André Guiomar regressa aos cinemas com "Ku Handza", um retrato da resistência quotidiana em Moçambique
A nova longa-metragem documental de André Guiomar estreia nas salas portuguesas, levando ao grande ecrã histórias de sobrevivência, trabalho e dignidade no Moçambique contemporâneo.
André Guiomar regressa aos cinemas com Ku Handza, documentário que estreou nas salas portuguesas a 25 de junho, data que coincide simbolicamente com o Dia da Independência de Moçambique. O filme acompanha três histórias de vida distintas que, juntas, desenham um retrato humano e social do país africano.
Benjamin Vilanculo tenta juntar dinheiro para celebrar o aniversário do filho. Eulália da Silva regressa ao trabalho num aterro sanitário poucos dias depois de dar à luz o seu sexto filho. Filimone Muchongo divide a vida entre a família e sucessivas missões militares no norte do país. São percursos que nunca se cruzam, mas que revelam uma realidade comum: a necessidade permanente de encontrar formas de sobreviver.
O título do filme nasce de uma expressão popular moçambicana. «Ku Handza é uma expressão ouvida na rua, diariamente», explica André Guiomar. «Tem a ver com o esgravatar à procura de comida que a galinha faz e que o moçambicano muito bem adaptou para o seu dia-a-dia.»
Essa metáfora serve de fio condutor a um documentário que procura olhar para além das estatísticas e das grandes narrativas políticas. «São coisas muito íntimas, muito do foro privado e familiar, mas todas influenciadas por algo maior, por algo externo», afirma o realizador, referindo-se aos efeitos das flutuações económicas, dos conflitos armados e das desigualdades estruturais na vida das personagens.
Com uma ligação a Moçambique construída ao longo de mais de uma década, Guiomar assume que o seu objetivo passa por dar visibilidade a quem raramente ocupa o centro do discurso mediático. «Tento sempre, com os filmes que faço, humanizar ao máximo as personagens que me permitem filmar», sublinha. «Porque acho que só assim é que se consegue tomar decisões maiores, políticas que sejam.»
O realizador descreve ainda o documentário como um olhar para «um país quase invisível», marcado por desafios sociais e económicos profundos, mas também por uma extraordinária capacidade de resistência. «Humanizar aquelas histórias é torná-los uma espécie de super-heróis dentro da sua vida, porque nós decidimos pôr uma lupa em alguém que não tem voz», afirma.
Produzido pela Real Ficção, em coprodução com a Olhar de Ulisses, Ku Handza prolonga o percurso de um cineasta que tem dedicado grande parte da sua obra às comunidades invisibilizadas e às consequências humanas das desigualdades sociais. Depois de A Nossa Terra, o Nosso Altar, centrado no Bairro do Aleixo, no Porto, André Guiomar desloca agora a sua atenção para Moçambique, construindo um filme onde a dignidade resiste mesmo nos contextos mais adversos.
No final, o documentário deixa uma imagem que resume a sua essência. Apesar da dureza das circunstâncias retratadas, Guiomar recorda que há sempre espaço para a esperança. Como refere o realizador, o filme mostra que é possível «celebrar o nascimento de uma vida, com uma dança no meio duma lixeira» um momento que, diz, «nenhum argumentista poderia ter escrito».
