Autobiografia de Anthony Hopkins lançada esta terça-feira em Portugal

Trata-se de uma narrativa introspetiva, em que o ator de "O Silêncio dos inocentes" reflete sobre as experiências que moldaram a sua identidade pessoal e artística.

"Correu bem, miúdo" é publicado pela chancela Lua de Papel, da Leya.

A obra reúne episódios que atravessam a sua vida, desde a infância em Port Talbot - a cidade industrial onde nasceu, em 1937 - até à consagração em Hollywood, incluindo memórias da relação com o pai, o período escolar, os primeiros anos no teatro britânico e os desafios pessoais que enfrentou ao longo do tempo.

O título "We did OK, kid" (no original) é inspirado numa fotografia do autor em criança com o pai, Richard Hopkins, e serve como ponto de partida para uma reflexão sobre o legado e o sentido de realização.

Falamos com o editor José Prata que nos conduziu pelas pelas mais de trezentas páginas do livro.

"Correu bem, miúdo" chega às livrarias portuguesas. É mais uma autobiografia publicada pela chancela da Lua de Papel que desvenda as histórias de grandes figuras da atualidade.

José Prata (JP) - É, nós já tínhamos começado a publicar autobiografias há algum tempo e, e é um género que eu gosto muito. Tínhamos publicado, por exemplo, o livro do Matthew McConaughey. Tínhamos publicado uma, uma autobiografia muito gira, chamada Ainda Bem que a Minha Mãe Morreu, da Jennette McCurdy. E depois, quando eu vi, mandaram apenas vinte páginas, eram as vinte páginas que narravam o início da vida dele, criança na escola, a levar tabefe dos professores por ser, alegadamente, um miúdo, um bocado, digamos, lento. E o modo como ele contava aquilo fez-me lembrar imenso o livro da Jennette McCurdy, porque era assim um tom, um tom muito, quase humorado, quase distanciado, quase como quem aceita a vida e o destino como ele é. Ou seja, era um tom assim que me encantou e prendeu logo. Ou seja, li vinte páginas, isso foi há mais de dois anos disse logo: "Quero comprar esse livro" e comprei logo o livro. Pronto. Depois levou o tempo todo a ser escrito e, e chegou-nos no, no início deste ano para traduzir. 

O que é que mais o que é que mais surpreendeu na leitura desta autobiografia? Há aspetos que revelam um Anthony Hopkins diferente do que aquele que o público conhece? 

JP - A mim surpreendeu-me tudo. Eu, durante mais de quinze anos, fui crítico de, de cinema. Teoricamente, devia saber muito sobre ele, só que uma pessoa esquece sobretudo, o quão o ator esteve presente em toda a nossa vida, ao longo de décadas e a trabalhar dentro dos mais diversos géneros. Ou seja, eventualmente, ele não fez marca ao interpretar o pai de Thor, mas depois nós começamos a olhar para trás e temos O Leão de Inverno ainda com a Katharine Hepburn, uma coisa super antiga que eu vi na altura e gostei muito. Depois passa por séries que eu amo, como por exemplo, Westworld, e depois por uma série de filmes altamente marcantes que vão para a minha geração, como Lendas de Paixão, não estou a dizer que seja uma obra de arte, mas eram filmes que nos disseram muito e depois, claro, os filmes dos Oscars, como, como O Silêncio dos Inocentes ou mais recentemente O Pai. Ou seja, ele está muito presente na nossa vida e eu pegar no livro, ao vermos o passado dele, escavamos essa parte toda e pensamos: "Ah, pois é, olha, eu vi este filme, este também, esta série..." E ele está lá sempre, só que ele era sempre uma presença um bocado discreta até O Silêncio dos Inocentes, que foi a altura em que, digamos, ele explodiu para um conhecimento mais mainstream e mundial. 

Como é que descreve o estilo de escrita de Anthony Hopkins? 

JP - Falta-me um bocado palavras em português para descrever. Há uma, uma expressão inglesa que eu gosto muito, que é o humor deadpan, que é,  assim, digamos, um tom quase rebaixado. É como fazer humor, como os grandes humoristas fazem, sem um sorriso, sem uma gargalhada. Não é preciso se esforçar. Ele goza consigo próprio, ele vê os seus defeitos, ele assume os seus defeitos, mas sempre de uma forma que tem um resíduozinho de humor e de ironia, e cáustica ao mesmo tempo. É um tom próprio, único e que bate certo com aquilo que eu li no início e com, com a personagem e com, com a sua apresentação pública, etc. Ou seja, aquilo é mesmo o Anthony Hopkins. Então, esse livro dá-nos a conhecer uma pessoa e isso é fascinante, porque pronto, estamos ali a quase a privar com uma das estrelas maiores do cinema e isso é muito reconfortante e gratificante enquanto leitor. 

E tendo em conta esse humor que falava e esse tom pessoal de Hopkins, houve desafios particulares na tradução do texto? 

JP - Bom, houve desafios particulares, mas felizmente não me competiram a mim. Nós escolhemos para traduzir este livro o Vasco Gato, que é dos melhores tradutores que trabalham em Portugal, e o Vasco Gato tem uma grande vantagem também que é poeta, e um bom poeta. E o livro tem muitos poemas ao longo do livro, espalhados, porque a poesia era uma coisa super importante para o Anthony Hopkins e para o pai dele, ou seja, que é uma parte que eu achei muito gira. O pai dele era padeiro, é, era classe trabalhadora inglesa, do Wales, mais propriamente País de Gales e na vida do pub, eles recitavam imenso Shakespeare, recitavam imenso T.S. Eliot e tinham assim um grau de apreciação da literatura dita alta que em Portugal não existe. Ele cresceu nesse meio e cresceu nesse meio proletário, mas com esse amor à poesia que depois se reflete aqui, quando ele de vez em quando cita alguns poemas e no final há uma espécie de adenda com vários poemas, que são os poemas que lhe marcaram a vida. Claro que eu podia pedir às várias edições portuguesas, ir à procura da melhor tradução, onde é que está, etc. Mas como foi o Vasco Gato a traduzir, tivemos essa vantagem. Saiu-nos logo a tradução já completa com os poemas incluídos. 

Este livro reflete mais o artista — e já falámos também um bocadinho dessa parte do artista — mas mais o artista, o homem ou o filósofo que existe no ator? 

JP - Eu acho que é mesmo um retrato completo. Ele olha para a sua arte com gosto, no sentido de que aquilo lhe dá prazer, mas não é aquilo que o salva sequer. Ou seja, então o livro é todo sobre uma pessoa que nasce com dificuldades de raciocínio, de dificuldades de enquadramento social, e que à boleia disso, desenvolve ou cresce com uma série de traumas. Então, o livro todo é o homem a enfrentar esses traumas de infância e a tentar superá-los. E a esses traumas de infância ele acrescenta a fatura pesadíssima do alcoolismo, que se arrastou na vida dele durante décadas e numa forma extrema de alcoolismo que o levou ao divórcio, a separar-se da filha e esse tipo de coisas. Então, a história é: um homem superar os traumas, dar a volta, se tornar sóbrio — que é sóbrio há mais de cinquenta anos — e, sobretudo, conseguir viver consigo próprio e com a solidão. Porque é uma história de uma profunda e muito tocante solidão. Ele é um solitário, não é? Agora vive casado há cerca de vinte anos. Parece-me uma pessoa feliz, parece-me uma pessoa inteira, mas essa solidão está lá, é residual, é forte e é um tema com o qual nós todos nos identificamos.