Arranca o Cool Jazz, Benjamin Clementine é a estrela da primeira noite

Entrevista à promotora Karla Campos, mentora do festival com mais de 20 anos.

O festival Ageas Cool Jazz volta a assentar arraiais no Parque Marechal Carmona, na vila de Cascais, com epicentro no Hipódromo Manuel Possolo. Mantém-se a planta do recinto e a sua filosofia cool, só mudam os artistas. Nesta sexta-feira, o nome forte é uma novidade há muito desejada por Karla Campos, a líder da promotora responsável do evento Live Experience, Benjamin Clementine. O pianista inglês sobe ao palco maior às 22h30 (Palco Ageas), antecedido pela cantora portuguesa Rita Vian, que atua a partir das 21h15. 

Em entrevista, Karla Campos fala de alguns dos artistas que vai trazer ao Ageas Cool Jazz e de um sonho antigo ainda por concretizar que tem a fragância do Cool Jazz. 

4 de julho: Benjamin Clementine
"Ele tem um álbum novo, vai impressionar bastante pela sua forma em palco. Isto tem a ver com o seu álbum novo e com a vontade de querer apresentar e fazer sentir a música dele de forma diferente, pelo cenário muito imaculado que ele vai apresentar neste concerto. É uma sonoridade completamente diferente, não é a do Seal, por este lado muito teatral, muito intimista. Com o piano, acaba por fazer sentido estar num festival como o Ageas Cool Jazz. Tem aqui uma sonoridade que no fundo não é só jazz, não é só soul, é Benjamin Clementine. É uma sonoridade muito própria dele, mas que se mistura com várias sonoridades e por isso faz todo sentido estar no cartaz do festival. Já há alguns anos que andava a tentar que ele fizesse parte do cartaz".

Karla Campos

12 de julho: Seal
"O Seal é uma pessoa muito especial. Ao longo dos anos, veio várias vezes ao Cool Jazz. É um artista muito especial que se entrega muito durante o concerto, gosta de descer de palco e vir ao chão, ter com as pessoas, cantar, dançar e estar com com elas. Isto é um live show, é isto que as pessoas gostam. Por isso é que depois os artistas, como ele, acabam por ter tanta gente a querer vê-lo. Ele realmente tem músicas que as pessoas conhecem, cantam com ele, dançam com ele desde as mais mexidas, animadas, aos slows apaixonantes, para ter também um dia bom para namorar, porque é muito envolvente, muito querido e com certeza que vai outra vez fazer esse tipo de concerto em que vem ter com as pessoas cá abaixo à plateia, dançar, envolver-se, abraçar e as pessoas adoram e cantam com ele e saem dali com uma memória incrível de uma boa experiência passada. É isto que é a minha empresa, que se chama Live Experiences, creating new emotions… Esse objetivo também é criar memórias que ficam na cabeça para o resto da vida daquele momento que esteve ali naquele concerto. E o Seal consegue isto". 

Karla Campos

15 de julho: Ezra Collective/Jordan Rakei
"É uma noite de um double bill, são dois artistas, dois grupos de artistas fortes no sentido da sua proposta, do seu estilo e do público a que se dirige. A combinação destes dois, claro que o Jordan é um bocado mais soul, os Ezra são completamente um jazz contemporâneo, um jazz de South London. Eu andava a tentar trazê-los e agora já estão grandes, já ganharam o Mercury Prize e já têm bastante reconhecimento. Nesta linha do jazz contemporâneo, eu tenho trazido várias vezes ao festival [nomes como] os BadBadNotGood ou os Snacky Puppy. Este estilo está quase a chegar a um nível de mainstream, porque eles depois fazem aqui uma fusão com hip-hop, com r&b. Portanto, isto acaba por cativar e atrair aqui outras tribos, não é? E o jazz contemporâneo não pode ser mais visto como aquela pessoa de cabelos brancos que ouve jazz. Não. O jazz contemporâneo e o jazz hoje em dia são bastante ouvidos e apreciados pelas gerações muito mais novas. Graças a Deus que temos as gerações mais novas a gostarem e a fundir as suas prioridades com o jazz. E aqui está a prova disso, nesta noite do dia 15, com Ezra Collective e Jordan Rakei".

Karla Campos

17 de julho: Gilsons/Jota Pê
"É a noite brasileira, que é também sempre uma noite muito importante para mim, como brasileira que sou, e que é sempre uma noite que eu aposto bastante. Desde o ano passado tenho apostado na nova geração da música brasileira. No ano passado tive a Marina Sena e a Luedji Luna, e este ano apostei nos Gilsons e no Jota Pê.  Estou a contar que haja uma surpresa destes dois, porque têm uma música em comum. Vamos ver se acontece uma versão ao vivo".

23 de julho: Slow J
"Já conheço o João [Coelho] há muito tempo, admiro bastante o trabalho dele desde o início, mas este último álbum é inacreditável. Ele fez mesmo um reset ao coração e à cabeça dele, porque as letras transmitem isso de tal forma que atingiu uma dimensão gigante em Portugal. Eu estive a assistir àqueles dois concertos enormes na MEO Arena [em Lisboa] e significa que há muita gente que gosta dele e que ficou de fora. Eu acho que este é um festival da nova geração, é um festival dos talentos, é também um festival do emergente e da música portuguesa. A sonoridade dele sempre me atraiu bastante. E este álbum, o “Afrofado”, aquela fusão de sonoridades que ali também está contida, desde a guitarra portuguesa aos beats de kizomba e de hip-hop, esta mistura… até me estou a arrepiar a dizer isto. E por isso, esta fusão de sonoridades, esta portugalidade misturada com todo o nosso lado afro que temos. Temos toda uma comunidade e uma história secular na nossa vida portuguesa. Eu sou também de certa forma uma imigrante, eu nasci no Brasil. Claro que vivi aqui a vida toda. E o João também tem uma relação com Angola e com África. Portanto, estas questões todas para mim são muito importantes.  E ver uma pessoa como a João, que cresceu e evoluiu de uma maneira tão positiva". 

Karla Campos

Para quando Sade no Cool Jazz?
"Todos os anos tenho esta conversa com o agente dela, e todos os anos ele diz: “not yet, maybe next year”. Tenho uma excelente relação com a agência dela, mas a Sade é uma artista que optou por não atuar. Recentemente ela lançou um single em homenagem ao filho dela, que é uma pessoa diferente, e ela dedicou-lhe uma música [‘Young Lion’, no álbum de apoio aos transgender, “TRANSA”]. E eu estava na fé de que pudesse vir aí um álbum e depois do álbum vinha um tour, mas não! Ainda não é este ano. Quando ela fez há uns anos atrás [uma digressão], também escolhi apenas dois ou três países, ou duas ou três cidades. E não fez mais nada. Portanto é muito difícil".

Karla Campos