Buba Espinho: "não me vejo sem o Alentejo"
Entrevista ao músico bejense, que lança hoje o seu segundo álbum, "Voltar".
As vias vão-se abrindo para a ascensão de Buba Espinho, até mesmo uma via sacra, quando atuou na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, no Parque Eduardo VII, à frente do Papa Francisco. Nesta confluência de caminhos, Buba Espinho ruma para o seu segundo álbum, "Voltar", que é lançado hoje.
É a propósito de "Voltar" que entrevistámos Buba Espinho.
Dueto com Bárbara Tinoco em 'Ao Teu Ouvido'
'Ao Teu Ouvido' foi o tema escolhido para single de promoção de avanço de "Voltar". A música tem estado em rotação radiofónica.
"Foi uma história gira, a Bárbara convidou-me para gravar esta canção num álbum que ela iria gravar. Não foi 100% objetiva que iria gravar esse disco. Adiámos um pouco essa gravação e ela passou-me a canção para as mãos: 'olha, faz o que quiseres com a canção, eu gosto dela. Se quiseres gravar sozinho, gravas sozinho. Se quiseres gravar com outra cantora, gravas com outra cantora. Se quiseres gravar comigo, gravas comigo'. Foi isso que eu fiz, convidei-a para gravar a canção comigo, porque eu acho que ela tem uma identidade muito especial. E eu identifico-me muito com ela. Gosto das histórias que ela conta e da intérprete que ela é. Foi muito fixe ter trabalhado com ela e ter juntado dois mundos diferentes, duas perspetivas totalmente diferentes, para uma canção que ficou ótima e um videoclipe maravilhoso do Franscisco Dedidério que é uma máquina".
"Adoro fazer colaborações. Em tudo, seja duetos com cantores ou bandas. Pedir letras a outros para eu fazer a melodia, ou pedir a outros para serem a fazer as melodias. Há diversas formas de se partilhar música. A minha música tem muito a ver com raíz e acho que é muito bom poder unir essa raíz com outros géneros musicais ou com outras perspetivas. Gosto de ver a minha música enrolada noutras linguagens e noutras visões. Faço muito isso, crio relações com outras pessoas. Fico sempre amigo das pessoas com quem colaboro. A música é sempre melhor quando é partilhada".
Agir no tema 'Folga do Arlequim'
'Folga do Arlequim' é a faixa nº2 de "Voltar". Agir é o autor da letra e da música.
"Tem a ver com o que acabei de dizer: de criar uma relação e de te identificares com a forma de trabalho. O Agir é uma pessoa muito inspirada e dinâmica na parte criativa. Estivemos uma ou duas vezes juntos. Ele tinha-me feito esse convite para participar no Cantando Abril que foi uma experiência muito fixe, com convidados e uma banda incríveis. Depois materalizou-se esta canção em que fiquei supercontente. Foi dos primeiros temas a fazer o clique estético: 'OK, é por aqui o caminho estético dos temas que quero cantar e as mensagens que quero passar'".
Alentejo
Buba Espinho voltou à sua cidade de origem, Beja, em 2021. O conceito do título do álbum, "Voltar", tem a ver com o Alentejo a que regressa.
"É impossível [imaginar a minha música sem o Alentejo]. O Luís (Delgado, baterista do Buba Espinho) no outro dia perguntou-me se eu me imaginava a dar um concerto sem cantar pelo menos uma moda alentejana. Eu respondi: 'acho que não'. Não me vejo sem o Alentejo, é como me tirarem o chão. É tão natural em mim, faz parte da minha personalidade. Tem a ver com a minha forma de estar na música e com as pessoas. Seria muito estranho afastar-me dessa paisagem, podendo eu acrescentar cores a essa paisagem. É arte e eu tenho o meu quadro. Eu gosto que outros pintores venham fazer o seu desenho, com a sua marca".
"Há uma boa opinião geral sobre o Alentejo, não só de quem lá vive ou de quem lá nasce. Eu, fazendo música, não queria deixar que as pessoas tivessem outra ideia. Temos uma cultura muito forte, muito amável e muito afável. Tento passar isso na minha música. É uma forma diferente de se estar de outras regiões. Não estou a dizer que é melhor ou pior. Mas é muito específica e as pessoas gostam dessa energia que se vive no Alentejo. Houve uma altura que tive que sair de lá. Foi muito doloroso deixar a minha terra, a minha família e os meus amigos. Tive que abandonar rotina ainda muito miúdo. O instinto levou-me a conhecer outras visões, outras culturas. Agora volto para o Alentejo porque instintivamente é o que faz sentido, trazendo uma bagagem cheia de outras cores, que são boas para voltar e aplicar na minha vida e no meu contexto".
"É um problema muito forte as pessoas não acreditarem nas suas potencialidades enquanto alentejanos, falando enquanto alentejano. Senti na minha adolecência inteira que, enquanto o cante alentejano não foi Património [Imaterial da Humanidade da UNESCO], não foi reconhecido e não foi para as rádios e para as televisões, era [visto como] uma 'seca'. As pessoas agora adoram todas o cante alentejano, 'ah é muito bonito', mas eram as mesmas pessoas que nos mandavam calar quando comecávamos a cantar na escola e nos mandavam sair dos restaurantes. Hoje em dia pedem-nos para voltarmos a cantar. Eu acho que isso tem a ver com essa falta de crença e nessa falta de esperança naquilo que é a nossa terra. Não há nada mais forte no ser humano que valorizar os nossos princípios e as nossas bases".
A colaboração de diferentes letristas
Cada uma das oito canções de "Voltar" conta com uma letra de um autor diferente. Oito canções, oito letristas diferentes. As colaborações "acontecem de várias formas. Há pessoas a que recorro, o que não tem a ver com músicas mas sim com conversas. Tento inspirar-me noutras ideias, gosto que as pessoas que escolho falem sobre o meu trabalho, para eu perceber onde posso melhorar. Isso acontece também com as canções. Gosto que as pessoas façam canções pensando em mim e naquilo que represento para elas. É giro porque represento coisas muito diferentes para elas, tentando vestir essa personagem que elas criam. Já tive pessoas que me ligaram: 'olha, tenho aqui uma letra'. Há pessoas que me mandam muitas, há pessoas que só me mandam uma. Neste álbum cheguei a ter trinta canções, todas ótimas, foi mesmo uma dificuldade escolher só estas oito, que eu acho que são as que fazem mais sentido neste momento. Nunca jogo canções fora. Às vezes fico com pena quando os poetas ou os músicos me dizem: 'já que não usaste esta minha canção, vou dar a outro artista'. Eu digo 'tudo bem’, mas fico sempre triste porque as canções são como as pessoas, nem sempre aparecem na altura certa. Dou sempre o exemplo do 'Casa' [tema dos D.A.M.A. em que participa Buba Espinho]. As pessoas que gravaram foram as mesmas que disseram antes 'se calhar agora não faz sentido' e que voltaram a entusiasmar-se quando voltaram a ouvir ['Casa']. Tem mesmo a ver com essas fases da vida".
Álbum pequeno, de apenas oito faixas
"Eu poderia gravar um EP de quatro canções, ou de seis. Acho que para este álbum, oito capítulos é o número certo para a história que eu quero contar". Usar "mais canções seria desperdiçá-las. Prefiro esperar e ouvir a canção noutra altura. Estou sempre a ouvir as canções que me vão oferecendo. Trata-se de encontrar a melhor altura para escolher as canções. No dia em que tive que escolher, foram estas as oito canções que faziam sentido".
Cantar diante do Papa na Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023
Buba Espinho teve o seu grande momento mediático e universal quando atuou à frente do Papa Francisco no Parque Eduardo VII, em agosto, com o apoio do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento.
"As pernas tremeram um bocadinho com o peso da resposabilidade de estar naquele sítio, àquela hora. Mas pensei: 'se estou aqui, por alguma razão é'. Penso sempre nisso quando vou dar espetáculos. Tem a ver com a confiança que tenho nas minhas capacidades, tendo também noção das minhas limitações. Aproveitei ao máximo a oportunidade. O dia em que deixar de sentir esse peso as coisas deixam de ser estimulantes. Nunca há nervosismo, nem ansiedade, eu gosto mesmo de fazer isto. Ali [na JMJ] não fugiu à regra, tentei aproveitar ao máximo com o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, que são homens incríveis, todos eles com enorme profissionalismo apesar de serem um grupo amador. São super-profissionais e têm o Alentejo na voz e no coração. Nós conseguimos passar essa mensagem a toda a gente, a todos os milhões que ouviram e sentiram a mensagem alentejana num momento tão importante para a causa”.
Concerto no Capitólio, em Lisboa, neste sábado, dia 16
Buba Espinho vai tocar músicas dos seus dois álbuns, com o apoio de Luís Aleixo (nas guitarras e vozes), Rodrigo Correia (no baixo), Manuel Oliveira (nas teclas), Luís Delgado (na bateria) e de Bruno Chaveiro (na guitarra portuguesa). Os D.A.M.A. serão os convidados.
"Vou contar a história de 28 anos do Buba Espinho. É um balaço de muita alegria e de muita felicidade, de amor pela música e pela vida em si".
O espetáculo inicia-se às 21h30. Os bilhetes custam 17 euros.
