Bob Marley, o homem que tornou o mundo melhor
Lenda do reggae morreu há 40 anos, a 11 de maio de 1981.
Bob Marley morreu a 11 de maio de 1981, com apenas 36 anos de idade, vítima de cancro. Foi uma vida curta mas muito vivida, que deixa no reggae uma obra tão volumosa, quanto impactante.
Contamos a história deste ícone global através de 12 curiosidades.
1. Pele menos escura
Bob Marley nasceu nas montanhas da Jamaica em 1945, quando a ilha caribenha era ainda uma colónia britânica. O músico cresceu num vilarejo isolado, sem energia eléctrica. Bob Marley destacava-se na terra por ser mais claro que os conterrâneos. O cantor era filho de um militar inglês branco, bastante mais velho que a sua mãe (jamaicana) e que Bob Marley mal conheceu.
2. O berço musical em Trench Town
Aos 12 anos, Bob Marley foi viver com a mãe para a capital jamaicana, Kingston, nas favelas de Trench Town. Foi nesse autêntico viveiro musical que Bob Marley cedo ganhou vontade para se tornar cantor, tendo feito as suas primeiras gravações logo aos 17 anos. Bem cedo, Bob Marley começou a tocar com alguns dos futuros Wailers como Bunny Wailer e Peter Tosh e foi nesse ambiente que conheceu a sua futura mulher, Rita.
Mesmo que a sua música não passasse nas rádios, os Wailers era um fenómeno nos dance halls. A banda começou a ter alguns êxitos locais nos anos 60 e a sua música começou a ganhar fama em soundsystems e em jukeboxs da ilha. Depois, Bob Marley teria a sua grande inspiração no trabalho com o produtor Lee Scratch Perry, cuja criatividade e excitação eram bem evidentes em estúdio.
Com um novo riff repetitivo de guitarra e a orgânica à base de bateria e baixo, Bob Marley estava pronto a tornar-se no grande ícone de um novo estilo jamaicano: o reggae.
3. Chris Blackwell, o editor que só teve olhos para Bob Marley mas a visão de todo o mundo
Em 1973, Bob Marley e os Wailers iriam conhecer o produtor e editor que iria mudar para sempre as sua vidas e também da música. Esse homem era Chris Blackwell, o homem forte da Island Records. "Catch a Fire", de 1973, tornou-se o primeiro álbum de Bob Marley com o selo desta editora.
Com o dedo e visão de Chris Blackwell, o som da música de Bob Marley foi limado ao gosto ocidental, para fazer do cantor uma estrela mundial. A fé de Blackwell no carisma de Bob Marley era total. Mas a forma como Blackwell tratava a banda não foi apreciada pelos velhos companheiros de Marley, como Bunny Wailer e Peter Tosh. Estes dois decidiram abandonar os Wailers depois dos álbuns de 1973, "Catch a Fire" e "Burnin'".
4. A paixão pelo futebol
Quando Marley começou a enriquecer, mudou-se para a zona nobre de Kingston, ao lado das residências dos políticos do país. Levou consigo os seus amigos rastafaris para as suas cavaqueiras. A fina Hope Road passava a fumegar de erva e tornava-se um campo de futebol improvisado onde Bob Marley jogava com os amigos, junto daquelas vivendas.
Quando se deslocou ao Brasil em março de 1980, chegou a jogar com Chico Buarque, outro músico que estava sempre a marcar partidas de futebol nas folgas das digressões. O jogo que juntou num relvado carioca Marley e Buarque teve outros participantes ilustres como o cantor Toquinho ou o futebolista do meio-campo ofensivo Caju, que fez parte do Escrete brasileiro de 1970 que se tornou tricampeão do mundo e que o que rei do reggae tanto idolatrava. Jogaram todos pela mesma equipa contra a formação onde alinhou Alceu Valença. A equipa de Bob Marley venceu por 3-0, com um dos golos a ser marcado por Chico Buarque.
Mas o desporto-rei está também ligado a uma má memória. Foi numa partida de futebol em 1977 que Bob Marley fez uma infecção no pé que foi resistindo até se descobrir que era um melamona. Os bons médicos recomendaram-lhe a amputação do dedo maior do pé. Mas Bob Marley, que teve medo de deixar de jogar futebol e de dançar. Só quis ouvir um médico que preferiu fazer-lhe um corte menor.
Em termos clubísticos, Bob Marley tinha uma predileção pelo emblema londrino do Tottenham.
5. Alvo de tentativa de assassinato
Em 1976, nos ensaios para um concerto gratuito em Kingston, Bob Marley é alvo de uma tentativa de homicídio de uma milícia na sua casa de Hope Road, tendo sido baleado no braço esquerdo. Milagrosamente, ninguém morreu nesse raide. E o concerto foi para a frente, diante de 80 mil pessoas. Bob Marley não teve medo e subiu a palco para uma das atuações mais acaloradas da sua carreira. Mas o episódio dos tiros levou Bob Marley a ir viver para Londres em 1977.
O livro de Marlon James, "A Brief History of Seven Killings", premiado em 2015 com o Man Booker Prize, assenta nessa tentativa de assassinato de Bob Marley. A obra centra-se no tráfego de droga, desde o consumo de erva na capital jamaicana nos anos 70 à expansão do crack nos Estados Unidos nos anos 80, numa dispersão de histórias sobre violência entre gangues, passadores e agentes policiais.
Bob Marley nunca foi muito explícito sobre o incidente do baleamento de que foi alvo.
6. Homem pela paz
Bob Marley regressa à Jamaica em 1978 como um autêntico salvador num país em guerra entre milícias nas ruas. O músico dá um concerto em Kingston pela paz, repleto de energia... tanta energia que conseguiu juntar em palco os políticos rivais Michael Manley e Edward Seaga.
Esse momento é visível a partir dos 21:30 neste vídeo em baixo.
7. Rastafari
Foi em Trench Town que Bob Marley se tornou um rastafari, a crença religiosa cristã sacralizada pelo fumo de erva e pelas tranças capilares e que tem em África a Terra Prometida. O imperador etíope Haile Selassie era o rei dos reis, o Deus na Terra, epicentro de tantas músicas de Marley. O culto rastafari influenciou desde sempre a sua música, conhecida pelo seu cunho espiritual. A mensagem era positiva e esperançosa, crente num futuro melhor.
8. Mulherengo
A poligamia não era pecado e Bob Marley vivia numa espécie de Harém. Foi tendo várias mulheres, além da sua esposa Rita Marley, e uma catrefada de filhos, 11 ao todo. Um deles era Damian Marley, o filho que Bob Marley teve com a Miss Jamaica e Miss Mundo, Cindy Breakspeare.
9. Idas a África
As digressões de Bob Marley tornavam-se missões evangélicas. Até 1979, Bob Marley já tinha corrido os quatro cantos do mundo, mas faltava-lhe a desejada África. Em 1980, o cantor toca finalmente no desejado continente, na Nigéria e no Gabão. Meses mais tarde, dá um concerto na cerimónia da fundação do Estado do Zimbabwe, que deixava de se chamar Rodésia.
Em 1979, Bob Marley já cantava pela libertação de Zimbabwe do poder racial branco, no álbum militante "Survival".
10. Portugal de fora do circuito ao vivo de Marley
Em 1980 e anos anteriores, Bob Marley atuou em todo o mundo - atuou mesmo nos cinco continentes - enquanto que Portugal já ia recebendo alguns nomes conceituados - desde Peter Gabriel a Police, de Ramones a Mike Oldfield. Mas a lenda do reggae nunca pisaria palcos nacionais. O mais próximo de Portugal que Marley e os seus Wailers estiveram foi a 30 de junho de 1980 na Plaza de Toros Monumental, em Barcelona. 900 pesetas era o preço dos bilhetes que 18 mil felizardos conseguiram comprar.
11. Os meses finais
Depois de duas noites memoráveis em que esgotou o Madison Square Garden, em Nova Iorque, em setembro de 1980, Bob Marley estava a fazer jogging no Central Park, quando caiu e se sentiu mal. No hospital, ficou a saber que tinha um cancro espalhado por todo o corpo.
Quando dá um concerto na cidade norte-americana de Pittsburgh, a 23 de setembro de 1980, Bob Marley e a sua banda sabiam que ia ser o último.
A quimioterapia levou-lhe as rastas do cabelo, uma a uma. Mas os programas médicos não resultaram. O coração de Bob Marley parou de dançar a 11 de Maio de 1981, em Miami. O cantor tinha 36 anos e teve direito a um dos maiores funerais de que há memória na Jamaica.
12. Primavera Árabe
Um dos slogans usados para o início da Primavera Árabe na Tunísia, em 2011, foi o da música de Bob Marley, 'Get Up, Stand Up'.
