Bragança: Pastores reclamam pagamentos atempados face a ataques de lobos
Pastores e produtores de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro manifestaram desagrado com frases em 't-shirts' pretas como "Lobos protegidos, produtores falidos" ou "Vamos salvar o planalto".
Mais de meia centena de pastores do Planalto Mirandês manifestaram-se hoje no Naso, em Miranda do Douro, reclamando ao Governo pagamentos atempados devido aos ataques de lobos que têm acontecido nos últimos anos neste território transmontano.
Pastores e produtores pecuários dos concelhos de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, no distrito de Bragança, vestiam ‘t-shirts’ pretas com frases que diziam “Lobos protegidos, produtores falidos” ou “Vamos salvar o planalto”.
Mostravam também cartazes com fotografias onde se podia ver o “caos e prejuízos” provocados pelas investidas dos lobos, em alguns pontos do norte do país, em que mataram pequenos ruminantes e animais de grande porte como cavalos ou bovinos.
“Aquilo que é pago pelo Governo não cobre os prejuízos causados pelos ataques de lobos aos rebanhos ou outros animais como vitelos. Quando pagam demoram muito tempo, em alguns casos mais de um ano e todos nós nos queixamos”, disse José Pinto, um dos manifestantes que veio de Ifanes, no concelho de Miranda do Douro.
Já Manuel Rodrigues, outro dos pastores do concelho de Miranda do Douro que se mostravam revoltados devido aos prejuízos constantes nas explorações devido aos ataques de lobos, disse que ninguém os ouve.
“Já tive dois ataques de lobos na minha exploração pecuária, e comeram-me dois vitelos e fiquei com o prejuízo. Até agora ainda ninguém me pagou nada, apesar de ter participado ao ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e Florestas] e nada. Já vai para dois anos”, disse.
Já Alcino Antão, um pastor de Genísio, Miranda do Douro, contou que teve um ataque de lobos onde lhe foram mortas 12 ovelhas e 10 ficaram feridas há cerca de um ano.
“No tratamento das ovelhas feridas gastei mais de 500 euros em medicamentos e não recebi nada. Nem das ovelhas mortas, nem das feridas apesar de ter contactado o ICNF e outros organismos públicos. Ficou o prejuízo”, sublinhou.
Durante a ronda feita pelo recinto da feira do Naso, o sentimento de "impotência" dos pastores era geral, face "aos sistemáticos" ataques dos lobos às suas explorações do Planalto Mirandês, nos últimos três anos.
O vice-presidente da Câmara de Miranda do Douro, Nuno Rodrigues, que é também produtor pecuário esteve junto dos manifestantes sendo da opinião de que o “Programa Alcateia” terá de ser revisto, para não haver tantos condicionalismos no pagamento das indemnizações e nas exigências impostas aos pastores para protegerem os seus gados.
“A questão das cercas nas propriedades agropecuárias é também um elemento fundamental, porque é preciso dar mais tempo aos pastores para montarem estas estruturas, mas também é preciso mais apoios porque são investimentos dispendiosos. Os cães de gado também terão de ser revistos, porque são animais que têm de ser alimentados e quem tiver dois ou três destes animais de guarda tem despesas”, destacou.
Quem também se mostrou solidário com o pastor do Planalto Mirandês foi a União dos Produtores de Gado Lesados pelo Lobo, que se juntou aos manifestantes locais, cujo porta-voz, Orlando Gonçalves, disse que um pouco por toda a região norte há ataques frequentes de lobos.
“Eu tenho uma exploração pecuária no Minho e recentemente fui brindado com um ataque de lobos, apesar de ter um muro com sete metros de altura e eles atacaram, tendo mortos 16 animais do melhor que tenho. Os frequentes ataques de lobos podem levar ao desaparecimento de algumas espécies de ovinos, como é o caso da Churra do Minho”, alertou.
Em outubro de 2025, pastores do Planalto Mirandês queixaram-se de que os ataques de lobos ocorridos desde o início desse ano foram "uma calamidade".
Segundo o ICNF, o lobo-ibérico é protegido em Portugal desde 1988. O facto de ser um animal em perigo confere-lhe o Estatuto de Espécie Protegida.
Existem diversas medidas de proteção da espécie, entre as quais se destacam indemnizações por danos causados pelo lobo-ibérico e projetos que apoiam os criadores de gado e incentivam medidas de proteção, como o uso de cães de gado de raças autóctones.
Em dezembro de 2025, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, anunciou que o Governo iria duplicar o valor das indemnizações pagas no caso de ataque de lobos, com retroativos desde início do ano, no âmbito do Programa Alcateia.
