uma espécie de pátria imaginária feita de memórias rítmicas partilhadas, de lutas atuais e de celebrações necessárias e urgentes".

A celebração é também pelo reencontro de Aline com uma mão-cheia de músicos e artistas que a inspiram. Nomes, escolhidos pelo coração da cantora, que contribuiram para edificar musical e criativamente este trabalho. "Uma Música Angolana" conta com a participação do artista angolano Nástio Mosquito, do cantor brasileiro Vítor Santana e da violoncelista alemã Suzanne Paul. Brisa Marques assina a letra para a melodia composta por João Pires e o fadista Ricardo Ribeiro compôs uma canção inédita para um poema de Pedro Homem de Melo. O álbum resgata ainda uma canção de Paulo Flores, com direito a um novo arranjo. 

A produção do álbum ficou a cargo da própria Aline Frazão. 
 

Como estás, Aline?

Estou bem, dentro do possível. Não vou mentir. Não está fácil. Está tudo muito confuso.

Sei que absorves bastante a energia do mundo, aquilo que te rodeia, o que acontece de bom e de mau. Como é que estás a gerir as tuas emoções neste momento?

Esta guerra na Europa tem estado a afetar-me muito psicologicamente. Não sei se é por ser angolana, por ter passado os anos da infância numa Angola em guerra. Era muito pequena, tinha quatro anos, mas acho que essa experiência afetou-me muito apesar de morar em Luanda que, por ser a capital, acabava por estar mais protegida. A guerra é a devastação humana. É a devastação da esperança. É um mal absolutamente irracional e muito difícil de corrigir. É mesmo muito difícil corrigir uma guerra.

Que marcas é que a guerra em Angola te deixou?

Só comecei a fazer essa pergunta a mim mesma quando me mudei para a Europa, quando fui viver para Espanha. Comecei a questionar-me quando tinha de explicar o conflito aos europeus ou quando tinha de descrever o modo de vida angolano. Começava com uma contextualização geográfica e depois descrevia o contexto político e falava da guerra civil. Acabava sempre por ser uma versão muito limitada, mas, enquanto respondia à curiosidade dos outros, fui encaixando algumas coisas na minha memória. As recordações são muito maleáveis. Nem sempre temos o controlo total sobre elas. Lembro-me de alguns episódios, dos confrontos em Luanda, dos tiroteios. Lembro-me do medo. Eu, os meus pais e a minha irmã, que tinha apenas um mês, tínhamos de dormir no chão. Às vezes questiono-me: 'como é que os meus pais passaram por aquilo?' É algo inimaginável para a nossa geração. Não tenho recordações particularmente chocantes mas ouvia os relatos dos meus colegas da escola primária que descreviam cenas terríveis, como ver mortos na rua, por exemplo. Isto foi no início dos anos noventa. A guerra só terminou em 2002. Muitos anos de ameaças, deslocações de refugiados e pobreza. Ainda fico apavorada quando oiço fogo de artifício. Apesar de tudo isto, o que vivi não se compara com a experiência da maior parte dos angolanos, sobretudo daqueles que viviam noutras partes do país. É incomparável. Eu vivia numa redoma altamente protegida. 


És uma mulher devota à liberdade. Achas que damos a liberdade como um dado adquirido - sobretudo quem não passou pelo tipo de situações que estás a descrever?

Eu sou angolana. Lembro-me da censura, da perseguição à oposição. A liberdade nunca me foi dada. Quando disse aos meus pais que queria ser jornalista o meu pai respondeu: "neste país podes acabar mal". Sempre me senti grata pela liberdade. Não esquecer que Angola é um país recente, só conquistou a independência em 1975. Eu cresci a ouvir as histórias da geração que lutou pela independência. Ao contrário da minha geração que cresceu no continente europeu, no ocidente, nunca senti que a liberdade fosse algo que me fosse dado. Antes pelo contrário. Quando falava sobre Angola chegava a sentir tremores no corpo. É trágico ver o que está a acontecer na Ucrânia. É também muito triste perceber que as pessoas que estão na Rússia podem ser punidas se verbalizarem a palavra "guerra" ou se denunciarem que perderam alguém em combate. Não podem dizer este tipo de coisas. Tudo isto é aflitivo. A História está cheia de exemplos como este. Não nos podemos acomodar à sensação de liberdade, por mais que seja gostoso poder beber uma cerveja ao fim do dia e esquecer tudo o resto. Sinto isso também em relação a outro tipo de direitos, como os direitos das mulheres ou a luta antirracista. 


Já que falas nisso, a canção 'Luísa' é sobre a liberdade das mulheres, certo?

Sim. É uma canção que fala sobre a voz das mulheres. É sobre a pressão que recai sobre elas. A pressão de terem de fazer sempre tudo bem ou de terem de fazer três vezes mais do que os colegas - e que mesmo assim pode não ser suficiente. É uma autocobrança. [A canção] é sobre as dificuldades que as mulheres encontram pelo caminho. [A Luísa] é uma personagem fictícia inspirada em muitas histórias. É uma Luísa que dança e celebra as vitórias sozinha. Tem uma vida autónoma e uma voz num mundo que ainda exerce muita pressão sobre as mulheres. Ainda há desigualdade [de género]. Por outro lado, também quero transmitir uma mensagem que acaba por estar muito relacionada com a filosofia japonesa. Todos nós somos feitos de remendos. É importante saber que podemos muito bem juntar esses cacos. Há uma parte na letra que diz isso mesmo: "o que em ti é falho e é belo porque é remendado/E o que é remendado nasceu/Outra vez e nunca tem fim". É a ideia de darmos uma segunda oportunidade aos corpos sofridos, às histórias tristes que todos nós guardamos. Não precisam de ser grandes dramas ou de ocupar as páginas dos jornais.    

Dançar é uma boa analogia para a liberdade e também para a liberdade das mulheres...

Sim. É a celebração dos nossos corpos. É simplesmente fazer o que queremos. Há algum tempo que queria dançar num videoclipe mas acabava sempre por estar demasiado autoconsciente. Achava-me ridícula. (risos) Neste videoclipe dancei de improviso. Fui buscar as minhas skills da bailarina que fui quando era adolescente. Pratiquei ballet durante muitos anos. Gosto muito de dançar. Gosto de dança contemporânea, ballet e até de dançar kizomba. Gosto de tudo.   
   


Na descrição do disco "Uma Música Angolana" podemos ler o seguinte: "é uma festa inesperada, num momento semisombrio". Que festa é esta?

A verdade é que, no espaço de uma semana, o mundo mudou muito. Sinto que todas as entrevistas que dei antes [do início da guerra na Europa] ficaram desatualizadas. O que queria dizer é que este disco fez-me muito feliz. Pensei muito neste álbum. Cheguei a sonhar com o disco. Durante a pandemia, tive de estar em isolamento em Luanda e longe dos músicos com quem trabalho. O meu círculo de trabalho está em Lisboa e noutros pontos da Europa. Só pensava que tinha de chegar o mês de setembro para conseguir gravar o meu disco. Criei uma enorme expetativa com o reencontro com os músicos e com o regresso ao estúdio [PontoZurca, em Almada] que é um lugar muito especial para mim. Queria muito ver a magia a acontecer. Falo da magia que existe na entrega das canções (que fiz na intimidade do quarto, com uma guitarra, um caderno e uma caneta) a outros seres humanos. É tudo muito mágico. De repente, com a ajuda de outros instrumentos, as canções começam a ganhar contornos mais definidos que depois são fixados na gravação e chegam ao público nos concertos.

E é também o teu regresso aos discos com banda...

Sim. Como vim de um disco a solo tinha muita vontade de partilhar, de voltar a estar com as pessoas, de tocar com a minha banda, de sentir o intercâmbio [entre os músicos]. Faltava-me isso.  

Fizeste questão de publicar os vídeos com os momentos de estúdio. A partilha do processo criativo é importante para ti?

Adoro o conceito de making of, de tudo o que existe atrás das câmeras. Mesmo antes de fazer música ficava fascinada com o processo de criar um disco. Há um certo misticismo à volta dos artistas e do trabalho que fazem. Muitas vezes nem é visto como um trabalho. Eu gosto de me ver e de me rever a trabalhar. Gosto de ver os músicos a trabalhar, a ter ideias. 

É o ouro...

Sim.

 

Ainda em relação à visão que tens do mundo e à música como um veículo para expressá-la, como é que essa visão foi amadurecendo ao longo de dez anos de carreira?

Acho que lido bem com a passagem do tempo. Sei que é difícil manter a chama da primeira juventude. Quando somos mais novos há ingenuidade e frescura. São qualidades que até podem ser benéficas para dar impulso a movimentos políticos ou a movimentos históricos. O passar dos anos, o que vamos vivendo e o que vamos absorvendo acaba por impactar essa visão. Há coisas que eu simplesmente não consigo entender. O mundo não é propriamente um lugar que faça sentido. A humanidade é um profundo mistério. Tento lidar com isso como posso.  

A arte ajuda a suavizar?  

Uma das coisas que mais valorizo é o bem-estar. A importância do bem-estar. O bem-estar e o ócio são fundamentais. São duas coisas cada vez mais importantes, sobretudo numa sociedade que vive a grande velocidade e debaixo da pressão das redes sociais. A música e a literatura, por exemplo, são muito importantes. Ler um livro é das coisas que me dá mais prazer. Dá-me um centro para poder lidar com os desafios do dia a dia ou com os problemas da vida. O mesmo acontece com a música. É o que me motiva para continuar a fazer este trabalho mesmo quando parece que o mundo está prestes a acabar.  

"Uma Música Angolana" conta com a participação de Toty Sa'Med, do artista angolano Nástio Mosquito, do cantor brasileiro Vítor Santana e da violoncelista alemã Suzanne Paul. Brisa Marques assina uma letra para melodia composta por João Pires e o fadista Ricardo Ribeiro compôs uma canção inédita para um poema de Pedro Homem de Melo. Recupera ainda uma canção de Paulo Flores, com novo arranjo.
 

E os convidados, como foi juntar este elenco?

O disco foi feito em família. Foi um reencontro familiar. Eu canto uma música do Paulo Flores que é um nome incontornável da música angolana e um ídolo para mim. Ele autorizou, deu a sua bênção. Canto canções do João Pires, que é um músico lisboeta, da [brasileira) Brisa Marques, que é mineira, de Belo Horizonte. Outro convidado que veio do Brasil é o Vítor Santana que, além de ter uma voz que eu adoro, pertence a uma movida de artistas mineiros com os quais me identifico muito. O estado de Minas Gerais tem uma riqueza musical incrível. Convidei o Vítor porque achei que fazia sentido juntar a voz dele à minha naquela canção. Já cantámos juntos várias vezes. O Nástio Mosquito é um artista angolano que, além de ser meu amigo, é uma pessoa que me inspira muito. Adoro o trabalho dele como artista plástico, performer e músico. É um nome consolidado no circuito internacional das artes performativas e das artes plásticas e visuais. É um artista muito ousado e tem uma voz muito penetrante. Convidei-o para ler um texto que quis incluir no álbum. Era impossível não chamar o Toty Sa'Med. A viola do Toty é parte da minha própria história. Já nos conhecemos desde a infância quando vivíamos em Luanda… 

E o Ricardo Ribeiro...

Sim, claro. Conheci o Ricardo há pouco tempo. Quando o ouvi a cantar a 'Valsa da Libertação' fiquei tão fascinada que ganhei coragem e fui falar com ele. Disse-lhe que achava a música incrível e pedi-lhe para fazer uma versão. Ele ficou muito entusiasmado. É um poema lindíssimo, de Pedro Homem de Melo, sobre a liberdade e sobre o peso e a leveza. Outra convidada neste disco é a Suzanne Paul que toca violoncelo e é daqui, de Berlim.       

Aline Frazão vai estar em Portugal para mostrar "Uma Música Angolana". O Auditório de Espinho | Academia e o Teatro Maria Matos, em Lisboa, são os primeiros espaços a receber o espetáculo de apresentação do novo álbum. A artista angolana atua em Espinho a 26 de março. A 20 de abril, sobe ao palco da sala lisboeta. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais. O disco será apresentado também numa digressão internacional que tem início na Alemanha, no dia 10 de março, passando depois pelos Países Baixos e pela Suíça. Mais datas serão anunciadas em breve.