"Boa Noite, Mãe". E se a morte for a primeira decisão de uma mulher?
A peça encenada por Miguel Maia lança uma pergunta incómoda: quando começa uma mulher a decidir a própria vida?
Não há grande preparação para a notícia que Jessie dá à mãe: naquela noite vai suicidar-se.
A partir desse instante, “Boa Noite, Mãe”, peça da dramaturga norte-americana Marsha Norman, transforma uma noite aparentemente banal num acerto de contas entre duas mulheres. Uma mãe e uma filha confrontam-se com décadas de dependência, ressentimentos, relações familiares mal resolvidas e com as marcas deixadas pelos homens que atravessaram as suas vidas.
Foi a qualidade da escrita que levou Miguel Maia a querer encenar o texto. Embora reconheça a sua estrutura “bastante convencional” e fortemente marcada pela catarse, o encenador encontrou na peça uma questão que vai muito além do melodrama: a agência feminina.
Jessie passou a vida sem conseguir exercer plenamente essa autonomia. Vive com a mãe, numa relação de dependência mútua e infantilizada. E é precisamente quando a sua condição física melhora, depois de anos marcada pela epilepsia, que reúne as condições psicológicas para tomar uma decisão.
O paradoxo é brutal: pela primeira vez sente que pode decidir sobre a própria vida decide terminá-la.
É neste paradoxo que Miguel Maia encontra uma das maiores forças do texto.
Não deixar que a emoção pense pelo espectador
O desafio da encenação foi evitar que a intensidade emocional da história conduzisse o espetáculo apenas para o sentimentalismo.
“Boa Noite, Mãe” tem uma arquitetura dramática particularmente eficaz. As duas mulheres aproximam-se e afastam-se sucessivamente, revelando histórias, feridas e segredos. Falam do pai, do ex-marido, do filho, do irmão. Falam, sobretudo, das vidas que poderiam ter tido.
Para Miguel Maia, era essencial que o público não visse apenas duas mulheres perante uma tragédia iminente. Era preciso perceber como chegaram até ali.
A pergunta deixa então de ser apenas “por que quer Jessie morrer?” e passa a ser “que sociedade, que família e que relações contribuíram para que esta mulher chegasse a este ponto?”.
A encenação trabalha precisamente essa distância entre sentir e pensar.
Uma casa que já não é uma casa
Essa intenção está também presente na cenografia de Nuno Tomás.
Ao contrário das montagens mais naturalistas da peça, que habitualmente reproduzem uma casa, uma cozinha ou uma sala, a proposta da Companhia Cepa Torta cria um espaço fragmentado, composto por elementos geométricos distribuídos de forma aparentemente caótica. A casa torna-se quase um obstáculo entre as personagens.
A interpretação de Lucinda Loureiro e Inês Rosado procura o naturalismo, mas o espaço é estranho, desconcertante, quase absurdo. O contraste permite que o público se emocione sem ficar preso à emoção.
A tragédia acontece dentro de uma casa, mas a encenação quer que se veja também aquilo que existe para lá das paredes dessa casa.
Uma história americana que podia acontecer aqui
Escrita nos Estados Unidos nos anos 1980, a peça está cheia de referências culturais específicas. Na adaptação portuguesa, Miguel Maia procurou neutralizar essas marcas sem apagar a identidade do texto.
Alguns alimentos e instituições foram substituídos por referências mais próximas da realidade portuguesa — os cupcakes deram lugar a bolinhos de coco e o Exército de Salvação à Misericórdia.
Mais do que localizar a história em Portugal, a intenção foi torná-la universal.
Porque a relação entre mãe e filha, a dependência, a pressão familiar e a dificuldade de exercer autonomia não pertencem a um único país ou a uma determinada época.
A escuta como ponto de encontro
É justamente aqui que “Boa Noite, Mãe” encontra o percurso da Companhia CepaTorta.
Miguel Maia trabalha habitualmente em processos de criação construídos com os atores, a partir de temas, textos e experiências diversas. Desta vez, parte de uma obra dramatúrgica já escrita. Mas descobriu uma ligação essencial entre o espetáculo e o trabalho desenvolvido pela companhia com comunidades, escolas e territórios como Mértola e a Mina de São Domingos.
Essa ligação chama-se escuta.
No palco, mãe e filha passam uma noite inteira a tentar ouvir-se. Nos projetos da companhia, a escuta também é o ponto de partida: perceber o que cada pessoa ou comunidade tem para dizer e encontrar uma forma de levar essa voz para a cena.
O processo de ensaios, com Lucinda Loureiro, Inês Rosado e a assistência de encenação de Teresa Vaz, foi também marcado por essa abertura à descoberta. As atrizes desafiaram leituras iniciais, propuseram outras possibilidades e fizeram emergir sentidos que estavam no texto, mas que ainda não tinham sido encontrados.
Estreia nos dias 25 a 27 de setembro de 2026, Centro Cultural Malaposta (Odivelas).
