Bryan Adams: "sou muito simples nas coisas que preciso"

O músico canadiano edita hoje o álbum "Roll With The Punches", o primeiro como artista independente.

Bryan Adams edita hoje (29 de agosto) o 16.º álbum de estúdio - o primeiro longa-duração que edita com a Bad Records, a editora discográfica que criou recentemente e o primeiro que lança como artista orgulhosamente independente

Bryan Adams

O álbum - composto por 10 faixas - chama-se "Roll With The Punches" e está disponível nas várias plataformas digitais, bem como nos formatos CD e vinil e numa edição especial (CD duplo) que contempla um álbum acústico.

O disco contou com a colaboração do famoso produtor Robert "Mutt" Lange com quem Adams foi reconhecido com um Grammy pelo tema '(Everything I Do) I Do It For You' (1991) - canção da banda sonora do filme "Robin Hood - Príncipe dos Ladrões". A dupla venceu na categoria de Melhor Canção escrita para um Filme ou Televisão. 

Elliot Kennedy e Jim Vallance também têm os nomes inscritos nos créditos do novo álbum que foi apresentado ao mundo com quatro singles: 'Roll With The Punches' (single de avanço), 'Make Up Your Mind', 'Never Ever Let You Go' e  'A Little More Understanding'.

Bryan Adams está atualmente no Reino Unido com a digressão que dá título ao novo disco. Em setembro, o músico e compositor canadiano arranca com a fatia norte-americana do circuito. A primeira data dos 40 espetáculos é a 11 de setembro no Canadá.

"Roll With The Punches" é o sucessor de "So Happy It Hurts" que o músico editou em 2022.

Qual foi o ponto de partida para este álbum e como foi a evolução do processo criativo?

Estou constantemente a trabalhar em música. Mas desta vez aconteceram algumas coisas interessantes, como o facto de já não estar ligado a uma editora discográfica. E também já não tenho um agente. De repente, fiquei muito independente e decidi permanecer dessa forma. E, claro, a verdade é que não é fácil sair de uma relação longa com uma editora. Por isso, tive de 'dançar ao som da música' (roll with the punches). A ideia para a canção surgiu daí.

Mas é uma sensação de liberdade, certo?

Exato. Mas pode ser assustador depois de passarmos tanto tempo no mesmo sítio. Sentimos que estamos a navegar em águas que nunca navegámos. Há uma sensação de incerteza. Mas, tal como disseste, também de liberdade.

O disco foi coescrito com Robert "Mutt" Lange, Elliot Kennedy e Jim Vallance, que são companheiros criativos de longa data. Ainda aprendem uns com os outros, descobrem coisas novas juntos?

Já os conheço há muitos, muitos anos. São praticamente irmãos. Tenho um arquivo de ideias no meu computador. Por exemplo, a canção 'A Little More Understanding' partiu de uma ideia que o Jim [Vallance] teve há uma série de anos. Achei que podia acabá-la. Com o Mutt [Lange] mantenho um fluxo constante de composição.

No tema 'Be The Reason' o Bryan canta: "sê a razão de alguém sorrir com um simples gesto". O que é que o faz sorrir num mundo tão atribulado?

Bem, certamente, os amigos, a família, um bom jantar. São as coisas simples. Sou muito simples nas coisas que preciso. Gosto da ideia de fazer algo que deixe a outra pessoa feliz sem estar necessariamente a pensar em mim. É muito gratificante dar sem esperar nada em troca

Acho que é um álbum que nos pode confortar com fios de esperança no meio de algum caos…

Acho que a canção 'A Little More Understanding' é realmente uma canção de esperança.

Exato...

Essa canção fala da necessidade de nos compreendermos. Fala da necessidade de caminharmos com os sapatos dos outros. Se trocarmos de sapatos, vamos entender muito melhor aquilo que o outro está a sentir.  

E numa altura em que parece que estamos cada vez mais desconectados apesar de termos tantos recursos digitais que nos aproximam...

Devo dizer que não acho que essa desconexão seja algo novo. O mundo sempre foi, de certa forma, um lugar fragmentado e desconectado. O que acontece agora é que estamos a ver o que se passa em tempo real. E isso não acontecia antes. Ver tudo a acontecer em tempo real pode ser uma experiência perturbadora. Nem sempre estamos unidos. E bastava apenas que estivéssemos disponíveis para nos aceitarmos mutuamente. Mas há culturas que não aceitam outras culturas. Não estão abertas, não são recetivas e querem ficar num dos "lados da barricada". É algo que nunca vou entender. Mas é o que, infelizmente, acontece.

Neste álbum há uma canção que se chama 'Love is Stronger Than Hate' (o amor é mais forte que o ódio)...

Sim. Essa canção é sobre um soldado que regressa de um lugar como o Iraque ou o Afeganistão e sofre de stress pós-traumático. E quando chega [a casa] começa a imaginar coisas. Acho que para entenderem têm mesmo de ouvir a canção.

Como podemos manter a esperança no meio de guerras, divisões, alterações climáticas e por aí?

Bem, temos de ser otimistas. Não podemos ficar presos a esses cenários, porque o mundo sempre foi assim. Há guerras desde que comecei a fazer discos. As pessoas sempre lutaram. Lembro-me das guerras no Iraque, no Afeganistão, na Sérvia, na Líbia e em Gaza. E a lista não acaba. Sempre houve turbulência. E antes das guerras que mencionei houve as guerras no Vietname, no Camboja, etc. Não têm fim. Não é novo. Acho que temos de meter o foco no lado positivo. Na família, nos amigos, naquilo que nos rodeia. E, claro, devemos erguer a voz quando sentimos que o temos de fazer. É o que podemos fazer. Podemos fazer isso e continuar a rockar. 

Como artista ajuda certamente a fazer do mundo um lugar melhor nem que seja com os concertos que dá ou com os álbuns que edita. A música ajuda muitas pessoas... 

Uso a minha voz para me ajudar a mim próprio. Cantar é uma experiência muito catártica. Quando canto extravaso a angústia que sinto e os problemas que me preocupam. Essa é uma das razões pelas quais gosto tanto de futebol. Quando estamos num estádio vemos toda a gente a cantar em uníssono. E devia ser sempre assim. Toda a gente devia cantar. Há algo muito interessante no grito primitivo. É importante extravasar o que precisa de sair. Talvez seja por isso que as pessoas vão para as ruas protestar. Precisam de extravasar o que sentem. 

Agora quero falar da canção 'Never Let You Go'. No videoclipe vemos o Bryan a andar de montanha-russa com a atriz Elizabeth Hurley. Quem é que teve a ideia?

Fui eu.

O amor pode mesmo ser uma montanha-russa...

Exato. É precisamente essa a metáfora da canção. Há sempre altos e baixos numa relação. O importante é que no final fiquemos juntos.

E o tema 'Will We Ever Be Friends Again?' é sobre a amizade no amor...

É sobre a amizade que mantemos com a pessoa que amamos, com os nossos parceiros românticos. E é sobre aquilo que podemos sentir quando perdemos isso. É sobre querermos voltar a sentir o que sentíamos quando estávamos juntos. Ficamos sempre com algo do outro. É sobre o poder de uma conexão e de uma amizade tão fortes que não podem ser derrotadas. Mas as coisas acontecem e, como uma montanha-russa, temos de nos manter em movimento. Tal como canto na canção 'Roll With The Punches'. Está tudo ligado.

Agora quero perguntar-lhe sobre o papel da inteligência artificial (IA) na criatividade, na arte. Acha que pode ser uma ameaça, uma ferramenta útil ou ambas?

Acho que a caixa de Pandora já está aberta. Já não podemos retroceder. Por um lado, acho que a IA está nas mãos de pessoas que podem ser irresponsáveis. Mas por outro, acho que abre possibilidades criativas. Por exemplo, estou a criar um vídeo com recurso à inteligência artificial. É um vídeo feito totalmente com inteligência artificial. Estamos na infância dessa maravilha. Eu já vejo vídeos feitos com recurso a fotografias minhas onde apareço a falar. E inventam histórias. Vejo imensos conteúdos falsos. Há pessoas que partilham "fotografias" minhas que nem existem. Seja nas mãos de pessoas irresponsáveis ou responsáveis, a IA é uma ferramenta poderosa. Vou vendo e experimentando. As pessoas já criam música com recurso à inteligência artificial. Mas acredito no real poder da música. A música precisará sempre de vozes reais. Não há nada que possa substituir isso. Isto sou eu a ser esperançoso.

Temos de ser esperançosos...

É uma loucura ver como as coisas evoluíram. Ainda esta manhã vi um excerto do vídeo que fizemos com a IA. E aquilo é incrível. Pareço mesmo eu, mas na verdade não sou.

Mas os vídeos que publica na conta de Instagram são reais, certo? (risos)

Sim, sim. Esses são reais.

Pelos vídeos que tem partilhado ultimamente podemos perceber que a digressão está a ser bastante divertida. Até o vemos a transformar um quarto de hotel num estúdio...

Divirto-me sempre. Se não me divertisse, não o faria. Tem de ser uma alegria. Ainda para mais agora que vou editar o meu primeiro álbum como artista independente. É algo muito poderoso para mim. Quem me dera ter feito isto há 20 anos. Mas estou nesse ponto agora. Criei a minha própria editora, a Bad Records, cujo nome é inspirado na alcunha que tinha quando andava na escola. Na altura chamavam-me Badams.

Isso foi quando viveu em Portugal?

Acho que foi antes de viver em Portugal. Mas estou muito entusiasmado com tudo isto. Ter de tratar de coisas que as editoras costumam tratar. Criar a campanha de divulgação do álbum, tratar dos posters da campanha, enviar as informações sobre o disco para que depois sejam divulgadas. Acho que o processo de divulgação deste álbum vai durar ainda mais um ano. Ainda há muito por onde pegar.

O Bryan tem mantido uma base de fãs muito fiel ao longo de todos estes anos. O que é que tem aprendido com eles?

Tem sido uma grande viagem. Ainda na semana passada me lembraram que a canção 'Heaven' celebrou agora 40 anos. E as pessoas continuam a adorá-la. A única coisa que posso dizer é que confio no meu instinto. Confio no instinto que me diz para continuar. Já houve pessoas que me perguntaram porque é que me dava ao trabalho de continuar a fazer música nova. E respondo sempre que não consigo evitar.

As ideias surgem e transformam-se em canção. O que é suposto fazer? Não gravar? Foi assim que comecei. O meu amor pela música é confirmado pelas pessoas que continuam a ir aos concertos e que continuam a cantar as minhas canções. Aprendi a confiar no meu instinto. Não é o que te diz a cabeça ou o coração, é o que sentes no estômago. Se sentes que tens de ir em frente, então estás a fazer a coisa certa.

E o Bryan também se dedica à fotografia...

Gosto da ligação entre a fotografia e a música. De quando a imagem acompanha a música. Por exemplo, fui eu que tirei a fotografia da capa do novo álbum. Tirei essa fotografia quando estava a viajar pela Alemanha. E tirei-a com o iPhone, com o qual estou a falar consigo neste momento. A tecnologia digital é uma loucura.

O que é que gosta mais na música?

Gosto de tudo.