Alive: punkadas no Rei Carlos pelos Idles

Turbulência no som e nas palavras. Este é o rock refilão da banda britânica que devastou consciências.

A canção punk é uma arma. E os Idles sabem bem disso. A banda de Joe Talbot despejou a sua raiva republicana no Palco NOS, sem rodeios e sem temores. "Fuck the king" foi a frase chave deste concerto, que dita à segunda vez, inspirou o público a vociferá-la, em solidariedade com o ídolo. Joe Talbot ajoelhou-se e fez a vénia ao público português pelo momento, antes de rosnar a música "anti-fascista" Rottweiler, que fechou a sova de rock de quase uma hora.   

A distorção está no som das guitarras dos guedelhudos Mark Bowen e Lee Kiernan, mas não na realidade das letras de Joe Talbot, que são reclamações sociais contra o estado em que está o Reino Unido. Quase todos os membros dos Idles são uns figurões. O vocalista Joe Talbot, com uma fita na cabeça que não lhe conhecíamos, faz corridinhas no mesmo metro quadrado, como quem está a fazer exercício físico em casa. Esbofeteia-se. Caminha inclinado com uma mão nas costas. E perto do final, a sua cara está vermelha, a voz rouca e a camisa enxuta em suor. 

O guitarrista Mark Bowen está com um vestido branco decorado com bichinhos, com a sua guitarra subida ao peito. O cabelo escorrido sobre a face e sobre o farto bigode não atrapalha os seus berros de apoio a Joe Talbot. Também o baixista Adam Devonshire faz parte desta excentricidade humana destes proletários do punk. Abana a anca sempre que pode, e canta longe do microfone exatamente o que o mensageiro Joe Talbot está a metralhar, em momentos repetidos de um apoio teatralizado. 

Joe Talbot perguntava em bom português: “está bom?”, com todas as sílabas. A multidão respondia que sim. E tudo ficou muito bom. Car Crash ou Mr Motivator foram alguns das músicas retroescavadoras que ajudaram a destapar os tabus sociais, com ferocidade punk. E Mother é uma queixa laboral sem papas na língua e sem diplomacias, sobre a exploração da mulher trabalhadora.

A máquina trituradora dos Idles só sossega na falsa balada The Beachland Ballroom, com Mark Bowen nos teclados e uma tempestade sonora prestes a eclodir. Essa tempestade é Never Fight A Man With A Perm, com a guitarra bem amplificada de Mark Bowen e até um pouco gótica e um sorriso malandro de Joe Talbot que, após uma pausa contemplativa, diz então as palavras: "f#ck the king".

 

Antes, tinha subido ao palco principal outra instituição indie-rock de devastação (no melhor sentido da palavra): os Linda Martini. Levam até mais anos disto do que os Idles, vinte, um número redondo que André Henriques decidiu lembrar, brincando até com “a ideia mais estúpida que é juntar quatro ou cinco pessoas” num mesmo espaço, para tentarem criar juntas novas canções. Em menos de uma hora, os resistentes Linda Martini mostraram nesta última atuação do Alive que a passagem de tempo tem significado crescimento (e mudança) e nunca envelhecimento. Há reposicionamentos em palco (André Henriques atua agora mais encostado à direita do ângulo de quem vê os Linda Martini), a substituição do guitarrista Pedro Geraldes por Rui Carvalho (mais conhecido pelo seu alter-ego de Filho da Mãe na vertente da guitarra clássica folk), mas a solidez da banda é cada vez mais flagrante. A sonoridade está menos ríspida, mas numa ilusória brandura, porque a ira continua a ser uma peça fundamental na orgânica do quarteto da Grande Lisboa. Basta lembrarmo-nos de alguns temas do mais recente álbum ERRÔR, como foi o caso nesta tarde de Super Fixe, com o guitarrista André Henriques na pele de cantor-ator, a recriar um diálogo enlouquecido e não assim tão trivial, com sombra apocalíptica, em Super Fixe, num dos vários momentos altos da sua atuação. O baterista sempre comunicativo Hélio Morais reparou na legião de fãs da banda, com o agradecimento por terem vindo mais cedo só para os ver. Repetentes no Alive às horas de sol, a banda do Horário de Verão já merece mais do contar até três a ter que espreitar o sol. em Algés Estará concluída a contagem de atuações diurnas?