Alive: Wolf Alice num filme agora pop
Antes, os Skunk Anansie imprimiram uma energia fervilhante, também no Palco NOS.
Os Wolf Alice mostraram as suas grandes valias no palco maior do Alive, mesmo que as suas qualidades não sejam óbvias para quem não os conheça. É preciso indagar e absorver bem as suas canções para se perceber que os Wolf Alice não são uma banda banal.
A banda indie-rock londrina teve ainda os obstáculos do vento e de um público que só estava à espera da banda seguinte, os Foo Fighters. Os fãs de Wolf Alice estavam dispersos pela multidão como ilhéus no meio de um oceano de gente mais passivo.
Típico do atrevimento das bandas que têm significado, os Wolf Alice nunca gostaram de se instalar numa zona de conforto. Neste último álbum, “The Clearing”, o quarteto inglês operou uma mudança radical no seu som, numa ruptura que foi visível neste concerto de praticamente uma hora no Palco NOS. A vocalista Ellie Rowsell, agora de cabelos escuros, transformou-se numa espécie de estrela pop, que usa uma escadaria do palco e se coloca, por vezes, num patamar mais alto. Está mais performer do que música e o tema de abertura 'Bloom Baby Bloom', confirma essa mudança dos Wolf Alice.
O quarteto Wolf Alice tem tido há vários anos o reforço de um teclista, Ryan Malcolm, que, mesmo numa posição de palco mais reservada, confere substância musical às canções, oferecendo muitas vezes a sua voz aos coros.
Os Wolf Alice vivem agora num filme pop (citando a música dos Ban, ‘Num Filme Sempre Pop’), evidente em várias músicas. ‘Just Two Girls’ lembra ao de leve os tempos áureos de Carly Simon. ‘How Can I Make It OK?’ é um rock mais suave, com sopros muitos subtis de soul. Aliás, tudo é subtil neste tema. ‘The Sofa’, apresentado por Ellie Rowsell como um tema sobre contradições, é deliberadamente pop. Em ‘Bread Butter Tea Sugar’, Ellie Rowsell parece uma estrela glamourosa de Hollywood, no topo da escadaria, cantando e olhando de lado, com o grande foco de luz sobre ela. Só lhe faltava um par de luvas longas, ao estilo de Marilyn Monroe.
'White Horses' é um dos temas mais singulares dos Wolf Alice, talvez por ser cantado pelo baterista Joel Amey, com Ellie Rowsell nos coros com flutuações vocais ao estilo Sinead O’ Connor mas jamais sem a sua projeção. Mas apesar da figura frágil e franzina, Ellie Roswell tem uma imensa força dentro dela que rebenta, quando o rock da banda se torna mais aguerrido. Um dos exemplos é ‘Lisbon’, cujo nome merece uma referência pela cantora, que mais tarde lembra que passou “tempos ótimos” na capital portuguesa, e nem sequer poupou nos elogios aos pastéis de nata. A adrenalina rock de ‘Lisbon’ leva o guitarrista Joff Oddie a soltar a correia da guitarra, enquanto Ellie começa a deslizar os dedos pela guitarra na vertical, numa imagem que bem lhe conhecemos. Mas é em ‘Yuk Foo’ que se sente mais a essência endiabrada da cantora, que pega num megafone e com ímpeto punk canta “I wanna fuck all the people I meet, fuck all my friends and all the people in the street”, percorrendo o palco de uma ponta à outra, cheia de ferocidade, apesar do ar comedido que tem sempre.
Já próximo do final, ‘The Last Man on Earth’ torna-se num dos momentos mais tocantes, numa canção mais introspectiva, com Ellie a cantar sentada na escadaria de forma mais sentida. ‘Don't Delete the Kisses’ é o fecho incontornável, o tema rock que os Wolf Alice nunca poderão riscar dos seus alinhamentos.
O concerto anterior no Palco NOS foi por conta dos Skunk Anansie, que imprimiram uma energia tremenda. A vocalista Skin tem uma energia tão boa que torna o concerto especial, dando-se imenso. Tira selfies, pega nas baquetas como segundo baterista e percorre muitas vezes o corredor central do público. Mostra bem a dentição e abre os olhos - e os fotógrafos agradecem.
Skin não foi só cantora ou uma mulher simpática (atributos que tem e que nos brindou), mas também ativista, de que veste a camisola - uma t-shirt anti-nazi. Abre o concerto com ‘This Means War’. E uns bons minutos depois, a cantora faz um longo discurso político, em que critica o novo cristianismo radical que grassa nos Estados Unidos: “a religião deve ser amor, não guerra”, alertando ainda para a violação dos direitos das mulheres e da comunidade queer. O discurso foi mais do que uma mera deixa para lançar ‘God Loves Only You’.
Não faltaram clássicos brit-rock dos anos 90 que os projetaram como a bojarda de ‘Charlie Big Potato’, com os icónicos e pesadões riffs de guitarra elétrica, ou de forma seguida, ‘Hedonism (Just Because You Feel Good)’ e ‘Weak’. Skin mostra-se uma fera vocal, esticando a voz como quer, ora meiga, ora agreste, e a interpretação ‘Because of You’ é um exemplo dessa metamorfose. O concerto dura menos de uma hora. Talvez a atuação dos Skunk Anansie pedisse mais tempo.
O concerto de arranque do Palco NOS foi assinado pelas manas mexicanas The Warning, de Monterrey. Não são o Monterey Pop [o mítico festival de 1967], mas sim o Monterrey Punk Pop. Há também inclinações metaleiras, com muitos fãs a fazerem o gesto do cornudo. A guitarra elétrica de Dany está afinada nos power chords, como comprovam temas como ‘Ritual’.
As três manas mexicanas Villarreal Vélez não vinham de uniforme mas quase, com camisolas de alças claras e calças de ganga, tudo no mesmo estilo. Dany tem o apoio nos coros da baterista Pau, que usa um microfone de lapela. Cantam temas em castelhano e tocam temas do novo álbum, “Everything’s Falling”. O modo ruidoso é simplista, “meia bola e força”, como às vezes se diz.
