Byung-Chul Han desafia a sociedade a recuperar o tempo para pensar

Filósofo sul-coreano apadrinhou a abertura do novo Jardim do Pensamento, um espaço concebido por Álvaro Siza Vieira e Sidónio Pardal junto ao Mosteiro de Leça do Balio.

Um jardim para parar. Para contemplar. Para pensar. Foi esta a proposta lançada por Byung-Chul Han na inauguração do Jardim do Pensamento, o novo espaço verde criado junto ao Mosteiro de Leça do Balio, em Matosinhos, que abriu oficialmente ao público esta quarta-feira.

O filósofo sul-coreano, um dos principais convidados do festival literário Babell, foi o padrinho da inauguração daquele que era, até há poucos anos, um terreno abandonado e que hoje se transformou num jardim de repouso e meditação com quase quatro hectares, projetado pelos arquitetos Álvaro Siza Vieira e Sidónio Pardal.

Transportando um recipiente com uma flor, num gesto simbólico que marcou o início da sessão, Byung-Chul Han mostrou-se satisfeito por participar, pela primeira vez, numa intervenção ao ar livre. Perante a paisagem verde envolvente e a imponência do Mosteiro de Leça do Balio, revelou uma ligação pessoal ao contexto do local.

“Eu era para ter sido padre, portanto, pertenço, realmente, aos mosteiros”, afirmou.

A partir daí, desenvolveu uma reflexão sobre a importância dos jardins enquanto espaços de contemplação. “Um jardim é um lugar para nos determos demoradamente”, disse. E acrescentou: “Se tivesse um verbo, seria, certamente, pensar.”

Num discurso marcado pela crítica à aceleração da vida contemporânea, o autor de A Sociedade do Cansaço alertou para a crescente incapacidade de parar e refletir. “Estamos a transformar-nos em gado de consumo”, afirmou perante uma assistência que esgotou a lotação disponível para a conferência.

Han contestou ainda a ideia de que as sociedades atuais são mais livres graças às tecnologias digitais e às redes sociais. Apesar das aparentes possibilidades de comunicação e expressão, considera que a liberdade interior continua comprometida.

“Sentimos que no interior não somos livres”, defendeu, sustentando que as pessoas caminham “de um vício para o outro”. “Vivemos numa sociedade do vício. Exploramo-nos a nós próprios voluntariamente”, acrescentou.

Para o filósofo, a incapacidade de imaginar mudanças profundas pode estar diretamente relacionada com a falta de tempo para pensar. “Se a revolução não parece possível, talvez seja porque não temos tempo para pensar”, afirmou, questionando: “Quem é que pode dizer que é livre?”

Ao longo da intervenção, abordou também temas como o crescimento dos extremismos, a erosão do respeito nas sociedades contemporâneas e a necessidade de recuperar dimensões espirituais da existência.

“Sem a contemplação e a espiritualidade, chegamos outra vez à barbárie”, alertou, distinguindo esta espiritualidade das práticas de mindfulness ou de autocuidado associadas à lógica da produtividade e do desempenho.

Um novo espaço para contemplar o rio Leça

O Jardim do Pensamento integra-se na área envolvente do Mosteiro de Leça do Balio, Monumento Nacional e sede da Fundação Livraria Lello. Resultado de um investimento de cerca de quatro milhões de euros, o projeto ocupa uma área próxima dos quatro hectares na margem do rio Leça.

Assinado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, vencedor do Prémio Pritzker, e pelo arquiteto paisagista Sidónio Pardal, o espaço inclui ainda várias esculturas concebidas por Siza Vieira. O arquiteto não esteve presente na inauguração devido ao cansaço, numa semana em que assinala o seu 94.º aniversário.

Nobel da Literatura em destaque no Babell

A inauguração do Jardim do Pensamento integra a programação do Babell, o festival literário que decorre em diferentes espaços públicos do Porto até 29 de junho.

Entre os nomes mais aguardados desta primeira edição estão os laureados com o Nobel da Literatura Olga Tokarczuk e László Krasznahorkai, que participam em sessões na Praça Gomes Teixeira durante o fim de semana.

O programa reúne ainda algumas das figuras mais relevantes da literatura mundial contemporânea, como Salman Rushdie, Margaret Atwood, Julian Barnes, Conceição Evaristo, Héctor Abad Faciolince e David Uclés.

Entre os autores portugueses confirmados destacam-se Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Dulce Maria Cardoso, Djaimilia Pereira de Almeida e Bruno Vieira Amaral, numa programação que pretende aproximar a literatura dos espaços públicos e do quotidiano da cidade.