As contradições eleitorais de Trump entre a política interna e externa

Diana Soller, especialita em Relações Internacionais, coloca parte dos desafios que Donald Trump terá para o próximo mandato no encontro de um posicionamento sem incongruências.

Passados cinco anos, Donald Trump toma posse pela segunda vez como presidente dos Estados Unidos. Diana Soller, especialista em Relações Internacionais, considera que as diferenças devem ser sentidas logo no discurso oficial. Ao nível do texto vai ser “muito simples” e “pouco poético”.

Se em 2016, quando subiu ao poder pela primeira vez descreveu uma América “quase em pedaços, sem eira nem beira”: se no último mandato Donald Trump afirmou que “a América precisava ser salva” e que era a figura adequada para “salvar os Estados Unidos”. A questão para Diana Soller está em qual a posição que Donald Trump vai adotar: “se Trump vai resistir à tentação de manter um discurso divisionista ou se vai tentar apelar a uma união dos americanos”.

O que vai Donald Trump mudar na política interna dos Estados Unidos no próximo mandato?
É muito difícil de dizer. O que o manifesto de campanha de Donald Trump nos diz sobre a política interna às vezes contradiz aquilo que é o manifesto de política externa. Mas, no fundo, há duas grandes questões de política interna. 
Por um lado, a economia, que Trump acha que tem tido um crescimento anémico e quer fazer crescer outra vez - a baixa de impostos, está relacionada com esse programa económico. Criar uma alavancagem para que haja cada vez mais empresas americanas sediadas nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que as pessoas com essa baixa de impostos tenham maior poder de compra que perderam durante a inflação. 
O problema é que o dinheiro não nasce do céu, não é? Uma baixa de impostos pode ter alguma consequência nas outras coisas que Donald Trump quer fazer. Nomeadamente na revisão das prioridades do Pentágono, que também vai ser uma questão fundamental da política interna. 
O segundo ponto tem a ver com a fronteira, evidentemente, e com a deportação dos imigrantes ilegais. Parece-me uma empreitada muito intensa. Estamos a falar, suponho eu, à volta de 8 milhões de pessoas que Donald Trump acredita que devem ser deportadas. Isso também requer dinheiro. Não sei exatamente quanto tempo é que ele demora a fazer isso ou com que determinação é que irá neste sentido, embora sejam promessas eleitorais emblemáticas da sua campanha...  E nos Estados Unidos as promessas de campanha são para ser cumpridas são as pessoas que castigam os incumbentes. Portanto vamos ver exatamente o que é que ele consigo fazer com este tipo de agenda...

Considera que as ações iniciais vão passar ao lado dos Incêndios da Califórnia?
Não pode passar completamente ao lado, não é? Os incêndios na Califórnia são uma desgraça nacional, de qualquer ângulo que sejam vistos. Não podem passar ao lado. 
Agora, provavelmente será muito mais acerca da reconstrução da Califórnia e das necessidades daqueles que possam ter ficado para trás com os incêndios. Portanto, não me parece que possa ser completamente ignorado, também não me parece que vai ser particularmente empolado.

Ao nível internacional, vamos ter uma alteração dos Estados Unidos?
Sim, profunda, profunda... É um bocadinho difícil também perceber de que forma é que isso vai funcionar. O que está num nível superior do ponto de vista da mudança, é a reinterpretação da ordem internacional para um lado menos ideológico, mais nacionalista e menos liberal. Isso depois tem, evidentemente, resultados na política externa, nomeadamente nas alianças permanentes.

A grande prioridade de Trump, tal como pelo menos teoricamente a grande prioridade de Biden, era a relação dos Estados Unidos com a China. Há uma segunda prioridade de Trump que tenta, de alguma maneira corrigir a agenda de Joe Biden, que é, no fundo, fazer com que os Estados Unidos deixem de ser vistos como um ator fraco no sistema internacional e tenham mais respeito internacional do que têm tido até aqui.

No entendimento de Trump, estas posições liberais dos Estados Unidos e a forma pouco convincente com que os Estados Unidos ameaçam e são capazes de levar a cabo até ao fim essas ameaças, relativamente aos seus inimigos, os Estados Unidos já não são capazes de impor o respeito internacional que impuseram no passado. Estas são as mudanças de fundo.

É um bocadinho uma desliberalização da política externa norte-americana e um reforço da ideia da força, do uso da força, do medo na política externa dos Estados Unidos. Depois veremos como é que isso resulta.
Há mais uma terceira coisa que eu acho que também de alguma maneira muda, que é esta tentativa que Donald Trump tem feito, já está a fazer aliás, e do meu ponto de vista vai manter-se, de tentar transformar os Estados Unidos numa espécie de mediador de paz, mas um mediador que tem vontade de impor determinada forma de paz aos beligerantes dos conflitos que estão a acontecer.

Como é que a mudança dos Estados Unidos pode influenciar a política internacional?
Pode haver uma série de mudanças, agora só com o tempo é que vamos perceber até que ponto é que vão afetar a forma como o sistema internacional funciona. Há aqui três incógnitas: a forma como os Estados Unidos se posicionam em relação à China, as exigências de paz na guerra da Ucrânia e a relação com a Europa. 

Nós temos uma ideia geral, as mudanças podem ser todas por essa via. Agora que vai mudar, vai... Quer dizer, Joe Biden foi o último cold warrior da presidência norte-americana. Não vai haver mais, por razões de faixa etária e por mudanças na geopolítica.

O mundo mudou. O centro do mundo já não é a Europa. A Rússia independentemente de ter feito guerra à Ucrânia só o pôde fazer porque teve um apoio quase incondicional da China em várias vertentes, nomeadamente permitiu que a Russia não ficasse isolada a nível internacional. A política externa norte-americana tem vindo a mudar paulatinamente e agora vai ter uma mudançazinha mais brusca.

Donald Trump tem uma consciência muito aguda dessas mudanças do mundo... Aliás, foi ele próprio que securitizou a China, que tornou a China, aos olhos dos americanos, a maior ameaça do sistema internacional aos Estados Unidos. Isso muda tudo: muda a importância geopolítica de cada uma das partes do globo, muda ideologicamente a hierarquia das alianças, nomeadamente naquilo que diz respeito à democracia enquanto fator distintivo na criação de alianças por parte dos Estados Unidos. Exemplo é os EUA negociarem com os restantes países da NATO um aumento do PIB de gasto em defesa. Não de 5%, como ele diz agora, porque me parece um exagero, mas para os 3% ou 3,5%, que me parece o mais suportável e os países europeus cumprem. Vai acontecer aquilo que aconteceu no primeiro mandato: a NATO já não é tão ideológica, mas funciona muito bem da perspetiva militar e política.