Ana Moura no MEO Kalorama: "casa é onde está o coração"

Uma casa arejada mas sobreaquecida pela voz, pela dança, pelo sorriso e pelos amores da cantora portuguesa.

Ana Moura subiu esta tarde ao palco MEO do Kalorama e transformou as colinas do Parque da Bela Vista na casa de ritmos que traz no coração. Ritmos quentes, em alguns momentos a escaldar, que cruza com o seu estimado fado. E outros mais íntimos.

A cantora dança ao ritmo das memórias, da saudade, da alegria e do amor. É uma casa com vista para a liberdade, para o arrojo e hoje para uma multidão de gente que foi crescendo à medida que o sol ia caindo no parque lisboeta. 

E é, claro, uma casa com vista para o futuro, já que também hoje foi dia de estrear Desliza, o single que vai lançar em setembro. 

Lá veio ela, Ana Moura, segura e focada, para o centro do palco onde já estava o corpo de bailarinos que a foram acompanhando ao longo do espetáculo. 

Lá Vai Ela - o primeiro single que editou depois do disco Casa Guilhermina (2022) - foi a primeira que ofereceu ao público para logo depois se agarrar ao álbum com o qual se estreou como letrista e que diz ter criado em plena (e saudável) liberdade criativa. "Sem amarras" e com "uma visão fresca", como disse quando o apresentou na altura.

Com o sorriso aberto e ginga na anca, entrega a voz a Andorinhas. Ana Moura, ainda entre os bailarinos, pede palmas, dança e refina os gestos. Calunga e Jacarandá seguem-se no alinhamento. Depois, uma breve pausa para conversar com o público. 
  
"Bem-vindos à Casa Guilhermina", disse, sorridente e debaixo de aplausos. "Estamos muito felizes por estarmos aqui. Bem-vindos a esta casa que tem o nome de Guilhermina em jeito de homenagem a uma das pessoas mais importantes da minha vida", contou, referindo-se à avó Guilhermina. "Uma salva de palmas para as avós", pediu. E, claro, todos aplaudiram.

"Esta é a casa com todas as divisões que a compõem, que me compõem, e é a homenagem a essa mulher que me ensinou a ser a mulher forte e sensível que sou hoje. Este concerto vai passar por todas as divisões desta casa. Vai passar por lugares mais íntimos e por outros mais festivos. Sintam-se parte dela e dancem muito". E quem estava aos pés de Ana Moura dançou e cantou na espaçosa sala de estar, ao ar livre, seguindo o ritmo da liberdade que se dançava no palco. E isto ao som de Desfado - uma visita ao passado - que mereceu um aplauso demorado.

Ana Moura agradece aos que convidou para a sua sala de estar, faz o sinal de coração com as mãos e contempla o público com um sorriso tímido, mas com os olhos cheios de brilho. Entregou depois a voz e os movimentos quentes do corpo a uma versão de Te Amo, dos manos Calema, mostrando logo a seguir a novidade: o tal single Deliza que antecipa o que a cantora tem para nos oferecer numa divisão do futuro.    

Mudança de roupa e regresso ao palco. Chegou vestida de branco. Continuou luminosa. Arraial Triste, também da sua Casa Guilhermina, veio antes do fado Loucura (Sou do Fado). Uma homenagem ao fado tradicional e à poesia que tão belamente o sustenta. E quando o cantou silenciou o Parque da Bela Vista. 

"Mas bendita esta loucura de cantar e sofrer/Chorai, chorai/Poetas do meu país/ Troncos da mesma raiz/Da vida que nos juntou/E se vocês não estivessem a meu lado/Então não havia fado nem fadistas como eu sou", foi a poesia que saiu da voz fadista de Ana Moura. Um "bravo!" soltou-se da voz de alguém do público. De mão colada ao peito, agradece, grata, a ovação. "Obrigado por estarem desse lado", disse.   

Agarra em Mim levou Pedro Mafama, o companheiro de vida da cantora, para o palco. Nesta divisão, o amor. No final, dos dois aconchegaram-se, de olhos nos olhos. Suspensos no tempo. Juntos no palco, na cumplicidade, no afeto, na história que partilham e na chama que os une. E um beijo terno e apaixonado para selar o momento. 

"Estamos a chegar ao fim. A próxima música é uma peça central deste disco. É dedicada a outra mulher, outra das mulheres mais importantes da minha vida. É para a minha prima Cláudia", disse ao público, explicando que Cláudia já não está entre nós.

"Estávamos sempre juntas, desde pequenas. Eu era mais tímida e quando tínhamos 16 anos fomos ao karaoke. Eu não queria cantar, mas ela insistiu e acabou por me inscrever para cantar uma canção. E quando terminei fui aplaudida", contou Ana Moura. "E depois escrevi-lhe num papelinho: 'quando for famosa vou escrever uma música para ti. Uma música com toda a alegria que tens'". Foi então que escutámos Mázia. Ana Moura cantou-a com alegria e saudade e terminou-a de olhos fechados. 

O final foi com a dança à solta no palco e no recinto. Ana Moura saudou os vários pontos do espaço que ao longo do concerto foi a sua casa. A sua e de todos os que se acomodaram em cada uma das divisões. "Obrigada, Kalorama", gritou. Vénia coletiva na despedida. 

Antes, no mesmo palco, Cláudia Pascoal! Cenário preparado, ao pormenor, para receber a carismática e exclamativa cantora de Gondomar. Algumas plantas, fitas tradicionais dos arraiais portugueses, um rádio antigo e dois ou três típicos cães de loiça decoravam o espaço que, ao longo de todo o concerto, foi chão para a garra desta mulher portuguesa, com toda a certeza.      

Confiante, bem-humorada e sem papas na língua, o que levou ao Parque da Bela Vista foi mais do que um concerto. Foi também um espetáculo de entretenimento, que, em alguns momentos, chegou a arrancar gargalhadas do público. 
O alinhamento girou à volta dos dois álbuns que assina: ! e !!. O festivo e muito português Três é Demais, do disco mais recente, chamou Mike El Nite para o palco. Para a ajudar em Precaução, "chamou" por Manuela Azevedo, dos Clã, que, não podendo estar no palco do Kalorama, "entrou ao telefone" para o dueto.

Além de mostrar as suas canções, Cláudia Pascoal meteu o parque lisboeta a dançar rancho folclórico ou a cantar música tradicional portuguesa, como Oliveirinha da Serra, por exemplo. Houve ainda versões, como O Pastor, dos Madredeus, com uma breve passagem por Pedra Filosofal, um poema de António Gedeão que ficou celebrizado pela voz de Manuel Freire.
 
"Quero agradecer-vos por estarem aqui às seis da tarde e com tanto calor para me verem", disse a quem se juntou à volta do palco. A garra de Nasci Maria, com a qual participou no Festival da Canção de 2023, ficou para o final da festa.