Beatriz Pessoa: "quis fazer uma ode à pop"
Novo álbum "Muito Mais" é publicado nesta sexta-feira.
A cantora Beatriz Pessoa gosta das cores garridas da pop. Foi com elas que pincelou o seu terceiro álbum, “Muito Mais”, num disco que transborda para outras formas musicais. Ao ouvir a Beatriz Pessoa, parece que a sentimos sempre a sorrir. O sorriso nunca se esvai.
Queremos saber “Muito Mais” de sua viva a voz, a voz que também fala.
Apesar de várias influências, o “Muito Mais” é um álbum deliberadamente pop?
Sim, é uma ode ao pop, sendo que eu acho que algumas pessoas entendem essa palavra como alguma coisa negativa ou menos erudita. Eu quis fazer uma ode à pop em todas as suas vertentes. Espero ter conseguido que seja uma ode à pop com referências desde os anos cinquenta até agora, porque a pop, na verdade, nasceu de uma ideia de música para o público e foi-se transformando num rótulo um bocadinho mais quadrado. Não é assim que eu vejo a pop. Eu adoro música pop e acho que há muita coisa muito bem feita, e espero ter conseguido trazer um bocadinho dessas referências e dessas admirações.
Há aqui um caso curioso com o ‘La Fúria’, que é puro experimentalismo pop. Noutros temas, como ‘9,99€’ e ‘Não Não Não’, apostas várias vezes em letras mais minimais.
Falaste aí de exemplos que para mim são super-diferentes. O "La Furia" é um tema que nem sequer tem letra. Tem aquela introdução ao estilo de um comic relief, que nem sequer é cantado, que aconteceu naturalmente no estúdio e foi uma brincadeira que nós achámos fixe incluir. É uma viagem muito melódica. São melodias que me ficaram na cabeça e que não saíam e que eu gostei imenso. Na verdade, é das minhas músicas preferidas do disco. Aquilo serve quase como um separador no disco, é uma canção muito curtinha. É um momento, vá. Mas é uma música que me dá muito gosto cantar. O "9.99" afirmou-se como o single mais óbvio. É uma canção que vive muito do refrão. Do 9, 99, 9, 9, 99, 9, 9, 9. Essa repetição é uma crítica. É suposto ser uma crítica e, por isso, eu queria que no resto da letra as frases fossem mais pragmáticas. Se calhar, é um texto um bocadinho menos poético do que o que costumo escrever. O "Não, Não, Não" é essa ode a uma pop mais clássica das grandes divas e ao mesmo tempo é uma música que eu escrevi a pensar no poder do ‘não’, no que o não representa nas suas diferentes faces. Acho que é uma palavra que pode ser positiva e poderosa, que nos pode defender e que devemos ter orgulho.
O disco tem fiozinhos de jazz aqui e acolá. Podemos dizer que este é um disco típico de uma artista formada no Hot Clube?
Podemos, porque é verdade. Podes dizer isso à vontade. Tenho muito orgulho do meu percurso. Adorei andar no Hot Clube, fui lá muito feliz e claro que eu continuo a ouvir muito jazz. Estudei jazz. Não estudei tanto como se calhar devia ter estudado. Tenho a sorte de ter um bom ouvido e às vezes isso na parte académica do estudo de música é mau porque acaba por ser uma bengala fácil. Muito do meu conhecimento musical vem desse estudo do jazz. Mas depois também oiço muitas coisas e sempre ouvi pop. A pop fez parte do meu crescimento musical e o jazz também. Portanto, acredito que isso esteja tudo hiper-misturado. É-me impossível separar e perceber onde é que começa cada um.
Sente-se que o jazz vai brotando de vez em quando facilmente, por mais pop que o disco seja.
Eu acho que há muita pop que é feita, a que eu chamo de pop fácil. A pop não tem que ser uma música fácil. A pop não tem que ser uma música com três acordes. Pode ser, e há canções pop incríveis com três acordes. Há o mesmo preconceito associado ao jazz, um bocado ao contrário: “que o jazz é uma música superdifícil e que tem muitas notas e é complexo” e também não tem que o ser. O jazz vem de um sítio muito específico, a pop também, mas no fundo, quando vamos olhar para o que é que é, é tudo música, é tudo canção, tem tudo um objetivo, vem de um sítio. Esses sítios acabam por se misturar. O jazz vem de muitos sítios, mas um deles, a canção standard, também vem dos musicais da Broadway. E a pop também vem dos musicais da Broadway. Eu acho que há um sítio em que eles se cruzam de uma maneira muito natural e se calhar foi nesse sítio que eu cresci.
Há um tema que reflete muito o que estás a dizer. Aquele tema mais caribenho, ‘I Wish, em que cantas em inglês.
Essa canção esteve quase para não entrar no disco, mas eu não consegui que não entrasse, porque primeiro eu divirto-me muito a cantar essa música e foi muito divertido fazer essa canção e fazer o arranjo. Todos temos várias referências e todos somos uma mistura de várias coisas e vamos beber a vários sítios. Eu oiço muita música cubana, muita salsa. Eu adoro aqueles discos do Nat King Cole e até do Frank Sinatra, em que eles também vão fazer versões dessas músicas. Uma das minhas cantoras preferidas é a La Lupe, que também é uma cantora cubana. Foi impossível não escrever essa canção e não ir atrás de um arranjo específico que tivesse essa mistura. É muito divertido para mim cantar aquilo. Também foi por isso que eu quis que a letra fosse em inglês.
Pensando nas letras das tuas músicas, achas que este é um disco com paixão pela vida?
Ó pá, Sim, espero que sim! Eu adoro viver e fazer música e todo o processo criativo deste álbum foi muito feliz, intenso, honesto e livre. Espero mesmo que isso passe lá para fora. Espero que mesmo os temas em que me debrucei sobre assuntos mais frágeis e mais complicados, acho que tentei sempre dar essa luz e essa esperança. Eu espero sempre isso de todos os meus discos. Acho que isso é uma coisa que é minha e que eu espero sempre dar, que é essa leveza, mesmo quando as coisas são pesadas. Acho que é uma leveza que me é característica e penso que passa para a minha música.
Porque é que te meteste com a Shania Twain, trocando algumas letras.
Eu falo às vezes muito rápido e eu tenho uma característica que é um bocado parva, e que misturo expressões. Baralho-me, tenho uma dislexia específica para expressões, ditados e para nomes, e estou sempre a misturar coisas. E, na verdade, o Shania Twain, aka Tania Schwain, surgiu numa noite qualquer de copos com os meus amigos, em que estávamos a criar uma playlist para uma festa qualquer que iríamos fazer. E eu estava a tentar lembrar do nome da Shania Twain e disse “aquela cantora, a Tania Schwain”, e ficou. E neste momento, nesse meu grupo de amigos, nós muitas vezes não sabemos qual é a versão correta e temos que ir pesquisar, porque a partir do momento em que se mistura e se começa a dizer Tania Schwain, às vezes é difícil de voltar. Às vezes eu estou mesmo tipo: "Mas espera, como é que ela se chama mesmo? É Shania ou é Tania? Qual é que é a versão que é a brincar?" E pronto, o resto da letra toda dessa canção são brincadeiras exatamente com expressões, frases muito conhecidas, ditados, tudo misturado, tudo ao contrário.
Será que essa dislexia acontece também no 9.99€, em que dizes 99.9? A vírgula vai saltitando nas casas decimais para a esquerda e para a direita.
Aí foi mesmo por questões métricas e de melodia, com a brincadeira de que o preço vai mudando, mas acaba por ser sempre aquela aproximação decimal que nunca acontece.
Dizes muitas vezes não?
Digo, porque sou mãe de uma criança pequenina. A canção nasceu muito inspirada na minha filha, na certeza com que ela diz não. Eu achei fascinante.
O teu disco vai custar 9,99€?
Pá, eu queria, sabes? Eu tentei, mas não sou eu que mando assim tanto nessas coisas. Mas vai ser qualquer coisa vírgula noventa e nove, que eu bati o pé .
Já sofreste de pó de palco?
Já! Quem não? O nosso palco é o nosso local de trabalho. Ou seja, aqui o palco não tem que ser o palco em si, de um artista. Eu acho que o palco é um bocado a vida e está tudo cheio de pó. Continuamos aqui a tentar limpar e a tentar ser felizes e a fazer os outros felizes. É uma luta muito frustrante. Eu acho que isto é geral para toda a gente. É que vivemos num mundo ansioso e frustrado, mesmo que seja em fases diferentes e uns com mais força que outros. Mas acho que estamos todos neste barco do pó.
