BaianaSystem atuam esta semana em Portugal

Entrevista a Roberto Barreto.

O coletivo BaianaSystem - um dos nomes palpitantes e inovadores da música contemporânea brasileira - atua este mês em Portugal.

O grupo atua no Hard Club, no Porto, a 12, no Festival Pé na Terra, em Almancil, a 13 e no Monsantos Open Air, em Lisboa, a 14 de setembro

"BaianaSystem é um nome obrigatório na cultura brasileira tanto nas apresentações ao vivo com no registo em estúdio. A mistura sonora da guitarra baiana com as influências jamaicanas do sound system, o samba-reggae, o afoxé, o afro-rock e outros géneros locais juntam-se a mensagens humanistas, sociais e políticas fortes e concretas", conta a nota de imprensa sobre o grupo de Salvador da Bahia que junta no seu core Russo Passapusso (voz), Sekobass (baixo) e Roberto Barreto (guitarra baiana).

São mais de 15 anos de carreira e um Grammy Latino para Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa conquistado com o álbum "O Futuro Não Demora", editado em 2019. 

O sucessor - intitulado "O Mundo Dá Voltas" - foi editado em 2025 e conta com os contributos artísticos dos brasileiros Gilberto Gil, Anitta, Seu Jorge, Emicida, Antonio Carlos & Jocafi, do português Dino D'Santiago ou do angolano Kalaf. 

A produção executiva e artística do novo disco é assinada por Russo Passapusso, Sekobass e Roberto Barreto. A estética visual conta com a colaboração de Filipe Cartaxo.

A poucos dias de subirem aos palcos portugueses, conversámos com o músico Roberto Barreto, um dos fundadores do coletivo. 

Entrevista a BaianaSystem

Consegue resumir a história dos BaianaSystem em cinco, dez minutos?

Estamos agora a celebrar 16 anos. O primeiro disco foi lançado no final de 2009, já muito perto de 2010. Depois disso, editámos cinco álbuns de "carreira", digamos assim, e mais alguns de colaborações. Temos um disco de dub, um de remisturas e um álbum ao vivo com o Gilberto Gil que gravámos aqui em Salvador, na Bahia. Ao longo da nossa trajetória temos participado em muitos festivais pelo mundo. Tocámos na China, no Japão e na Rússia - mais precisamente na Sibéria. Também atuámos em vários países da Europa e nos Estados Unidos. Nos últimos oito anos, temos circulado bastante pelos principais festivais brasileiros.


Os BaianaSystem lidam com muitas referências, com muitos pontos de partida. É uma experimentação musical que tem como base a música baiana, afro-baiana. O nome [do grupo] vem da guitarra baiana. É a guitarra, criada aqui em Salvador, que deu origem ao trio elétrico nos anos quarenta. O que fazemos é juntar a guitarra baiana ao conceito dos sound system jamaicanos. No Brasil, isso tem outras conotações muito ligadas a festas e a expressões de rua populares. Pensámos no trio elétrico como uma espécie de sound system ambulante e foi daí que surgiu a ideia de experimentarmos outras coisas. O primeiro disco [homónimo de 2010] foi feito em cima disso. Tem músicas instrumentais e colagens do Ministério Público, que é o nome do sistema de som onde nos conhecemos. E depois fomos experimentado muitas coisas. Fizemos muitas misturas. Temos influências do samba-reggae, do ijexá, do reggae propriamente dito, das múltiplas formas de samba e também do rock, sobretudo nos últimos shows. Somos compostos por muitas componentes. As pessoas que fazem parte dos BaianaSystem têm influências muito diversas. Não é fácil definir o nosso estilo musical, porque transitamos por muitos estilos. Além disso, desde o início que mantemos uma parte audiovisual muito forte. A imagética faz parte do nosso conceito, seja nos concertos, nas apresentações gráficas ou na utilização da máscara que é o nosso símbolo. Experimentamos muitas linguagens e temos muitas referências.

É muito interessante porque, lá está, unem várias linguagens - até nas colaborações - mas, de certa forma, encontram um lugar que é só vosso, com uma assinatura muito própria…

Acho que esse é o grande desafio. O desafio de termos uma linguagem própria, uma assinatura. Não estamos a fazer nada de novo, embora, muitas vezes, possamos soar a uma identidade que as pessoas associam aos Baiana. (...) E depois temos a referência dos mestres. No primeiro disco, temos o Gerônimo, o Roberto Mendes. Também temos Letieres. E [pelo caminho] vamos somando [essas referências]. Gilberto Gil, Antônio Carlos e Jocafi. São pessoas de outra geração, mas que formaram a música brasileira. Temos sempre essas referências. Não dizemos nada de novo mas tentamos ter uma maneira própria de expressar o que nos formou.

Além da música e da fusão que experimentam, também têm mensagens importantes para transmitir. O vosso último disco chama-se "O Mundo Dá Voltas". Que voltas são estas?

Andamos a dar voltas pelo mundo. Estamos a fazer isso agora. Vamos voltar ao continente europeu para mais uma série de espetáculos. Vamos fazer um disco de remixes do próprio disco, ou seja, vamos pegar nas músicas e entregar a alguns produtores internacionais para novas interpretações das canções. Estamos sempre a provocar estas voltas. Este último disco tem uma ligação muito forte com "O Futuro Não Demora" - o tal álbum que fizemos antes da pandemia e com o qual ganhámos o Grammy Latino. Foi um disco que teve muita força. Foi muito importante para o nosso posicionamento enquanto parte integrante da América Latina - o nem sempre acontecia. E foi importante para o entendimento sobre a influência afro-percussiva da Bahia, que é o que queremos passar ao mundo. "O Futuro Não Demora" falava muito disso, além de falar também de muitos elementos da natureza. O título quase antecipou o momento da pandemia já que nessa fase o mundo questionava-se muito sobre o futuro. No meio da pandemia fizemos um álbum intitulado "Oxeaxeexu" e agora temos "O Mundo Dá Voltas".

O Russo tem uma grande capacidade de síntese nas letras que compõe. Vejo-o como um cronista que escreve o que acontece em tempo real. O título 'O Futuro Não Demora' partiu de uma letra de uma canção chamada 'Fogo'. Percebemos que era essa a frase que dava o conceito ao disco. E "O Mundo Dá Voltas" é parte da letra do tema 'Balacobaco'. É um disco com muitas colaborações musicais. E foram os arranjos e a própria música que nos levaram a determinadas pessoas. Falo do Gilberto Gil, da Anitta, da Pitty, do Emicida, do Seu Jorge. São muitas leituras diferentes, de vários lugares da música brasileira. E temos, claro, as participações do Dino D'Santiago, do Kalaf e do Branko. O álbum ia chamar-se "Batukerê", que é o nome da primeira faixa, mas depois achámos que "O Mundo Dá Voltas" fazia mais sentido.

Como é que aconteceu a colaboração transatlântica, com o Dino, o Kalaf e o Branko?

Os Buraka Som Sistema, o Kalaf e o Branko são grandes referências para os BaianaSystem. Falo sobretudo da forma como os Buraka Som Sistema faziam as misturas musicais. O kuduro misturado com o pop. Conseguiram transformar ritmos locais em algo mundial. E isso influenciou muito os BaianaSystem. O Kalaf também é uma grande referência para mim, para o Russo e, no fundo, para todos. É uma influência em todos os sentidos. Politicamente, como poeta e como escritor. Quando ele esteve em Salvador, o Quito Ribeiro, que também é músico e escritor, levou-o assistir a um espetáculo nosso. E nessa altura ficou no ar a ideia de fazermos algo juntos. Acho que quando ele viu o nosso show começou a entender a ligação que tínhamos com os Buraka. Começou a entender que também estávamos a trabalhar os nossos ritmos para lhes dar um alcance mundial. E então decidimos trabalhar juntos. Fomos todos para a Ilha de Itaparica. Nós, o Dino, o Kalaf e Branko. E fizemos duas músicas: a 'Batukerê' e a 'Porta Retrato da Família Brasileira'. Há ainda uma outra faixa que o Dino vai lançar agora em setembro. É um tema do Dino que tem a nossa participação. Abrimos muitas frentes. E isso ajuda-nos a entender melhor a ligação entre África, Portugal e Brasil

No espetáculo que vão dar no Monsantos Open Air, o Dino D'Santiago vai juntar-se a vocês no palco, certo? 

Isso. Vai juntar-se a nós no espetáculo de Lisboa. Ele esteve cá altura do Carnaval. Esteve aqui com a gente, com o nosso trio, o Navio Pirata. Impossível irmos a Portugal e não estarmos com ele. Só se ele não estivesse aí. Mas estando, sei que vamos ser muito bem acolhidos. Pelo Dino e pelo Kalaf.

Como é que a música pode dar um balanço positivo para meter o mundo a rodar para o lado certo?

Esse é o desafio da arte. A nível mundial, estamos a viver a incerteza e o desencanto. E a arte dá-nos um certo sentido. Tem esse papel. Cria uma realidade, que não é propriamente a realidade, mas dá-nos uma perspectiva emocional. Ajuda-nos na reação ao que está a acontecer. Cria um movimento nas pessoas que pode tornar-se real a partir do momento em que as pessoas reajam com aquilo que a arte as faz sentir. Ou com o que a arte contesta. Tanto o Russo, como o Dino ou o Kalaf têm esse entendimento. São três pessoas fundamentais da nossa geração com esse tipo de entendimento. São artistas negros e descendentes de muitas frentes. [...] Vemos tanta intolerância no mundo. As questões relacionadas com a imigração e os movimentos que estão a ser questionados. Questões que servem de argumento para o ressurgimento da extrema-direita e da intolerância que resultam em líderes com este tipo de pensamento. Acho que a música e a arte podem sacudir isto tudo. Não é à toa que a arte é a primeira coisa a ser atacada por estas pessoas. Não é à toa que a música ou a arte tentam ser caladas. O resto é algo mais objetivo logo mais fácil de ser manipulado. A arte não. Tem muitas ferramentas para fugir da manipulação. A arte pode tornar possível um mundo melhor. O mundo com o qual imaginamos.

O que responde às pessoas que acham que os músicos devem estar focados apenas na música e que devem evitar emitir opiniões políticas?

Recentemente, fizeram um comentário desse género ao Chico César, ao qual ele respondeu, "eles não entendem que a minha arte não existe fora disto". A minha arte vem disto". Parece que as pessoas não entendem ou não querem entender aquilo que os artistas criam, cantam. É um pouco parecido ao que antes acontecia nos espetáculos do Roger Waters. Muitas pessoas diziam que ele não devia falar de política, que devia cingir-se à música. Por causa desse tipo de comentários, o Roger Waters passou a abrir os concertos com um aviso ao público, informando-o que, ao longo do espetáculo, tem a intenção de falar de política. E acrescenta que quem não quiser ouvir falar de política pode sair do espetáculo. Os BaianaSystem também vão além do papel do simples entretenimento. 

E a música e a arte também servem como motivo de debate...

Exato. E é algo que podemos agarrar no meio de tudo o que está a acontecer. 

Vocês valorizam muito a raiz musical, cultural. Como é olha para o avanço acelerado da tecnologia e da inteligência artificial ao serviço da arte, da música? É um desafio a essa raiz?

Não sinto propriamente receio. Historicamente, sabemos que há sempre uma tecnologia nova. A própria gravação, o computador, as gravações digitais. A inteligência artificial é mais uma ferramenta que ainda é intermediada pelo homem. Não sei como será daqui a alguns anos. Não consigo fazer esse exercício de futurologia. Mas, por enquanto, a inteligência artificial apenas cruza dados e informações. Chama-nos a atenção pela velocidade com que nos coloca à disposição um arquivo gigante de informação. Mas sem a emoção e o sentimento. É esse o lugar da diferença.

Como é que vão ser os espetáculos em Portugal? O que é que nos pode contar?

Vamos a Portugal com "O Mundo Dá Voltas". Temos uma base do espetáculo "Lundu Rock Show", que é o show que a gente apresenta nos festivais brasileiros e que tem uma componente rock muito forte e evidente. Usamos muito isso para o público brasileiro mas quando atuamos fora do Brasil acabamos por usar outros elementos. (...) Tocamos músicas que não costumamos tocar aqui. No caso de Portugal, além da participação do Dino D'Santiago, vamos ter a participação da Titica que é uma cantora incrível e que em 2018 fez uma canção connosco. Falo do tema 'Capim Guiné' que contou com a participação da Margareth Menezes. É uma faixa muito forte, de quando começámos a misturar o rock com o kuduro. E depois há a ligação pela Língua Portuguesa. Em Portugal, a gente consegue ter essa comunicação, essa aproximação, apesar de sermos muito diferentes tanto no sotaque como na forma de comunicar. Acho, porém, que chegamos a um lugar de comunicação muito importante. E também vamos lançar o "O Mundo Dá Voltas" em vinil em breve.