Amaro Freitas: "a música conecta-nos com aquilo que é mais precioso, a nossa humanidade"
Entrevista ao músico brasileiro que atua a 6 de julho no Matosinhos em Jazz.
Amaro Freitas regressa a Portugal - agora em formato trio - a 6 de julho para atuar no Matosinhos em Jazz - festival que decorre ao longo do mês de julho no Coreto do Jardim Basílio Teles, em Matosinhos. A entrada é gratuita.
O pianista brasileiro, que soma quatro álbuns na discografia, tem recolhido elogios rasgados da crítica especializada brasileira mas também dos peritos internacionais - desde o britânico "The Guardian" ao norte-americano "The New York Times".
O percurso discográfico do músico, oriundo do estado de Pernambuco, começou em 2016, com o álbum "Sangue Negro", continuando com "Rasif" (2018) e "Sankofa" (2021).
Em 2024, Amaro Freitas presta tributo à floresta amazónica e aos rios brasileiros com o álbum "Y,Y" - uma "temática recorrente na sua obra que se inspira nas idiossincrasias do país onde nasceu para redimensionar a sua arte, acreditando na sofisticação de conceitos mais populares", diz o comunicado de imprensa.
Também no ano passado, o músico foi reconhecido como "Instrumentista do Ano", nos Prémios Multishow, e esteve nomeado para um Grammy Latino com 'Esperança', canção que o juntou ao português Dino D'Santiago e ao também brasileiro Criolo.
Começo com um pulo ao passado. Quero saber como é que a música surgiu na tua vida e como é que foste fazendo o teu caminho musical? Sei que nem sempre foi fácil…
Sim. Não foi um caminho fácil. Comecei a tocar na igreja evangélica. Na altura, vivia na periferia da cidade de Recife, no estado de Pernambuco. Antes já tinha feito parte de um coro infantil e nesse coro tive a oportunidade de aprender bastante. Aprendi muito sobre o ato de partilhar música com outras pessoas. Era ruim em matéria de ritmo e não era muito afinado. Mas a experiência no coro infantil ajudou-me bastante. Quando tinha 11 anos entrei na banda do meu pai, além de ter feito parte de outras bandas da igreja. Aos 15 anos, entrei no Conservatório Pernambucano de Música mas tive de sair. O meu pai não tinha condições para pagar os meus estudos. Mas também foi nessa altura que tive o primeiro contacto com o jazz. E essa experiência mudou a minha perspetiva e a minha relação com a música.
Em que sentido?
Eu nunca tinha ouvido música tão liberta, com tantas cores e com tanto estado de presença. Os músicos de jazz precisam de estar muito atentos ao agora quando improvisam. A magia que nos impressiona na música improvisada acontece no momento em que um músico dá atenção ao outro. Lembro-me que isso aconteceu quando vi [em DVD] um concerto do Chick Corea Trio na Blue Note, em Nova Iorque. A música era completamente diferente da música da igreja. (...) Foi o jazz que me impactou. Não tinha computador na época mas pedi a um amigo para fazer uma coletânea em DVD com todos os discos do Chick Corea. Quando chegava da casa ia ouvir as músicas dele. Ouvia-o na formação trio, em duo ou a solo. E esse tipo de música era completamente diferente daquilo que as pessoas do meu bairro ouviam. Lembro-me que quando mostrei o Chick Corea aos outros meninos da igreja eles acharam que, em alguns momentos, até era um pouco chato. Achavam que era aborrecido devido ao constante improviso e ao facto de ser somente instrumental. Olhavam para esse género musical com alguma distância. Como se fosse um lugar que não lhes pertencesse. Mas eu entendia aquela música. Queria ser aquilo. Acendeu em mim um desejo que não existia. Fiquei obcecado.
Parece que a música é uma extensão de quem és. Digo isto pela forma como a exploras, como a encaras, como a fundes e como a música entra e sai de ti. Ajudou-te a encontrar o teu lugar, a tua identidade mais profunda?
Acredito que sim. Por exemplo, antes era evangélico, atualmente já não sou. Mas também não pratico nenhuma religião de matriz afro, como o Candomblé. Já fui, já conheci. É natural que um homem brasileiro e negro carregue influências da cultura afro, mas a verdade é que esse mesmo homem não as estuda na escola. Essa parte da História está um pouco apagada. A música levou-me para um lugar onde me sinto completo. A música completa-me. Acredito que a minha religião é a música. É com a música que me conecto com as pessoas. O momento do meu ritual é quando subo a um palco. Sinto que nesse momento se abre um portal. É uma busca incessante por novas ideias, por criatividade. Uma busca por compor música. É passar horas e horas ao piano para tentar chegar a um tipo de conexão que passe para o meu corpo, para as minhas mãos. É uma conexão que funciona como se fosse uma coisa só.
Quando toco na Alemanha, em Portugal, na Austrália ou nos Estados Unidos, por exemplo, sei que as pessoas têm culturas diferentes, vivem em climas diferentes ou em situações políticas diferentes. Mas no fim dos concertos agradecem-me pela música. Abraçam-me. Algumas pessoas choram, outras dizem que me amam. Que outra profissão cria uma relação tão imediatamente próxima? Se calhar, num escritório demora muito mais tempo ou talvez nunca aconteça. A música consegue quebrar os gargalos sociais que construímos. Conecta-nos com o que é mais precioso, a nossa humanidade.
O disco "Y,Y" fala sobre as lendas do norte do Brasil. Fala do Mapinguari, da Uiara, do Boto-cor-de-rosa ou do Cazumbá. E estas lendas aparecem quando a população precisa. O Boto-cor-de-rosa, por exemplo, salva pessoas que se estão a afogar no rio. No Maranhão, há pessoas que praticam uma religião em que [num dos rituais] se transformam em "brinquedos de encantamento". É um momento em que as pessoas podem ser possuídas por determinadas entidades. E, nessas alturas, transmitem mensagens aos outros. Podem trazer cura, boa energia. Acho que isso acontece quando fazemos música através da espiritualidade, da conexão com a humanidade. Quando faço música talvez não seja o Amaro. Talvez seja apenas um ser que está ao serviço da música. Posso melhorar o dia de alguém que vá assistir a um espetáculo meu. A música pode curar, pode conectar-nos e ajuda a quebrar barreiras. Acredito muito nisso.
Falas de uma espécie de transcendência, ainda que terrena, que muitos não valorizam dessa forma. Falas de uma transcendência através da conexão num mundo que parece estar cada vez mais desconectado...
É muito parecido a conexão que perdemos com a natureza. A gente não respeita uma árvore, não respeita o rio. Atiramos lixo para os rios, podamos e cortamos as árvores. Não respeitamos uma montanha. Não temos respeito pelo planeta. Uma das coisas mais bonitas que aprendi com as comunidades indígenas foi a relação que essas comunidades têm com a natureza. Para um indígena, um rio é como se fosse um elemento da família. O rio é um primo, a árvore é uma tia. Eles conversam com a floresta e com os animais. Há uma conexão muito forte com a natureza. Há um grande conhecimento [sobre a natureza] que é transmitido, oralmente, de geração em geração. Eles conseguem fazer previsões meteorológicas apenas com a conexão que têm com a natureza. E nós perdemos isso. Encaixotámo-nos. Transformámo-nos em seres individuais. Ficámos acostumados a comprar as coisas no supermercado, a andar de carro ou de avião. Criámos uma bolha e inventámos um mundo novo.
Que experiências é que te marcaram quando estiveste no meio dessas comunidades e depois como é que "transferiste" essas experiências para o teu álbum?
Com a comunidade Sateré-Mawé foi muito interessante. Dentro dessa comunidade há professores universitários que consciencializam os alunos [para a forma de viver dessa tribo]. Todos os dias levam alunos para as aldeias. Os alunos visitam as aldeias indígenas para ouvirem o pajé [o curandeiro] e para terem consciência daquele território. Quando estive lá participei numa ciranda e posso dizer que ali todas as pessoas eram iguais. Todo o mundo bebeu guaraná, em estado puro, por uma cabaça. E depois comemos formigas com farinha. Formigas essas que bebiam limão. Quando eram fritas pareciam farofa cítrica. Eram maravilhosas. Também comemos carne de jacaré, costela de tambaqui.
O Eron, que é um dos professores da universidade, levou-me a várias aldeias. E quando as visitei percebi que também existe um certo caos. Muita sujeira, muito lixo. Isso acontece porque o narcotráfico invadiu essas comunidades. Eles prometem protegê-las e oferecem um tipo de assistência que o governo não lhes dá. Isso faz com que se consigam imiscuir nessas comunidades como se fossem indígenas. E essa situação dificulta o trabalho da polícia na limpeza do narcotráfico.
Mas também vi a beleza do encontro do Rio Solimões com o Rio Negro. São dois rios gigantes, com duas cores diferentes. Encontram-se mas não se misturam. Vi as casas flutuantes que os indígenas constroem sobre o rio, vi um menino a brincar com uma jiboia, ouvi várias histórias, vi grupos de crianças indígenas a cantar. Foi muito intenso. Também assisti à dança da tucandeira, que é o ritual da passagem de menino para homem. (...) É outro modelo de vida. Sem dúvida. Existem mais de 300 comunidades indígenas. Cada uma com a sua língua, os seus costumes, os seus rituais. Mas todas têm uma grande ancestralidade de conhecimento. (...) É um mundo desconectado da correria, do movimento e da urgência dos nossos dias. Do sair, ter de produzir, ter de fazer e regressar. É outra realidade.
Tens o privilégio de, com a tua música, espalhar esse conhecimento pelos mundos mais acelerados...
Sinto-me muito honrado por poder tocar em festivais incríveis no Japão, na Europa e até no Brasil. É uma honra poder falar sobre a Amazónia e sobre a urgência que temos de ter para protegê-la. É urgente tomar decisões que protejam a floresta e os rios. A Amazónia é importante para o Brasil mas também é importante para o mundo.
Faço questão de transmitir essa mensagem no Brasil porque a gente não conhece a Amazónia. O nordeste, o sul e o sudeste do Brasil não conhecem este território. Muitos brasileiros com condições financeiras para viajar preferem visitar os Estados Unidos, a Disney ou a Europa. Não têm interesse em conhecer. Não despertámos o hábito nem a vontade de conhecer a nossa própria história. (...)
E há o interesse de desmatar a Amazónia para dar expansão ao agronegócio de uma forma irresponsável. Essas pessoas estão a destruir a floresta, que é a responsável por fazer chover nas suas cidades. Isso, para mim, é algo muito louco. A gente chegou a uma fase do capitalismo em que o dinheiro fala mais alto do que a própria vida. Em vez de pensarmos no bem comum - com pessoas e receber chuva e sol de forma equilibrada - criamos uma caixa para morar. Destruímos o território só porque precisamos de ter mais, de mais poder, de mais dinheiro. É muito bizarro. É por isso que, antes de levar essa consciência para o mundo, falo mesmo aqui no Brasil. Precisamos de ser responsáveis pela nossa floresta, pelo nosso país. Esse é o nosso planeta.
E agora vais voltar a Portugal, para um concerto no Matosinhos em Jazz. O que é que nos podes revelar sobre o espetáculo?
O concerto vai ser feito em trio. Comecei a digressão do "Y,Y" a solo mas agora estou em formato trio. É a primeira vez que vou com o meu trio a Portugal. Quando atuei no Centro Cultural de Belém foi a solo, no piano. O momento do tributo a Amazónia ganhou por isso outras cores e outros sabores com a bateria e com o baixo. Leva-nos para outros lugares. Para lugares que adoro. Estou muito empolgado com o espetáculo em trio. Também vou tocar músicas que passam pelo resto da minha obra autoral. Vai ter música do "Sangue Negro", do "Rasif" e do "Sankofa", mas a maioria do reportório é do disco atual.
Será certamente uma viagem ao que tens dentro de ti, mas também a todas as histórias que absorveste com as tuas experiências...
Quando estou em digressão estou sempre a compor. Estou sempre a mudar o meu reportório. Isso aconteceu, há bem tempo, quando atuei no Nattjazz, na Noruega. Abri o concerto com uma música que tinha composto no avião. Queria partilhá-la "com os meus amigos". Queria que a ouvissem pela primeira vez. Pode ser que isso volte a acontecer. O que me alimenta é a música. Quero viver da música. Quero ter condições para pagar as minhas contas, ter a minha casa e quero ter o meu piano para poder dedicar a minha vida à música. Sou muito viciado em música. A música acalma-me no avião. Adormeço a ouvir música, cozinho a ouvir música. Quando estou conectado à música no sentido da criação, parece que o dia passa muito rápido. Estou muito empolgado por atuar no Matosinhos em Jazz. É um festival muito importante. Ainda por cima estou numa fase de muita constância. Só este ano já fiz cerca de 50 espetáculos. Estou num bom ritmo. (...) Acho que vai ser incrível. Ainda por cima vai ser num coreto. Tenho a sensação que vai ser incrível.
Além de Amaro Freitas, atuam no Matosinhos em Jazz os seguintes nomes: Mansur Brown, corto.alto, CHERISE, Allysha Joy, JulLana Gasparøtti, Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música com Gileno Santana e a Orquestra Jazz de Matosinhos com Nick Marchione.
Programação do Matosinhos em Jazz:
