Best Youth: "os convidados vão puxar-nos" para os extremos

Dupla nacional atua no Tivoli, em Lisboa, nesta quarta-feira, e na Casa da Música, no Porto, a 2 de outubro, com reforços de peso.

A intimidade musical entre os dois membros dos Best Youth - a cantora Catarina Salinas e o guitarrista Eduardo Rocha Gonçalves - vai ser abanada nos concertos que se avizinham nas duas maiores cidades do país, Lisboa e Porto. A culpa será de Marisa Liz (a convidada do concerto no Teatro Tivoli, na capital) e de Legendary Tigerman, Moullinex e Wolf Manhattan (o contingente de peso presente na Casa da Música, na Invicta).

A suavidade eletrónica do álbum “Everywhen” vai ser posta à prova nas experiências sensoriais de dia 25, no Tivoli, e de 2 de outubro, na Casa da Música. Kate e Ed explicam-nos tudo, nesta entrevista.  

Como vão ser os concertos?
Ed [Eduardo Rocha Gonçalves] – Temos tocado bastante o disco “Everywhen”, que lançámos no início do ano. E como os concertos que fizemos no início do ano esgotaram rapidíssimo, decidimos voltar a celebrar o álbum no Porto em Lisboa de uma forma especial. Ao conseguir criar uma espécie de universo imagético e sonoro para este nosso disco, achamos que uma forma engraçada de o celebrar era convidar pessoas de diferentes quadrantes da música que em Portugal nós admiramos. Fomos buscar a Marisa [Liz] à pop, o [Legendary] Tigerman e o Wolf Manhattan ao rock e o Moullinex à dança, que são quadrantes com que nós nos identificamos. Sentimos que isso ia ser uma forma engraçada de nós próprios até testarmos o universo que criamos, para ver se é permeável à influência externa e de que forma isso se vai resolver. Acho que vão ser noites muito engraçadas, tanto para nós, como para o público e para os convidados. 

Vocês falaram também da imagem, da intervenção de imagem. O que é que o público pode esperar dessa componente de imagem nesses espetáculos?
Kate [Catarina Salinas] - São tudo imagens pensadas para deixar o público se levar para o lugar que nós esperemos que seja o “Everywhen”. Portanto, são imagens relativamente abstratas. Queremos fazer com que os palcos, nomeadamente no Tivoli e na Casa da Música sejam experiências mais imersivas do “Everywhen”. 

Best Youth

O que é que acham que cada um dos convidados pode trazer de valia para o vosso espetáculo? 
Ed - Eu e a Catarina já fazemos música juntos há 20 anos e, como Best Youth, há mais de uma década. E uma coisa que está sempre presente em nós é que vimos de universos bastante diferentes, a nível musical. E a música que nós fazemos tem sido sempre uma mediação entre o meu gosto e o da Kate. 
Kate - Já temos tudo muito alinhavado e interiorizado. 
Ed – É um yin-yang, há sempre um equilíbrio no meio. Então, o que eu acho que é engraçado nesta questão dos convidados é de repente haver forças exteriores que nos obrigam a desequilibrar para um lado. Nós temos uma componente mais dançante na nossa música. É engraçado ver essas forças a atraírem-nos para sítios que, no nosso balanço, se calhar somos mais comedidos. Acho que é isso que sinto que os convidados vão acrescentar. 
Kate – Temos quatro convidados que nos puxam para todos os universos de onde nós viemos, ou das nossas influências. Por exemplo, eu sou mais inclinada para a pop, para o blues e para o jazz; o Ed é mais talhado para o rock, para a dança, para a eletrónica. De repente, tens o Moullinex, o Legendary Tigerman, a Marisa e o Wolf Manhattan, e, de repente, estão todos os pontinhos desse espectro representados - e mais do que bem representados. É um desafio transportarmo-nos um bocadinho mais para esse mundo, que nós, em Best Youth, marinamos mais e misturamos mais um bocado. De repente, somos puxados para nos dobrarmos para um mundo que não é tanto o nosso, mas que também nos pertence. 
Ed – Deixamo-nos ir. Por exemplo, vamos tocar a música que fizemos juntamente com o Tigerman, o ‘New Love’, do disco novo dele [“Zeitgeist”], que é como ter uma autorização por escrito para ligar a distorção da guitarra, que é uma coisa que muitas vezes não ligo com tanta ênfase nos nossos concertos.

Best Youth

O ciclo ao vivo do “Everywhen” é para continuar no próximo ano?
Kate - Esta questão também de que um álbum sai e depois tem ali uma roda viva de um ano e depois de repente já não pode ser representado ou já não pode ser tocado, acho que é uma postura que também pode e deveria de certa forma começar a mudar, porque um álbum, quando um músico põe um trabalho cá fora, é eterno, não é? Quero acreditar que podemos continuar a tocar o “Everyone”. Eu e o Ed também temos muita vontade de o tocar. 

Até porque o próprio disco vai maturando ao vivo.
Kate - Sim, nós, na experiência ao vivo, vamos transformando as músicas um pouco. Como nós somos uma banda de dois e apoiamo-nos muito nos ‘backing tracks’, estamos a tentar pôr a coisa o mais orgânica possível. À medida que o álbum vai crescendo em nós, também vai crescendo no público, essa transformação também vai continuar. Portanto, é giro e acho interessante acompanhar o trabalho de um artista durante mais tempo para também sentir essa evolução. 

A vossa cumplicidade mantém-se ainda tão viva, não é? 
Ed - A verdade é que a música tem um poder muito especial nas pessoas. E eu acho que às vezes nós, coletivamente, com a aceleração do mundo e das coisas, esquecemo-nos um bocadinho disso. Nós encontramos alguém, para quem trabalha em música, encontramos alguém com quem nos entendemos na linguagem musical e com quem nos entendemos a um nível humano. É uma ligação que é muito difícil de descrever, porque ter uma banda é como ter uma relação. E só quem tem uma banda ou um projeto desta intensidade é que entende as emoções e a turbulência que lá se passam. Ou seja, fazer música com outras pessoas é uma relação que se cria. É uma emoção muito complexa, por isso. 

Como está o vosso laboratório criativo? 
Ed - O laboratório criativo está sempre aqui montado. Nós somos uma banda um bocadinho operária, no sentido em que vamos todos os dias para a fábrica. Nem sempre saem coisas que se aproveitem, mas o importante é praticar-se todos os dias. Por isso, estamos constantemente a imaginar o que vem aí e a compor e a criar coisas novas. Por isso, eu acho que o mundo mudou muito em termos dessas expectativas de círculos e acho que já não funciona como funcionava antigamente, que é tipo: uma banda lança um disco e depois toca-o, e depois desaparece; e depois lança um disco e toca-o e desaparece. Isso, para o bem e para o mal, já não é um ciclo que funcione. Só acho que, acima de tudo, mesmo para nós, temos que nos manter cativados - e o público também. Hoje em dia, temos uma visão disto como os períodos criativos dos pintores renascentistas e das várias fases da história da pintura. Nós agora estamos na nossa fase “Everywhen”. A seguir virá outra fase. 

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