Bruce Springsteen lança álbuns há 50 anos
Viagem a dez discos daquele que é um dos maiores cantautores do rock.
De Nova Jérsia para o mundo, o Bruce Springsteen enviou-nos há precisamente 50 anos "Greetings from Asbury Park, N.J." Mas só alguns anos depois o mundo passou a dar mais atenção a este jovem remetente das menos turísticas vizinhanças de Nova Iorque.
Há meio-século, a 5 de janeiro de 1973, Bruce Springsteen lançava o seu primeiro álbum em nome próprio. O rocker já tinha um longo passado de músico de bar. A partir de 1973, mais do que nunca, passava a ser ele o centro do palco. Com um carregamento de muitos anos a sonhar com os seus ídolos, seria ele um dia o ídolo, depois de um percurso árduo. Quando a glória aconteceu, o carregamento não era só de sonhos, mas também de muita rodagem ao vivo. O espetáculo estava já numa fasquia muito alta quando o mundo lhe passou a prestar atenção.
Em 1972, quando Bruce Springsteen ainda era um jovem barbudo e tímido, houve alguém com olho que lhe topou o talento de escritor de canções: o grande guru da indústria norte-americana Clive Davis. Foi com o aval do editor e empresário que Springsteen iniciou uma discografia de peso de que selecionamos dez álbuns.
Greetings from Asbury Park, N.J. (1973)
Foram mais os outros que o colavam a Bob Dylan do que o próprio Bruce Springsteen. O músico de Nova Jérsia mostrava já uma personalidade cancioneira só mesmo dele, com a E Street Band atrás, com membros que se tornariam de longa data como o baixista Garry Tallent (ainda hoje na formação) e o mítico saxofonista Clarence Clemons nas fileiras. 'Blinded by the Light' e 'Spirit in the Night' eram duas cartadas deste músico estreante que lançavam um alerta melómano: "prestem atenção a este homem".
Born to Run (1975)
Já o então crítico John Landau tinha visto em Bruce Springsteen (de quem se tornaria seu manager e mais-que-tudo) "o futuro do rock & roll" quando o Boss partiu para a experiência de estúdio mais decisiva e exaustiva da sua vida, para a gravação do seu terceiro álbum, "Born to Run". Cada canção é quase um livro, onde há espaço para os recantos e para a grandeza. Com este disco, Bruce Springsteen atrai o olhar internacional e torna-se num músico de culto, elevado por músicas do calibre do tornado anímico de 'Born to Run' ou da intimidade sinuosa de 'Jungleland'. É durante o ciclo ao vivo de "Born to Run" que se consolida a formação histórica da E-Street Band com as entradas do baterista Max Weinberg, do organista Danny Federici, do pianista Roy Bittan e, logo depois, do guitarrista Steven Van Zandt... Começava a era dourada de Bruce Springsteen.
Darkness on the Edge of Town (1978)
Começava a estar no ar a sensação de que Bruce Springsteen tinha o maior espetáculo rock à face da Terra. A auto-estima crescia, o esforço dobrava-se e os talentos da banda redobravam-se. A conquista do mundo passava da fé à verosimilhança. Foi nessa curva ascendente que Springsteen lhe juntou duas mãos cheias de canções. Algumas delas nunca mais deslargaram os alinhamentos dos concertos, como os casos de 'Badlands' e 'The Promised Land'.
The River (1980)
Bruce Springsteen subiu a parada para um álbum duplo de vinte canções e voltou a não sentir o princípio de Peter. Subiu o nível e voltou a subir a competência, escancarando-nos um livro cancioneiro americano da sua autoria, do rock ao country, de tanta coisa a tanta coisa. O tema-título é um dos perfuradores de alma, a testar a destreza dos beiços de Springsteen na harmónica.
Nebraska (1982)
Este é literalmente um álbum a solo, gravado sem banda. Bruce Springsteen assume sozinho todos os instrumentos (guitarras, mandolim, harmónica, sintetizadores, órgão), numa dezena de canções mais sombria que contrasta com os seus trabalhos anteriores. O músico personifica-se nos fora-da-lei americanos em situações extremas, como o caso de 'State Trooper'. "Nebraska" é um dos seus álbuns mais impressionantes.
Born in the U.S.A. (1984)
"Born in the U.S.A." gerou vários mal-entendidos sobre o Boss, como a de que seria uma espécie de redneck, por causa do tema-título e da sua imagem entretanto criada, de bandana na cabeça e com a bandeira dos Estados Unidos como pano de fundo do palco. O Presidente republicano e consevador Ronald Reagan também se equivocou e citou-o como um exemplo de esperança americana a seguir, mas as canções tinham um forte espírito contestário e crítico que o estadista não compreendeu, incluindo o irónico "Born in the USA", sobre o triste fado dos veteranos do Vietname. Não, Bruce Springsteen não é um redneck. O disco é uma conciliação bem viva dos dois contrastes de Bruce Springsteen: o entertainer otimista e o poeta introspetivo, ambos em excelente forma. Por trás da primeira camada de singles mais conhecidos - 'Glory Days' ou 'Dancing in the Dark' - está uma obra recheada de grandes canções, que merecia ser mais indagada. "Born in the U.S.A." fez de Bruce Springsteen um rocker de estádio até hoje. Para fechar o seu ciclo dourado iniciado em 1975, havia que o fazer em beleza.
The Ghost of Tom Joad (1995)
É o álbum que fecha o período de interregno de Bruce Springsteen com a E Street Band. Estamos perante uma das suas obras mais intimistas de sempre, mergulhada no mundo da folk e do country, depois de "Nebraska". A outonal 'The Ghost Of Tom Joad' é uma das suas comoventes canções, com todos os sentidos sociais ligados aos sem-abrigo, valorizando-os na pessoalização, num só, porque cada um tem a sua história.
Working on a Dream (2009)
Raramente acontece esta rajada de grandes canções de enfiada, como neste álbum em que se sente a atmosfera esperançosa da presidência que se iniciava de Barack Obama nos Estados Unidos e paralelamente o luto pela perda de um dos antigos da E Street Band, o organista Danny Federici. Bruce Springsteen raramente tem tocado músicas ao vivo deste disco, que, curiosamente, é uma das suas obras mais fortes após o seu ciclo dourado de 1975-85.
The Promise (2010)
Depois do sucesso do álbum de 1975, "Born to Run", Bruce Springsteen estendeu-se em sessões de estúdio que dariam para quatro álbuns. Mas deu só para um: o disco "The Darkness of the Edge of Town", que sairia em 1978. Dessa colecção brutal de anotações escritas e reescritas resultariam 70 canções. E dessas 70 canções, apenas 10 foram publicadas em "The Darkness of the Edge of Town". Mais de trinta anos depois, sai o álbum "The Promisse", que salva do esquecimento algumas das brutais sobras das sessões de estúdio para "The Darkness of the Edge of Town", como a lindíssima balada 'Someday (We'll Be Together)' - tema amoroso em que o letrista Bruce Springsteen acredita sempre num futuro melhor, mesmo que perante uma realidade não tão boa - ou a canção 'Because the Night', que na altura da sua gravação Bruce Springsteen deu a Patti Smith, que a tornou num dos seus maiores hinos.
Letter to You (2020)
“Letter To You” é como se a autobiografia "Born To Run" tomasse forma em novas canções, naquela ambiguidade poética avivada por melodias, pelo ritmo, pela voz rouca de Bruce Springsteen e por aquele frenesim sonoro da E Street Band. A banda é o tema do álbum. Bruce faz-lhes um tributo na mesma sala que eles, à frente deles e, sobretudo, com eles. A carta é para alguém, mas a cartada de Bruce é a sua banda. Bruce Springsteen recorda os sábados à noite de há mais de 50 anos, o momento religioso semanal do músico entertainer, que faz do palco o seu altar. Não são apenas as almas dos malogrados George Theiss, de Danny Federici (o espontâneo das teclas) e Clarence Clemons (o super-saxofonista) a flutuar em 'Ghosts'. Os espíritos dos fãs vivos também são chamados para a imensa roda dos músicos antes do espectáculo das dez da noite. Feito de sangue, suor e lágrimas... e memórias, “Letter to You” é a espiritualização do rock por quem o conhece na palma da mão. O seu réquiem é um elogio luminoso à vida, um sequenciamento a quem já cá não está - George Theiss, Danny Federici, Clarence Clemmons, por aí fora. Com Bruce Springsteen, até os mortos estão vivos. “Letter To You” é um disco de réquiem & roll.
