Benjamin Clementine dedica 'Condolence' a Diogo Jota no Cool Jazz

Pianista inglês esteve em palco durante 85 minutos, acompanhado por mais dez músicos.

A meio do concerto em Cascais e de forma completamente surpreendente, que parecia vinda do nada, Benjamin Clementine dedicou a sua canção Condolence ao falecido futebolista português Diogo Jota, já homenageado por outros músicos ingleses como Robert Plant (dos Led Zeppelin) ou nesta noite de regresso ao vivo, os Oasis. Já voltaremos a este momento de Cascais.

Eram 22h40 quando Benjamin Clementine surgiu em palco, de casaco faustoso que parecia uma capa, a cantar em andanças perdidas ‘Where Did All The Money Go’. O trio de músicos em pé (um baterista eletrónico, um guitarrista e um teclista) eram a retaguarda que dava ordem de liberdade a Benjamin Clementine, que podia contornar o piano, como o fez em ‘Nicholas Nepolitano’, em estilo de cantora cabaret. Só se senta ao piano pela primeira vez, à terceira música, para interpretar Toxicaliphobia, num épico electrónico que o leva a mais passeatas pelo palco, como se fosse um pensador num frenesi solitário na sua sala de casa.

Benjamin Clementine continua fiel ao seu estilo de casaco blazer justo, por cima da pele do peito, sem camisola ou camisa. Tem um ar subversivo de quem está pronto para preparar alguma das boas. Tentou dizer “joking” em português e desabafou: “Vocês têm uma língua tão difícil”. De um momento para o outro, lembra-se da sua mulher e de um iminente ataque ciúmes dela e inventa uma canção, “She’s gonna kill me”, num repentismo tão venturoso que já parecia uma música devidamente composta. Mas Benjamin Clementine está só a “brincar”, “only joking”. 

A música ‘Genesis’ teve a espetacularidade de um bigue-bangue, com uma expansão súbita de mais sete músicos nas cordas e nos sopros,
num devaneio vocal de erudição de Clementine, numa loucura saudável, colado ao microfone do piano, até ao valente fôlego vocal final só ao alcance dos verdadeiramente bons como ele. Em ‘Spare Me the Shakespeare’, já não é só Benjamin Clementine a andar desenfreadamente pelo palco, os seus sete músicos da frente de palco também vão e vêm, vestidos como uns anjos sem asas. Cada tema deste concerto é uma odisseia, uma opereta. Ali no meio, o piano de cauda branco não dá jeito nenhum, é só um objeto decorativo e calmeirão, que pode provocar nódoas negras aos andarilhos em caso de colisão. 

Quando Benjamin Clementine pergunta ao público como se diz adeus em português, prepara a tal dedicatória a Diogo Jota em ‘Condolence’. Benjamin Clementine começa a tentar cantar em português alguns versos de ‘Condolence’, até dar o protagonismo vocal ao seu guitarrista, o brasileiro Kiko, que canta de forma espampanante: “envio as minhas condolências ao medo, envio as minhas condolências à insegurança”. 

Em ‘Adios’, finalmente Clementine martela no piano à séria, com as suas mãos irrequietas É só ele num momento a solo. Parece possuído por uma cantora cabaret dentro de si, para cima de nós. Num conjunto de metamorfoses, vai de Diamanda Galás a Nina Simone inventando versos aportuguesados, até enumerar os festivais em que esteve por cá, Super Bock, Paredôs de Côra, num momento que tem mais de show-off do que musicalidade. 

O encore começa traiçoeiro, com o célebre tema ‘Won't Complain’, em que falha a amplificação do microfone no início. Repetir outra vez não é grande problema para Benjamin Clementine, que até gosta de desordenar as coisas. E se não for ele a desordenar, que o destino o faça. O artista inglês está de volta à intimidade do piano e à sua ginástica manual com dedos que saltitam pelas teclas como flamingos. A sua voz chegou ao momento da montanha russa que repete o trajeto multivocal em ‘Cornersotne’.

No Hipódromo Manuel Possolo, atuou antes a portuguesa Rita Vian, uma das muitas fãs de Benjamin Clementine no recinto cascaense, mas com direito a fazer a primeira parte no palco Ageas. Ao seu lado, a artista portuguesa teve um porta-aviões de programações e beats e o apoio excecional da guitarra acústica no tema Ir Embora, que nao é bem um fado, é uma coisa dela. Aliás, fazer coisas muito dela é com a Rita Vian, que de joelhos rappa e canta numa hibridez complexa de música tradicional, electrónica e pop.