Brett Anderson, dos Suede: "fomos nós que começámos o Britpop"
Concertos no Porto e em Lisboa são já nos dias 19 e 20 deste mês.
Os Suede vão trazer a Portugal o(s) seu(s) “Antidepressants”, o mui elogiado álbum de 2025, para levar em êxtase as salas Super Bock Arena, no Porto, e no Campo Pequeno, em Lisboa, com a ajuda extra e preciosa das velhas canções. Já não falta muito, o reencontro com o público português é já nos dias 19 e 20, respetivamente na Invicta e na capital.
Em conversa por Zoom com Brett Anderson, o carismático vocalista dos Suede é um cavalheiro, com uma visão tão lúcida quanto pertinente sobre a vida e sobre o ofício do rock & roll. Sem cair na fanfarronice infantil, não tem papas na língua no orgulho que tem em ser vocalista dos Suede. “Somos uma das melhores bandas ao vivo do mundo”, di-lo, mas justifica, sobretudo em palco. “Acho que começámos o Britpop”, di-lo, mas também justifica. E acrescenta: “a nossa essência inglesa era uma observação da Inglaterra, e as deles eram uma celebração da Inglaterra”.
Anos 90 bem medidos, o que é bom resiste. Os Suede continuam a suar em palcos. Há ainda muito público que os acha os 'Beautiful Ones', os 'Wild Ones', tal como nas suas canções do século passado.
O Brett Anderson é uma pessoa romântica?
Eu não estava à espera dessa pergunta logo para arranque da entrevista. Pensava que me ia perguntar sobre concertos em Portugal, como questão de abertura. Serei uma pessoa romântica? Acho que há muito romance na música dos Suede. Penso que muitas das canções, na sua essência, são românticas. Mesmo quando são bastante melancólicas, são românticas. Há um romantismo na melancolia em muitos aspetos. Portanto, sim, acho que há muitas canções nossas que são muito românticas, como ‘Sleeping Pills’ [do álbum de estreia de 1993, “Suede”]. Mesmo muitas das canções do Dog Man Star [o segundo álbum, de 1994]. É aquele tipo de cliché de romantismo condenado ao fracasso, não é?
Cria personagens nas suas letras ou há uma parte de si nessas mesmas letras?
Há sempre uma parte de mim nas letras. O nosso álbum anterior intitula-se “Autofiction”. A autoficção é um estilo literário que mistura ficção e realidade. Eu refleti bastante sobre isso. E acredito que toda a arte é autoficção. É impossível que seja 100% ficção, porque é preciso sempre colocar um pouco de nós mesmos nela, pelo simples facto de se estar a criar. Há sempre uma parte de mim nisto. Há sempre verdade, em menor ou maior grau. Por vezes é muito autobiográfico, outras vezes menos, é mais ficcionado. Mas acho que mesmo quando é menos real, há sempre verdade nisso.
Serão as canções deste último album ‘Life Is Endless, Life Is A Moment’ ou ‘Disintegrate’ sobre relações de amor impossíveis?
Não propriamente. Falam mais sobre a mortalidade e sobre a aceitação dessa mortalidade. Ambas as canções têm temas diferentes. Não tratam do mesmo tema, mas esse é o ponto de convergência. ‘Disintegrate’ trata muito mais de aceitar a própria mortalidade do que de ter medo dela. O álbum "Antidepressants” foi concebido como um memento mori. Para quem não saiba, o memento mori é um recurso utilizado na pintura. Geralmente, é a representação de uma caveira. Basicamente, significa literalmente uma recordação da morte. E uma recordação da morte não é necessariamente algo sombrio ou desolador. A ideia é que, ao sermos lembrados de que vamos morrer, somos tomados por um sentido de carpe diem. Sentimos que devemos tentar viver a vida em pleno. E a ideia do disco é essa, é suposto ser uma espécie de empoderamento, um memento mori.
‘Dancing with the Europeans’ é uma canção sobre a ausência da outra metade? O Brett canta sobre fantasmas, inspirado pelas digressões, por estar em digressão?
Não é propriamente uma canção de amor. É antes uma espécie de canção de amor pela conexão. Escrevi-a especificamente quando estávamos a dar um concerto e senti que era sobre um tipo de concerto que fizemos há alguns anos. Acho que, cada vez mais, a música oferece-me uma forma de me conectar com as pessoas. E acho que isso acontece com muita gente. Acho que é por isso que se tornou tão importante para as pessoas. A música ao vivo tornou-se uma indústria enorme, talvez até maior do que era antigamente. Acho que, de certa maneira, a indústria musical perdeu algum do seu brilho em termos de vendas de discos e tudo mais. Mas a música ao vivo continua a ser incrivelmente importante. E quando um concerto corre bem, especialmente um concerto dos Suede, existe uma ligação incrível com o público. Há uma espécie de ligação atávica que se tem com o público. E estou sempre a tentar criar e reproduzir essa ligação. E acho que, à medida que envelheço, consigo fazê-lo cada vez melhor. Portanto, sim, [‘Dancing with the Europeans’] é uma música sobre conexão.
Numa canção mais antiga vossa, 'Europe Is Our Playground', também tem a Europa em mente, mas essa canção parece ser um sonho, como uma utopia romântica. Concorda?
Talvez. Essa é uma música muito romântica em muitos sentidos. Perguntou na sua primeira pergunta sobre romantismo e esta é uma música muito romântica. Ela como que romantiza esta coisa de viajar pela Europa e, de certa forma, dá uma vaga sensação de algum tipo de caso amoroso, enquanto se viaja pelo continente. Portanto, é uma música muito romântica. ‘Dancing with the Europeans’ tem um tipo diferente de romantismo. É sobre conectar-se com um grupo de pessoas, conectar-se com a multidão. Penso que, à medida que nós, enquanto sociedade, mudamos e nos tornamos mais digitalizados, há uma tendência para acreditar que estamos mais conectados porque podemos falar com pessoas de diferentes países, acedendo ao Facebook, às redes sociais e tudo o resto. E acho que, de certa forma, isso oferece uma forma de ligação, mas é uma forma falsa de ligação. Penso que há aqui um paradoxo, à medida que nos tornamos mais conectados tornamo-nos menos conectados. A verdadeira ligação encontra-se a fazer coisas reais com pessoas reais, penso eu. Parecemos ter esquecido estas verdades ancestrais nos últimos 20 anos, porque, por arrogância, acreditamos ser mais sofisticados por termos alguns iPhones e afins, o que, na minha opinião, é pura ilusão. Penso que existem verdades ancestrais que precisamos de reaprender.
Uma das músicas de “Antidepressants”, 'The Sound And The Summer' fala sobre o amor na estrada. Talvez esta música tenha mais afinidades com ‘Europe Is Our Playground’, concorda?
É, é bem observado. É um tema muito semelhante, não é? ‘Europe Is Our Playground’ é uma versão mais suave e romântica. E "Sound of the Summer" é uma versão mais pesada e desesperada, mas é a mesma coisa. Estamos a viajar. Há um tema de viagem. No ‘Europe Is Our Playground’, tudo acaba bem. 'Sound of the Summer' acaba um pouco mais conturbado e talvez não tenha um final tão feliz. Mas sim, diria que são temas muito semelhantes. Eu não tinha pensado nisso antes. Muito bem observado.
Porque é que canta tanto sobre medicação neste último álbum?
Acho fascinante a questão dos medicamentos. Vivemos numa sociedade medicada em excesso, e acreditamos, enquanto sociedade, que podemos controlar mais do que realmente podemos. Há sempre uma tendência para acreditar que os seres humanos são como peças previsíveis que podem ser simplesmente manipuladas, como zeros e uns num ecrã de computador. Acho que somos muito arrogantes no sentido em que acreditamos que podemos controlar tudo, incluindo a humanidade. Penso que a medicação da sociedade é, em parte, um reflexo dessa arrogância. Uma música como ‘Antidepressants’ brinca com isso, mas não toma partido, não diz que é bom ou mau. Simplesmente diz que é um facto. E, obviamente, pode ser bastante controverso, porque há muitas pessoas para quem a medicação ajuda realmente. Não estou a questionar isso de forma alguma. Penso que é uma verdade inegável e muitas pessoas foram realmente ajudadas na vida através da medicação e da ciência médica. Mas existe uma área cinzenta onde há muitas pessoas à margem que podem acabar por ser excessivamente medicadas e receber prescrições de coisas de que simplesmente não precisam.
Têm tocado em locais maiores, incluindo algumas arenas. Porque é que acham que o público tem comparecido cada vez mais aos vossos concertos?
Acho que somos uma das melhores bandas ao vivo do mundo. É verdade. Acho que estamos a melhorar cada vez mais. Não quero dizer isto, pois pode parecer arrogante. Não é bem nesse sentido. Quero dizê-lo de uma forma objetiva. Não vejo outras bandas com a mesma energia que nós. Acho que quando estamos bem, estamos mesmo muito bem. Não é 100% sempre bom, porque às vezes temos uma má noite e, às vezes, simplesmente não funciona por algum motivo. Existem variáveis na equação que nem sempre permitem fazer um espetáculo incrível. Mas quando as coisas estão a nosso favor e quando estamos numa boa noite, acho que somos muito melhores do que qualquer outra banda. E a ligação com o público pode tornar-se incrível. Foi assim que construímos uma reputação de sermos uma banda ao vivo muito boa nos últimos 15 anos, algo que sempre tivemos, mas penso que melhorámos bastante recentemente. Acho que se conseguires manter-te saudável... Eu sou artista profissional há 35 anos. E se eu não tivesse aprendido nada nestes 35 anos sobre como fazer melhor, então haveria algo de errado. Acho que simplesmente se aprende a fazer melhor. O problema de muitas pessoas é que a saúde fica debilitada e, por isso, simplesmente não conseguem. Assim, mesmo sabendo como o fazer e tendo a experiência necessária, não sabem como, porque se deparam com os limites da sua própria saúde. Falando por mim, tenho tentado cuidar de mim e manter-me em forma e, felizmente, ainda estou vivo. Por isso, sim, espero ter aprendido a fazê-lo melhor, tão simples quanto isso. Ter já um reportório vasto por trás também ajuda. Tendo dez álbuns de estúdio, 11 álbuns, se contarmos com os álbuns dos lados B, - 12 de certa forma, porque são tantos lados B - centenas de canções por onde escolher. Assim, nunca tocamos o mesmo alinhamento todas as noites. Tocamos sempre partes do alinhamento que são semelhantes porque existem determinadas músicas que cumprem funções específicas que precisamos de executar. Mas tento sempre variar os alinhamentos. Tento sempre tornar as coisas interessantes para a banda. Acho que assim que a banda se aborrecer, o público também se vai aborrecer. É preciso estar-se entusiasmado com o que está a fazer como banda. E também é preciso estar um pouco nervoso. As pessoas perguntam-me constantemente: como lidas com o nervosismo? E a minha resposta é que é preciso aprender a canalizar o nervosismo, porque se não o tivesse, haveria algo de errado em mim.
Faz bem essa procura pela zona de desconforto.
Definitivamente. Não nos faz mal. Mas é preciso aprender a não entrar em pânico, a manter o controlo e todas essas coisas.
Costuma treinar-se e preparar-se fisicamente para os concertos? Os vossos concertos parecem exigir muito dos vossos corpos.
Não treino especificamente para concertos, mas corro bastante e mantenho-me em forma, tentando não fazer nada demasiado exagerado. Não me preparo especificamente para concertos, mas sim, tento cuidar de mim.
Uma coisa que gostei no vosso último álbum foi a energia ao vivo que se sente. Sentimos o suor da banda durante a gravação em estúdio. Até a sua voz parece ficar um pouco rouca por vezes, não como se fosse um defeito, mas como se fizesse parte da música.
Eu tenho consciência disso. Não procuro a perfeição em gravações ou atuações ao vivo. A perfeição não me interessa. A perfeição é entediante. Prefiro a paixão à precisão. E sim, tem toda a razão. A voz pode ficar um pouco rouca por vezes, desde que não esteja demasiado quebrada. Obviamente, existe um ponto ideal. Não quero soar como se não conseguisse alcançar a nota. Tem de funcionar de alguma forma. Tenho muita consciência de não ser demasiado preciso. A imprecisão é humana.
Uma das coisas boas do rock & roll é a imperfeição.
Sem dúvida. Envolve um milhão de coisas, mas esta é uma delas. A música clássica tem a ver com perfecionismo, enquanto nós somos uma banda de rock, tem a ver com energia ao vivo.
O rock tem a ver com erros. Os erros podem ser inspiradores.
Não há nada de errado em cometer um erro. Isso é outra coisa que se aprende na vida. Só precisamos de ter a confiança para simplesmente dizer: "Eu errei". É importante não entrar em pânico.
Muitas canções nascem de erros. Imagino que isso também aconteça convosco.
Isso acontece com milhões de bandas que adoro, como os Fall, em que há ‘pregos’ por todo o lado. Há uma beleza nisso.
Em 1993, vocês tornaram-se icónicos antes da competição do Britpop. Será esse um dos motivos pelos quais rejeitam o rótulo de Britpop?
Não sei bem se consigo rejeitar esse rótulo, porque fazemos parte desse grupo de bandas, quer queiramos quer não. Temos uma relação estranha com essa palavra, porque acho que já lá estávamos antes de tudo começar. Algo como "Dog Man Star", que é quase um disco anti-Britpop. É sobre desintegração e isolamento, temas muito anti-Britpop. Não se tratam de cânticos de futebol exagerados a salpicarem cerveja. É um mundo muito, muito diferente aquele em que habitávamos. Portanto, é uma coisa estranha. Compreendo por que fomos colocados no mesmo movimento destas bandas. Claro que percebo, não sou parvo. Há uma forte influência inglesa no álbum de estreia, que as outras bandas emularam e levaram para outro lado. Mas é muito diferente. A nossa essência inglesa era uma observação da Inglaterra, e as deles eram uma celebração da Inglaterra. E essa é a diferença, acho eu. É uma relação um pouco peculiar que temos. Acho que nunca nos deixámos levar por isso. Acho que ninguém gosta de ser rotulado, certo? É meio limitativo e diminui a individualidade de sermos vistos como, tipo, "ah, eles são só uma banda de Britpop".
Qualquer pessoa que se veja como algo mais do que um mero desenho animado unidimensional, certamente se incomodará em ser rotulada num único género. Mas percebo por que razão isso acontece. É assim que as coisas são categorizadas culturalmente e nunca escaparemos a isso. Nunca escaparemos a esse rótulo. Mas o facto de ainda estarmos a fazer música excelente 30 anos depois é, sem dúvida, uma prova disso. Acho que ninguém conseguiria descrever os álbuns Antidepressants e Autofiction como discos de Britpop. São discos alternativos mais sombrios. Certamente não são Britpop. Acho que fizemos o primeiro disco de Britpop. Acho que o álbum de estreia dos Suede é o primeiro álbum de Britpop. Obviamente, ele tinha uma linhagem, uma origem, e veio de uma série de artistas dos anos 60, 70 e 80. Não estou a dizer que inventámos o ato de cantar sobre a vida britânica, claro que não. Mas, historicamente, temos de aceitar que o álbum dos Suede foi o primeiro disco de Britpop. Foi o primeiro disco daquele movimento de bandas. Penso que ‘The Drowners’ foi o primeiro single de Britpop. Portanto, sim, acho que começámos o Britpop e depois tentámos desvencilhar-nos rapidamente disso porque se tinha tornado uma confusão. Mas, obviamente, não nos conseguimos libertar completamente, porque as pessoas ainda nos querem categorizar nesses termos. Por mim, está tudo bem.
Lembra-se do seu primeiro encontro com David Bowie em 1993 para uma entrevista ao New Musical Express [NME]? O que se lembra desse encontro?
Lembro-me de me ter divertido muito com ele. Lembro-me que ele era muito charmoso e divertido. Demos boas risadas. Passámos a tarde juntos, era uma entrevista organizada pela NME, e estivemos a ouvir os discos um do outro. Nós estávamos a terminar o primeiro álbum dos Suede. Ele tinha acabado de lançar um álbum, mostrou-me algumas músicas, eu mostrei-lhe outras. E ficávamos a conversar. Era um tipo adorável e, obviamente, um grande artista. Isso é um eufemismo. Por isso, sim, tenho ótimas recordações dele.
Nesse artigo do NME, lembro-me que o Bowie o incentivou, elogiando as suas letras. Imagino o que terá sido para uma jovem estrela em ascensão como o Brett a ouvir alguém do estatuto do Bowie a elogiá-lo.
Sim, foi incrível. Foi absolutamente incrível. E apoiou-nos desde o início. E ele estava ciente do que tínhamos feito e gostou muito, e obviamente viu alguns paralelismos consigo próprio. Não creio que fosse apenas uma questão de vaidade, uma vez que não éramos, propriamente, uma banda de versões do David Bowie. Tínhamos a nossa própria identidade. Sempre tivemos a nossa própria identidade, mas obviamente ele foi uma grande influência para nós, assim como para outras pessoas. Estava ao mesmo nível dos Sex Pistols e dos Smiths, provavelmente como as três maiores influências da banda. E sim, ele sempre nos apoiou muito, e eu encontrava-o de vez em quando, de dois em dois anos, em festivais e em vários eventos, e era sempre ótimo estar com ele.
Tem memórias especiais de Portugal?
A última vez que tocámos em Portugal foi absolutamente fantástica. Tocámos num festival, não me lembro agora do nome [Festival Vilar de Mouros, edição de 2022]. Tocámos com o Gary Numan e com os Placebo, que tocaram mesmo antes de nós. Foi absolutamente fantástico. Lembro-me de ter subido ao palco muito tarde. Acho que subimos por volta das duas da manhã ou algo assim, e estávamos todos meio tão atrasados, meu Deus. E o público foi simplesmente brilhante. Adorei mesmo.
Vocês têm ganho muitos fãs de gerações mais novas. A minha filha de 19 anos, por exemplo, é absoluta fã vossa e quer estar na fila da frente do concerto em Lisboa.
Que giro! É bom saber isso. Parece que conseguimos atrair uma nova geração de fãs. É muito interessante. Os nossos espetáculos não são apenas frequentados por pessoas de 40 e 50 anos. Há muitos jovens, adolescentes e pessoas na casa dos 20 anos. Penso que é essa a beleza do mundo moderno, com os seus prós e contras. E uma das coisas boas é a facilidade de acesso que as pessoas têm a diferentes épocas da música.
