Bela Ensemble: nascidos na boémia de Alfama

Quinteto tem vista para o fado e visto para outras paragens.

Tem poucas semanas o álbum de estreia homónimo dos Bela Ensemble. Estamos perante uma dezena de canções onde o fado desperta de repente num casa portuguesa, com certeza, mas com um novíssimo mobiliário. Isto é, uma outra instrumentação, como o contrabaixo, o violino ou o cajón, mas nada de guitarra portuguesa. É nesse corpo instrumental revolucionário que encaixa a cantora com alma de fadista Ana Margarida. 

Alfredo Marceneiro é o vulto amigo que empurra os Bela Ensemble para as suas viagens instrumentais. Vem do reportório de Marceneiro uma parte substancial das canções dos Bela Ensemble.

A acompanhar a cantora Ana Margarida, estão João Penedo no contrabaixo, Otto Pereira no violino, Rafael Brides na guitarra de 7 cordas e o fundador Carlos Mil-Homens na percussão. É mesmo com Carlos Mil-Homens que falámos, a tentar descobrir quem são os Bela Ensemble.

Como é que surgiram?
Começámos há uns dez anos atrás, sinceramente não tenho noção. Surgimos em Alfama, numa tasca e casa de fados chamada Bela, Vinhos e Petiscos. Na altura, a dona, que é a Bela, fez-me um convite para lá fazer curadoria às sextas-feiras. Comecei a fazer lá a programação de bandas que eu conhecia e gostava, uma coisa muito ligada às música do mundo, que se fazia em Lisboa, à parte do fado. O fado tem uma presença muito grande em Alfama, mas este desafio era o de levar lá outros projetos musicais e de mostrar o que se estava a passar na cidade - e que se está a passar hoje em dia, felizmente. Foram alguns anos nisto. Eu tenho alguma ligação ao fado, apesar de não ser um músico de fado, pois sou percussionista. Com estes músicos que se iam juntando nesta boémia de Alfama, surgiu a ideia entre mim e o Marco Oliveira - músico de fado, cantor e guitarrista - de fazer um grupo fortemente inspirado no fado, que abrisse a outros géneros. É o que tem vindo a acontecer ao longo dos anos. Dentro do fado, nós vimos a possibilidade de ouvirmos outros ritmos, outras latitudes, que são reflexo desta Lisboa. O grupo foi crescendo, ganhando identidade. Começámos a descobrir a nossa linguagem. É esta junção contemporânea de géneros de Lisboa, sempre inspirada no fado.

 

Quando é que se estabilizaram neste quinteto atual?
Este quinteto foi formado em 2018. O Marco Oliveira tinha saído e tivemos que ir à procura de outros músicos para continuar o projeto. Convidámos o Rafael Brides para assumir a viola de sete cordas e a Ana Margarida para cantar. Mantivémos o João Penedo no contrabaixo e o Otto Pereira no violino. Dantes, tínhamos um violinista que era um rapaz cubano, que procurou melhor sorte noutros sítios. Chamámos o Otto, que era um músico incrível. Este trio é o que mantém a base do grupo.

Vocês são mesmo de Alfama, ou foram parar a Alfama?
Não, nós somos de vários pontos. O Rafael Brides é brasileiro, já cá está há alguns anos. O João [Penedo] e Ana Margarida, como são muito do fado, andam muito por Alfama. Eu moro na Mouraria. Alfama é um melting pot cultural onde todas estas coisas acabam por surgir, como um centro da cidade que se quer vivo. 

O vosso objetivo sempre foi o de fazer esse híbrido, com base no fado?
Já há muitos anos atrás, há 20 anos, quando comecei a tocar, desde que fiz uma viagem ao Peru, passei a ter um objetivo muito claro: pôr percussão no fado, que é uma coisa que o fado não tem, e agregar ao fado outros géneros musicais. Não sabia se iria funcionar ou não, mas pelo que tinha visto por esse mundo fora, acreditava que era possível. Depois de muitos anos de trabalho, estudos e experiências, o resultado está aqui.

 

Qual é a força que o Alfredo Marceneiro tem que vos inspira a revisitá-lo repetidamente?
Como nós queriamos dar uma roupagem mais contemporânea ao fado, achámos que fazia mais sentido que os fados sobre os quais nos debruçamos fossem fados mais antigos, porque achamos que nesses fados e essas letras, há uma grande fonte de inspiração para estas novas roupagens. E o Alfredo Marceneiro é um nome incontornável do fado. As suas letras têm uma carga poética que espelha muito bem o que é o fado. Torna-se um bocadinho mais fácil trabalhar sobre essas letras. 

Planeiam explorar outras grandes figuras do fado, como, por exemplo, a Amália Rodrigues ou a Maria Teresa de Noronha?
Não estamos de todo só agarrados ao Marceneiro. Se houver um fado e uma letra que nos digam alguma coisa, iremos trabalhá-lo, sem grandes barreiras. É possível que para um segundo álbum, trabalhemos mais em originais. Se calhar, pediremos letras a outros. Ou nós próprios faremos as letras.

Projetos como os Madredeus ou fados das novas gerações foram modelos de inspiração para vocês, em termos de transformação da música tradicional portuguesa?
Sinceramente, não. Não fomos à procura de referências de artistas que trilhem estes caminhos. O nosso caminho sempre foi bastante particular. Agora, obviamente damos bastante valor a quem faça este tipo de trabalho, que desbrave caminho e que acabe por facilitar a abertura do mundo do fado a pessoas como eu. Essa abertura de espectro e de mentalidades permitem-nos que não choquemos tanto quando apresentamos este tipo de trabalho sobre o fado. Nós respeitamos o fado, mas achamos que há espaço para estas aventuras, desde que sejam feitas com respeito.  

 

É já difícil imaginar os Bela Ensemble sem o violino?
É e não é. O Bela Ensemble é um coletivo de músicos, mas é acima de tudo uma ideia, um conceito. No futuro, estamos abertos a outros instrumentos e a outros cantores convidados. Temos o núcleo da banda, que são estes cinco, mas a partir daqui devemos abrir a outras experiências e a outros músicos, se acharmos que é por aí o caminho. O violino - e o Otto Pereira que é um músico incrível - define muito a sonoridade dos Bela Ensemble, sem dúvida alguma. [O Otto Pereira] acaba por fazer muito aquele que é o trabalho da guitarra portuguesa, que é um instrumento que responde à voz, que adorna e que brilha bastante. O violino é um instrumento solista no meio da base que eu e o Rafa [Brides] fazemos.

O que esperam deste ano de 2023?
Estivemos a fazer uma residência no Largo Residências, que é um espaço novo e muito giro no centro da cidade, e que serviu como pré-lançamento do nosso disco. Em príncipio, daqui a uns meses, faremos um concerto grande para lançarmos o nosso disco fisicamente. O nosso objetivo é fazer chegar a nossa música às pessoas e começar a tocar o máximo possível pelo país e eventualmente lá fora. Evidentemente, estamos já a trabalhar em novos temas e queremos mantermo-nos frescos e sempre em mudança, porque as coisas também mudam.