"Assim vai o Mundo, Cristina": O século XXI em cartoon
Uma exposição de Cristina Sampaio que inaugura esta quinta-feira no Festival Amadora BD.
Cristina Sampaio começou a ler a Mafalda, do autor argentino Quino, quando era criança. É a uma das únicas cartoonistas mulheres no ativo em Portugal. Esta quinta-feira inaugurou a exposição “Assim vai o Mundo, Cristina” na 35.ª Edição do Amadora BD. Foi desafiada a retratar os valores de abril e fez uma homenagem à personagem “que tinha uma visão algo pessimista sobre o mundo”.
Como surge a ideia de ligar a Mafalda à exposição?
Na realidade eu fiz primeiro uma seleção de animações e desenhos, que são duzentos e poucos. Só posteriormente é que eu pensei nessa ligação à Mafalda porque tendo aquele corpo de trabalhos, que é um retrato do mundo nos últimos 24 anos, e eu ao olhar para os trabalhos pensei que pouca coisa tinha evoluído ou mudado. Até há muitos aspectos que regrediram desde o tempo em que eu lia a Mafalda e que havia um dos livros, porque era publicado em fascículos, que se chamava “Assim Vai o Mundo, Mafalda”.
Portanto, a ligação à Mafalda vem daí, não é? Ela observa o mundo, critica o mundo e eu identificava-me muito com ela e continuo a identificar-me com essa perspectiva de comentar a atualidade e o que se passa no mundo.
No mundo de hoje, a Cristina encontra mais coisas ou menos do que a Mafalda para criticar?
Ora bem, digamos que os problemas concretos são diferentes, mas se pensarmos, por exemplo, no que se passa em Gaza e em Israel, isso já vem muito antes da Mafalda.
Claro que nós hoje em dia estamos confrontados com coisas que não existiam no tempo dela. Como o papel das redes sociais, que em tempos tivemos esperança que fosse positivo, mas que neste momento se está a revelar bastante negativo na propagação de notícias falsas e no apoio, se pensamos nos Estados Unidos. É um bocado aterrorizador o papel que os algoritmos manipulados podem e, eventualmente, a inteligência artificial podem vir a ter. E há coisas que são bem mais preocupantes, como as questões ambientais e o aquecimento global. Eu julgo que a Mafalda não se debatia com o problema da sobrevivência da humanidade, que está muito premente hoje em dia.
Os problemas que a Mafalda já enfrentava e mais?
Sim... E digamos que a Mafalda tinha uma visão algo pessimista. É isso que eu também lhe achava imensa graça. Eu sofro um bocadinho também dessa visão pessimista da humanidade, do mundo. Tenho muito pouca fé na humanidade.
Há influência da Mafalda nos seus cartoons?
Eu sou uma leitora da Mafalda desde os meus 10 anos... E até os livros de humor do Quino, que não têm ligação com a Mafalda e são cartoons independentes, têm uma característica e um género de humor bastante negro com o qual eu me identifico. A nível estilístico, sim. O Quino é uma das minhas influências, entre outras.
É fácil criticar o mundo com a banda desenhada?
Bom, eu não faço banda desenhada, eu faço cartoon, que é um bocadinho diferente. Mas sou uma leitora de banda desenhada e quando me diz fácil, eu acho que depende da qualidade dos autores.
Há muitas bandas desenhadas hoje em dia que versam as problemáticas da atualidade. O cartoon, o desenho do humor, esse tem necessariamente que ser um desenho de crítica e de reflexão sobre a atualidade senão não compõe o seu papel.
Haver poucas mulheres cartoonistas é um desafio?
Houve uma altura em que eu dizia também há poucas mulheres advogadas, já não é o caso. Há poucas mulheres na política, estão francamente em minoria, não é? Se olharmos para a nossa Assembleia da República, por exemplo, já foi melhor. E para o governo também.
De facto, ao nível do cartoon, e eu vou muito a festivais internacionais de cartoon e as mulheres, estão, de facto, em minoria no desenho satírico. Por exemplo, a França, que é um país que tem uma grande quantidade de cartoonistas, as mulheres também se contam pelos dedos da mão.
Eu não tenho uma explicação muito fundamentada para isso. Por falta de apetência? Eu era adolescente no 25 de Abril houve um grande investimento da minha parte nessa atmosfera. A revolucionária já vinha de trás, lá está, porque quando eu lia a Mafalda ou o Abel Manta, que é um mestre que eu venero, esse componente de crítica da sociedade estava sempre presente. Portanto, agora, digamos que é uma herança que eu tenho daquele período e nessa altura já imitava, entre aspas, aquilo que eu via que era a sátira.
Muitas vezes fazem-me a pergunta se há um desenho feminino ou um desenho masculino no cartoon. Pode haver alguns cartoonistas… Mas lá está o que é que é o feminino e o masculino? Eu estou a pensar na Coco, que é uma cartoonista do Charlie Hebdo, que é bastante rude no desenho. Se poderia de uma forma convencional... Lá está, eu também não quero pôr isso de uma forma convencional classificar como masculina...
Acaba por passar ao lado de quem lê se foi uma mulher ou um homem a escrever?
Jugo que sim. Não sei se as pessoas quando veem os meus cartoons se interrogam sobre isso.
O que se pode esperar da exposição “Assim vai o Mundo, Cristina”?
A minha exposição faz um um apanhado dos temas principais. Desde as questões ambientais às questões de género e de políticas internacional e nacional. É uma retrospectiva desde que o Século XXI começou. Por um lado, eu pretendo dar às pessoas a ver esse retrato dos últimos 24 anos e, por outro lado, também contrariar a questão de que o humor não pode ser desrespeitoso, que eu contesto completamente.
O Humor é justamente para pôr o dedo nas feridas. E as feridas doem quando se põe lá o dedo. E é isso que eu espero que as pessoas possam entender. Alguns dos meus desenhos foram violentamente atacados justamente por serem desrespeitosos, mas eu mantenho que é assim que tem que ser.
A exposição "Assim Vai o Mundo, Cristina" vai estar na entre 17 de outubro a 15 de novembro na Galeria Artur Bual, integrada na 35ª Edição do Amadora BD.