Björk lançou o seu álbum de estreia há 30 anos

Artista islandesa levou a alma à eletrónica, com um exotismo sem paralelo.

Há exatamente 30 anos, a 5 de julho de 1993, Björk lançava o álbum "Debut", que marcou a cronologia musical dos anos 90, com um impacto que se está a tornar intemporal. 1993 é já meramente o ano da sua publicação, porque o disco tem tido a maleabilidade de se destacar do período em que foi revelado ao mundo, com uma frescura que se mantém hoje, sempre que ouvido e redescoberto.

Antes de "Debut", Björk tinha já um passaporte com muitos carimbos, à custa da carreira internacional da banda rock islandesa Sugarcubes no mundo indie e dos grandes festivais de verão.

Mas para Björk, "Debut" é o verdadeiro ponto de partida do seu caminho individual. A nível pessoal, o disco representa o início da sua vivência fora da Islândia, a residir em Londres, quase uma capital do mundo, e um aglomerado dos grandes artistas e produtores em poucos quilómetros quadrados. Ali, tinha todo um capital humano para poder melhor desenvolver as suas ideias artísticas e iniciar uma profissionalização a sério.

A nível musical e artístico, "Debut" simboliza a sua autonomia em nome próprio. O álbum homónimo lançado com 11 anos de idade não conta para este campeonato sénior, porque nessa altura Björk era apenas uma criança cuja graça musical era manipulada por adultos. Depois, os projetos em que se envolveu na adolescência e no início de vida adulta eram mais movimentos artísticos que faziam também música do que propriamente bandas a sério. Os Sugarcubes, acidentalmente, foram empurrados para um trajeto internacional e para um fenómeno de culto que não coube só na Islândia. E então, não havia como não reparar no talento em bruto da cantora Björk.

O primeiro álbum em que pôde planear e decidir como uma verdadeira criadora musical foi de facto "Debut". Chamou um homem de Bristol, Nellee Hooper, para a produção, e gravou um conjunto fortíssimo de músicas em que levou a alma e toda a carga humana de um só ser para a eletrónica de uma forma rara. Não desperdiçou o seu canto invulgar e carismático em pretensiosismos e coloriu-se de irreverência e de empatia. 

O mundo apaixonou-se rapidamente por Björk. A cantora islandesa entrou-nos pelas casas adentro com aquele ar de menina, no videoclipe de 'Human Behaviour'. O teledisco é realizado pelo cineasta francês Michel Gondry, sobre um urso que ataca um caçador. A promo de 'Human Behaviour', de apoio à natureza animal, inaugura uma videografia exemplar de Björk, que foi atraindo alguns dos maiores cineastas ou videastas, como Spike Jonze ou Chris Cunningham.

 

Os anos ao vivo do álbum “Debut”, em 1993 e 1994, correspondem ao período mais eufórico da carreira de Björk. A cantora nórdica saltitava pelo palco todo, ora com os seus cabelos presos em carrapitos, ora com os seus cabelos escuros mais desgovernados, descalça e de vestido amarelo veraneante.

Em pouco mais de um ano, Björk tocou nos quatro cantos do mundo, e atuou nos maiores festivais de Verão da Europa. E ainda passou pelo então afamado MTV Unglugged. À singularidade das suas interpretações e à frescura da sua pop electrónica, Björk contou ainda nessa actuação acústica com uma panóplia instrumental igualmente exótica que incluía batucada oriental ou a vibração em copos de água cheios.

A cantora com ar de esquimó estava mais famosa que o seu próprio país, a Islândia. O disco “Debut” abriu-lhe portas, com presença massiva nas listas de melhores álbum do ano de 1993. Depois, foi largando o otimismo expansivo e foi desenvolvendo um maior intimismo, numa discografia subsequente de peso - "Post" (de 1995) ou "Vespertine" (de 2001) são incontornáveis - que confirmou o estatuto de cantora universal.