Cais Sodré Funk Connection: muda-se a língua, mas não se mudam as vontades

Novo álbum "Um Quarto na Rua Cor de Rosa" sai nesta sexta-feira. Entrevista ao compositor João Cabrita.

Na imagem de capa do novo disco dos Cais Sodré Funk Connection, “Um Quarto na Rua Cor de Rosa” (com design de Tó Trips), alguém varre a rua resplandecente quando o sol já clareia o céu. A festança de uma das ruas mais boémias de Lisboa já lá vai, o viveiro criativo dos Cais Sodré Funk Connection também se foi, o clube Musicbox, como uma gruta discreta perfurada no carismático viaduto que faz sombra à rua de piso rosado. 

Finda a noitada na Rua Cor de Rosa, fechado o Musicbox, a festa vai continuar noutros lados. Pode ser no Beato, na zona oriental de Lisboa, na recém-inaugurada Casa Capitão, como um reencontro dos Cais Sodré Funk Connection com as mesmas pessoas do antigo Musicbox, num concerto agendado para 22 de outubro.

O novo álbum “Um Quarto na Rua Cor de Rosa” marca a conversão dos Cais Sodré Funk Connection à língua portuguesa, com a mão decisiva do novo vocalista NBC, que é o novo par masculino de Tamin. Esta prova viva de soul e funk à portuguesa na língua nossa faz de “Um Quarto na Rua Cor de Rosa” uma obra revigorante, que marca o ano musical em Portugal.

O motor instrumental dos Cais Sodré Funk Connection é o mesmo. Mas a revisão deu-lhe um outro oleamento. E agora ninguém os vai travar.

O timoneiro e saxofonista do septeto lisboeta João Cabrita já sente as asas nos pés, a “dez centímetros do chão”, tal como nos afirma em entrevista. 

Este álbum, “Um Quarto na Rua Cor de Rosa”, é uma despedida ao Cais Sodré?
Por acaso, é curioso. Eu estava agora a gravar um áudio de promo da coisa e a falar no Musicbox: de facto, na semana em que o Musicbox acabou, ou poucos dias depois, vai sair o nosso disco. Parece uma despedida, não é? Ainda por cima com aquela capa com um ar de fim de festa, com um senhor a varrer a rua e tal. Mas não foi propositado. Continuando a haver algum motivo para lá voltarmos, havemos de sempre lá voltar. 

Vocês sentem já nostalgia em relação ao Musicbox? 
Eh pá, sim, tivemos lá noites épicas. Eu próprio já tenho uma carreira, para aí de trinta e cinco anos de música e de concertos. Dos meus milhares de concertos, muitos deles foram no Musicbox. Foi uma residência maravilhosa que nós fizemos, felizmente a convite do Musicbox, e que nos deu um gozo do caraças, tanto mais não seja para aprendermos a linguagem do funk. Quando começámos, éramos uma banda de covers, de versões de temas menos conhecidos de funk, mas foi assim que aprendemos os truques e os meandros da linguagem do funk. E depois, para saltar para os originais, já vínhamos com a licenciatura tirada. Mas foi de facto nessa residência do Musicbox que começou tudo e estamos muito gratos à casa, nesse aspeto. 

O conhecimento profundo entre vocês, o núcleo instrumental, facilita as transformações como agora a mudança de língua?
Sim, de certa forma sim porque, lá está, com a residência do Musicbox, definimos o som da banda, porque tínhamos aquela baliza de estética do funk e da soul dos anos 60, que aprendemos e praticámos durante muito tempo. Desta vez, fomos um bocadinho mais longe porque também há uma altura em que tu cresces com as pessoas e precisamos constantemente de nos estimular uns aos outros. E de facto a ideia do português veio do teclista João Gomes, e depois, às tantas, também alguns de nós começaram a sugerir: "pá, porque é que devemos ficar cingidos aos anos 60? Também já fizemos três álbuns assim, porque é que não vamos divergir um bocadinho mais e meter mais uns sintetizadores, ou adoptar outras soluções sónicas que não necessariamente aquelas que nos definiram ao princípio?" E o engraçado é que no fim de tudo, continua lá o som da banda, apesar de haver mais sintetizadores e outras soluções de arranjos de sopros. Mas o som da banda e a identidade do coletivo continuam bastante fortes e reconhecíveis. 

Cais Sodré Funk Connection

Apareceu essa sugestão do João Gomes num dos ensaios que estávamos a tirar os temas novos. Eu já tinha escrito uma grande quantidade de letras em inglês e o João Gomes sugere: "Pá, mas porque é que vamos fazer outra vez um disco em inglês? Porque é que não experimentamos fazer um disco em português?" E eu, de facto, já tinha tentado no álbum anterior e no outro antes fazer letras em português, mas não conseguia acertar com o registo certo para fazer com que os cantores soassem bem. Ou seja, escrever uma letra em português não é necessariamente um problema, o problema é fazer as coisas de modo a que soem naturais naquele género musical e com aquelas vozes e maneiras de interpretar daqueles cantores. E, de facto, aí estava o imbróglio que não consegui descalçar. Entretanto, com a entrada do NBC, o Silk seguiu a sua carreira a solo e saiu da banda. Entrou o NBC e o Timóteo de facto tem esta carreira consolidadíssima de discos cantados em português. Portanto, ele tem uma maneira de abordar a questão que é natural. E então isso ajudou-nos imenso, porque ele pegou nas minhas letras, mudou-as para português, meteu alguns temas novos também, fartou-se de compor para o disco, trabalhou bastante para se afirmar. E a sua voz passou a ser da banda. O processo de adaptação ao português tornou-se superfácil. Aliás, acho que a coisa que deu um bocadinho mais trabalho foi convencer a Tamin também a embarcar no barco porque ela está tão habituada a cantar em inglês que de facto soava-lhe estranho. Mesmo quando a nós já nos soava bem, a Tamin ainda se estava a habituar. Mas depois acabou por abraçar a ideia e acho que isso também foi o que ajudou. Nota-se que o disco soa supernatural, não há nada forçado na questão do português nos temas novos, creio eu. 

Cais Sodré Funk Connection

O facto de termos tão pouca soul na língua portuguesa foi também um alento para essa mudança ou vocês não pensaram nisso? 
Na altura, não pensámos nisso. À posteriori, sim, apercebemo-nos que, de facto, quando nós somos uma banda de funk ou de soul a cantar em inglês, somos iguais a todas as outras bandas de funk e de soul do mundo, não é? Agora, a cantar em português, de facto, a coisa já nos distingue das outras bandas. Por um lado, das outras bandas de funk e, por outro lado, das outras bandas, vá, de pop ou contemporâneas que cantam em português. Entramos aqui num eixo onde realmente não está muita gente. No passado, tivemos a Kika Santos com os Blackout. Tens os Expensive Soul, que desviam um bocadinho mais para o lado do hip-hop. E os HMB, que são um bocadinho mais pop. Portanto, no nosso nicho, não há muito mais. Posso estar enganado e estar a ser injusto com algum colega, mas assim, de repente, não me ocorre mais ninguém. 

Apesar de estarem todos envolvidos em vários projetos, os Cais Sodré Funk Connection são a vossa prioridade máxima?
Quando nos decidimos a fazer um disco, sim. Depois, temos outros projetos para tratar. Esta é uma banda muito grande e temos muitas agendas ocupadas, todos, sem exceção. E cada vez que fazemos um disco, tem de haver um motivo válido para o fazer. As canções têm de ser boas. Portanto, normalmente, o que eu costumo fazer para motivar a malta, que normalmente sou eu o chato que vai dizer: "Pá, malta, embora, está na altura de fazer um disco novo". Eu vou compondo, vou compondo, vou compondo e tudo o que me parece que possa soar bem em Cais Sodré Funk Connection, vou guardando. A partir de certa altura, já estamos fartos de tocar os mesmos temas e de rodar pelo país fora, a fazer espetáculos mais ou menos com os mesmos temas, com repertório antigo. Começámos a sentir necessidade de renovar, porque é mais entusiasmante, não é? Ao fazermos vinte a trinta concertos por ano durante seis anos, ficas cansado de tocar estes temas e então vais mudando. Mesmo que mudes o espetáculo, apetece-te fazer coisas novas, fazer grooves novos, descobrir riffs novos, malhas de sopros diferentes, letras novas, cantar sobre coisas diferentes. E então, basicamente, aí metemos a ficha de Cais Sodré Funk Connection e começamos a trabalhar na coisa, com mais dedicação. Mas é um processo lento, porque há a questão das agendas continua sempre... Se cada um de nós tivesse só mais uma banda… O problema é que cada um de nós tem para aí mais de seis bandas. Por exemplo, estamos a ensaiar os espetáculos novos, mas a malta está meio dividida com a agenda. Eu também estou a acabar um disco meu, do meu projeto a solo. Há sempre uns conflitos de agenda que se têm de ir resolvendo. 

Cais Sodré Funk Connection

O que é que podemos esperar do vosso concerto na Casa Capitão a 22 de outubro? 
Não creio que vamos tocar o álbum todo, mas vamos já incorporar a grande maioria dos temas no disco novo. Vamos recuperar uma surpresa para a malta que nos conhece melhor, que não posso revelar agora, porque é uma surpresa. 

Portanto, vamos ter um 2026 com muito palco. 
Eh pá, espero que sim. Porque não há nada que me dê mais prazer do que tocar com esta banda ao vivo. É mesmo nas alturas em que a malta está mais chateada ou cansada, tu entras naquela sala e começas a ensaiar com aquela malta e aquelas canções. De repente, os teus pés parece que ficam a dez centímetros do chão. Às vezes, chegamos, marcamos ensaios para cedo como o raio, tipo às nove da manhã, está tudo meio estremunhado e começamos a tocar e de repente já está toda a gente de peito cheio a tocar um granda groove. É mesmo entusiasmante. E eu acho que é esse o segredo da nossa banda para o público que nos vê. É o entusiasmo e a energia que aquela música gera em nós, aquele tipo de música.