Alive: Nine Inch Nails, câmara, ação
Trent Reznor faz dedicatórias aos Davids: Lynch, o cineasta, e Bowie, o músico.
Apesar do maior mediatismo dos Muse neste dia final do festival NOS Alive, era bastante visível a legião de fãs de Nine Inch Nails, quase sempre com a camisolas pretas com a sigla NIN, por todo o recinto do Passeio Marítimo de Algés. E um número considerável de fãs da banda de Trent Reznor não se importou de se instalar horas a fio junto ao Palco NOS, desde o meio da tarde.
O espetáculo iniciou-se já de madrugada, depois da meia-noite, com uma densidade populacional elevada na área do Palco NOS, apesar do restante recinto ter passado a estar mais espaçado, depois da debandada dos fãs de Muse. Era como se os fãs dos Nine Inch Nails fossem uma tribo à parte, mas ainda assim um grupo étnico bastante grande.
O fundador e líder histórico Trent Reznor é, numa verdade à la Palice, a figura central, com o seu camuflado desportivo-militar e a sua forma sombria de cantar. Sempre com um ar concentrado, pega de quando em vez na guitarra elétrica. Quando se segura só no microfone, fá-lo com as duas mãos e baixa a cabeça quando não está a vociferar. Às vezes, bate com uma pandeireta no peito. Outras vezes berra que nem um furioso. Outras vezes parece que sussurra na direção de uma força transcendente que o salve.
O homem da câmara é o sexto membro, ou talvez mais do que isso, mexendo bruscamente na câmara de forma acelerada, como resposta à música industrial e agressiva. Não é filmagem por adivinhação, mas por conhecimento profundo de todos os movimentos dos cinco músicos. É como se estivesse a fazer um documentário ao vivo. Trent Reznor e Atticus Ross, o núcleo central do quinteto ao vivo, são homens de cinema bem premiados na área de música. E talvez saibam como poucos que a comunicação de um concerto num festival de grande dimensão passa muito pela imagem. No concerto dos Nine Inch Nails, a câmara de filmar é também um instrumento precioso.
Os Nine Inch Nails entram a matar no concerto de hora e meia. À segunda música, há já muitos fãs de braço no ar e a cantar com Trent Reznor, “Wish there was something real/In this world full of you”, na música 'Wish'. A parede sonora intempestiva do rock industrial dos Nine Inch Nails não deixa os fãs ouvirem-se mas eles cantam na mesma.
A música de barra pesada dos NIN açoita tudo e todos e requer um grande baterista como Ilan Rubin, apesar da parafernália de programações e de eletrónicas. Em 'Copy of A', os NIN agem como um coletivo de eletrónica pura e dura, com Trent Reznor como o único que não está atrás das programações. O palco escurece nesse tema e a cara pálida de Trent Reznor brilha como uma lua.
Segue-se 'The Perfect Drug' como um díptico ligado por um poderoso solo de bateria, entre o agreste e o clamor espiritual. Como é uma canção escrita para o filme "Lost Highway" (protagonizado por Patricia Arquette), Trent Reznor aproveita para prestar tributo a David Laynch - “sinto tanto a falta deste homem” - e depois homenageia outro David falecido, o Bowie, antes de cantar "I’m Affraid of the Americans", dos tempos de colaboração entre ambos a meio dos anos 90.
Trent Reznor desabafa mais tarde, “não sei se sabem, mas as coisas estão bastante lixadas nos Estados Unidos”, antes da tempestade industrial que se avizinhava com temas dos velhos tempos como 'Burn' ou 'Head Like a Hole', antes do fecho solene e em baixa luz com ‘Hurt’.