Benson Boone no NOS Alive: foi uma espécie de magia

Foi a estreia do norte-americano em Portugal. Boone brilhou à frente de milhares ao início da noite no recinto de Algés.

Benson Boone, de 23 anos, estreou-se esta noite em Portugal. Eram sete e meia da noite quando o músico norte-americano surgiu, com ar triunfante e um dos braços erguido aos céus, no palco NOS. O triunfo na entrada já era previsível. Foi debaixo dos gritos dos milhares de booners que ali estavam. Eufóricos, irrequietos, esperavam pelo homem - Mr. Electric Boone - do momento. 

A ascensão meteórica do jovem de Washington, que por vezes parece ter apanhado o próprio desprevenido, parece-nos tão justa como os fatos de macaco (por norma brilhantes) que veste para subir ao palco. Hoje, porém, Boone decidiu vestir algo mais casual. Escolheu uma t-shirt às riscas, umas calças à boca de sino azuis sem prescindir de uns óculos de sol, com um toque retro, que ia colocando em momentos pontuais do concerto.

Em certas ocasiões, o norte-americano até personaliza os fatos com a bandeira do país que o acolhe - como se quisesse vestir a camisola de quem o recebe - mas hoje, por razões de força maior, optou por levar para o palco algo mais confortável. Contou-nos Boone que ontem apanhou um escaldão na praia e que por essa razão teve de arranjar uma alternativa estilística. "Hoje vim mais coberto porque pareço uma lagosta", confidenciou-nos, com o humor que o define.  

Boone é o homem do momento, mas sem que no efémero se extinga. Bem sabemos que o insondável futuro ao futuro pertence, mas este rapaz soa-nos a longevidade. 

No artista de mão-cheia que é concentra uma mistura respeitável e eclética de influências. De Queen a Sam Smith. De Adele a Billy Joel. De Aretha Franklin a Elvis Presley. De Stevie Wonder a Shawn Mendes. De Bruce Springsteen a Jon Bellion.

É rapaz para interromper concertos se vir uma ex-namorada na plateia, o que já aconteceu, mas também já tem estatuto para cantar 'Bohemian Rhapsody' - a intangível obra-prima dos Queen - ao lado de Brian May, o histórico guitarrista do grupo inglês. Fê-lo em Coachella este ano, ousando até começar a versão sentado ao piano e coberto por um manto real, tal como em tempos fez o também intangível Freddie Mercury, a quem nesse concerto Boone prestou um honesto tributo, fazendo-lhe justiça. 

Já lhe conhecíamos a capacidade vocal e a garra confiante quando, em 2021, impressionou nas audições do programa "American Idol", uma breve aventura televisiva da qual desistiu. Diz ele porque não estava a sentir a vibe do concurso. A textura artística de que é feito expandiu-se para dois álbuns e, pelo que vimos esta noite, para a absoluta legitimidade de poder reclamar a presença em palcos gigantes. Comanda, com magnetismo e energia inesgotável, multidões. E a forma como o faz evoca, com respeito, os grandes. 

O energético 'Sorry I'm Here for Someone Else' (do mais recente "American Heart") abriu o espetáculo. Se fosse preciso, a forte saudação de Boone a Portugal quebraria o gelo de qualquer primeiro encontro. Mas não foi. A euforia já pairava no ar mesmo antes de Boone entrar.
 
Foi também logo no primeiro tema que assistimos à primeira acrobacia: um mortal - proeza recorrente e que, por norma, é olimpicamente segura na aterragem.

Boone corre pelo palco, aponta para o público, mete a mão ao peito e renova-se a cada canção sem perder o fôlego. Tem sangue de showman é certo, mas o foco primordial que preserva como artista está nas canções. Estima-as acima de tudo. As canções e as histórias de cada uma que também são as histórias e as emoções que vive, que viveu. Honra-as e, sempre que pode, dá-lhes contexto ao vivo.   

Estima as canções e estima quem as escuta, sendo palpável a conexão que mantém com o público do início ao fim do concerto.  

Em 'I Wanna Be the One You Call', outra que foi buscar ao álbum que anda a promover na estrada, já estava no meio dos que estavam à frente do palco NOS. Cantoria em uníssono naquela zona do recinto. 

"Como estão?", pergunta Boone a Algés. "O meu nome é Benson Boone e é um prazer e uma honra estar aqui. É a minha primeira vez em Lisboa", disse a todos, gabando depois os lugares que visitou nos últimos dias. "Não costumo ter tempo livre, mas tive quatro dias livres. E este sítio é lindo! Onde quer que a gente vá. E as pessoas são lindas. Por onde passei só ouvia, obrigado, obrigado, obrigado. Adoro-vos. Adoro este sítio e quero voltar. Obrigado por me receberem", rematou antes de entregar a voz a 'Drunk In My Mind', do álbum de estreia "Fireworks & Rollerblades".

Em 'There She Goes' aproxima-se ainda mais do público que tem à frente. Sorri, aponta e interage com os booners mais entusiasmados que reagem com euforia redobrada. Transição subtil ao piano para 'Slow It Down'. O coro em Algés acompanha. E nem sempre é fácil acompanhá-lo. Boone é o tipo de artista que expande a voz do palco aos céus e, abençoado pela versatilidade vocal, chega a todos os cantos das canções. 

'Mr. Electric Blue', canção que compôs para o pai, foi um dos temas que mereceram contexto. "Não sei se todos sabem. Alguns devem saber. Mas lancei um álbum há umas semanas. O disco tem uma canção da qual gosto mesmo muito. Até fiz um vídeo para esse tema. É sobre alguém que é muito importante para mim. É o meu pai. Espero que gostem tanto quanto eu", disse, dedicando-se depois à canção.   

O toque pop retro de 'Mystical Magical' eletrifica todos no recinto e 'Man In Me' continua a energizar tudo e todos, acabando com um suave ‘obrigado’ dito ao piano. 

Após um momento de troca de habilidades vocais com o público, Boone lembra a bisavó que perdeu e que é também a dona do piano onde costuma compor. O músico começa a balada 'In The Stars', com solenidade, ao piano. É a canção que o ajudou a caminhar pelo luto e pela dor lancinante e universal da perda. É nesta altura que desabafa sobre a dor e reflete sobre o quanto a perda pode ser unificadora. Pede para que se guardem os telemóveis.

“Vamos ter um momento nosso. Guardem os telemóveis nos bolsos”, disse antes de devolver um ‘amo-te também’ a alguém que se manifestou com afeto da plateia. No final, um elogio: "já agora quero dizer-vos que este foi o festival em que vi menos telefones. Obrigado".

Seguiram-se 'Take Me Home', 'Pretty Slowly' e 'Young American Heart' que Boone diz ter sido a primeira do novo álbum a ser composta. "Foi a inspiração para tudo o resto", contou-nos.

'Cry' sai pelas vozes dos milhares que fizeram de Algés o lugar da benéfica e salutar catarse. 'Beautiful Things', que ficou para o final, solta o espírito rock de que Boone também é feito. É nesta altura que o norte-americano salta para junto do público e corre pelos corredores na plateia para tentar chegar a todos. Sai com travo a glória na estreia e deixa a multidão a ferver para o resto da noite.  

"Obrigado por me receberem e por me terem deixado tocar. Foram maravilhosos. Têm um país lindo", disse no final. 

Antes outra estreia, a de Mark Ambor 

A estreia de Mark Ambor em Portugal foi no palco NOS do festival que “ocupa” o Passeio Marítimo de Algés desde 2007, ano em que Mark, hoje com 27 anos, tinha apenas 9. 

Talento fresco, simplicidade e otimismo abriram o palco maior do festival. Amparado por uma banda cúmplice, como disse "os meus amigos" e pelos muitos que já estavam no recinto, o norte-americano escolheu Algés para estrear o tema 'Closer To Me'. E essa foi a primeira surpresa porque, mais perto do final, cantou uma versão mais intimista de 'Use Somebody', dos Kings Of Leon, uma das baixas da edição deste ano do festival. Cantou-a como se estivesse em casa, numa roda de amigos.

Mark Ambor diz que a música é a forma que encontra para processar a vida e isso sente-se na forma como se entrega aos concertos e às canções. De sorriso aberto, com a guitarra nos braços e no final agarrado o seu estimado ukelele, ofereceu a Algés 16 temas, entre os quais 'I Hope It All Works Out', 'Academy Street', 'Company', 'Our Way', 'Hate That I Still Love You', 'Our Song', 'The Long Way,' 'Hair Toss Arms Crossed', 'Waves', 'Curls in the Wind', 'Tomorrow', 'Who Knows' e 'Good to Be'.

"Vim de uma cidade pequena de Nova Iorque e estar aqui significa mais para mim do que podem imaginar", confidenciou-nos, soltando também elogios a Lisboa.

O final foi ao som do celebrativo 'Belong Together'. Um brinde à vida e ao amor e o hit que lhe abriu as portas da famosa Billboard Hot 100. Há um caminho para Mark Ambor e esperamos que volte em breve. Vontade que, de resto, Mark expressou aos que o sentiram em Algés.