Calíope: ode às mulheres hoje no Maria Matos
Entrevista a Marta Hugon, a coordenadora e uma das nove cantoras do projeto.
Marta Hugon criou o projeto Calíope, formado por nove cantautoras: A Garota Não, Aline Frazão, Joana Espadinha, Elisa Rodrigues, Joana Alegre, Joana Machado, Luísa Sobral, Ana Bacalhau e a própria Marta Hugon. Cada artista criou a sua canção para o álbum Calíope, que está audível há um mês no mundo digital.
Este projeto de exaltação do papel da mulher, com nome de musa grega, toma hoje corpo em palco, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Antes, falámos com Marta Hugon.
O que é te fez avançar para este projeto?
Uma reflexão muito profunda e uma constatação de facto no último ano, em que fui confrontada com situações de discriminação. Não comigo, mas com alunas e colegas, em situações que me fizeram perceber que há um longo caminho a percorrer na questão da igualdade de género. Infelizmente, para que isso não continue a acontecer, temos que fazer qualquer coisa, cada um à sua dimensão, no universo onde atua. Isso inspirou-me a pensar na área onde trabalho, que é a música. Estas situações tinham como base narrativas subliminares, que colocam a mulher num determinado papel, com determinados direitos e deveres e com determinadas expetativas. O mito da mulher como musa inspiradora é uma dessas expetativas, que coloca a mulher numa posição muito estática e pouco participativa. Esta ideia de transformar o mito da musa inspiradora num outro mito surgiu-me nesta ótica que é: se contarmos uma história diferente, outras mulheres poderão seguir-se, mesmo que confrontadas com situações de desigualdade, podem fazer aquilo que elas quiserem.
A que tipo de situações de desigualdade de género te referes?
Não são só alunas a quem dou aulas em casa, como colegas da música com quem trabalho. E todas têm tido várias histórias para partilhar. Tenho uma colega, que é a Beatriz Nunes, que tem um trabalho extenso sobre a desigualdade de género no mundo da música e do jazz, que é a minha casa, que constata isso mesmo: que existe um número maior de mulheres a entrar para o ensino superior, mas com um abandono durante o processo de escolarização ou durante a carreira profissional. Há pessoas que têm feito esse estudo mais pormenorizado sobre os obstáculos que as mulheres encontram e que as tornam menos proeficientes na música. Essa história está claramente a mudar.
Procuraste algum perfil em específico nas outras oito cantoras, além do facto de serem mulheres, claro?
Eu procurava alguma diversidade. A escolha foi feita em conjunto com o Luís Figueiredo, que fez os arranjos e a direção musical do projeto. Queriamos ter boas cantautoras, algumas com quem tivéssemos trabalhado, mas também outras com quem nunca tivéssemos trabalhado e que admirássemos. A Joana Espadinha, já tinha trabalhado com ela. A Joana Machado está comigo no projeto Elas e o Jazz. O Luís já tinha trabalhado com a Luísa Sobral, mas eu não. Conhecia e admirava o trabalho de cantautoras como a Aline Frazão ou a Garota Não, mas nunca tinha estado tão perto [delas]. Ou como a Elisa Rodrigues, cujo tema acabou por ser o single de arranque. Eu nunca tinha trabalhado com a Ana Bacalhau, que é uma intérprete incrível e que trouxe uma canção muito específica, que tem muito a ver com ela e com uma ideia muito clássica da criação e da musa. Eu queria que cada uma delas contasse a sua história. Eu sabia que cada canção ia refletir a história de cada uma e o que cada uma sentia naquele momento, porque esta vivência de ser mulher enquanto criadora implica uma experiência diferente em cada uma delas. Através de um briefing que passei, cada uma cantou à sua maneira, algumas delas mais inesperadas. Eu queria que o trabalho vivesse dessa diversidade e dessa generosidade. Acho que cada uma delas é uma contadora de histórias.
Esse briefing era a coordenada que davas? O que é que continha?
O briefing não era a ideia da musa, mas sim o de ser uma mulher e uma sonhadora. Aquilo que é determinante é o contexto. E o contexto de ser mulher é muito específico, com muitas nuances. Eu queria que essa experiência estivesse audível e visível nas canções.
A Francisca Cortesão foi a única baixa? Chegou a estar envolvida no projeto?
A Francisca abandonou o projeto, que tinha a ver com cantar em português. Apesar de ter logo abraçado a ideia, a Francisca não quis que a sua primeira música cantada em português fosse num projeto conjunto. Foi uma decisão que respeitámos.
Alguns dos músicos da banda permanente do projeto têm trabalhado contigo - há muitos anos o baterista André Sousa Machado, há alguns anos o Luís Figueiredo nos arranjos e na direção musical. Foi a parte mais complexa, esta de vestir as canções com a instrumentação da banda e gravar as canções em tão pouco tempo?
Essa pergunta é mais para o Luís Figueiredo. Mas acompanhei todo o processo. Ele teve que trabalhar em muito pouco tempo as canções que foram aparecendo. É preciso ter um conjunto mínimo de canções para se ter uma ideia do todo, que se sente no disco. Não foi por acaso que escolhi o Luís que tem uma sensibilidade especial e é muito atento às questões de igualdade de género. A música traduz essa sensibilidade e permite criar um fio condutor para o reportório. O retorno que tive das autoras é muito bom, porque toda a gente embarcou nisto com imensa generosidade e entusiasmo, mas também risco. Aceitaram participar num projeto cujos resultados só souberam no fim. A pessoa aposta um tema seu naquilo que não sabe o que vai ser. Estou muito grata por ter podido contar com cada uma delas.
O que é que podemos esperar do espetáculo no Maria Matos?
O espetáculo - que não acontece a 8 de março por acaso, porque é o Dia Internacional da Mulher - é uma apresentação do projeto Calíope, com saída nos meios digitais a 8 de fevereiro. Vamos estar com quase todas as autoras e cantoras, com um alinhamento que faz viver a mulher enquanto criadora e vamos trazer algumas músicas escolhidas entre nós que fizerem mais sentido dentro do tema de valorização da mulher enquanto criadora. Eu acho que vai ser um espetáculo muito bonito, que espero que possa fazer jús ao investimento que todos fizeram, não só para as composições. É uma oportunidade para se ouvirem ao vivo os bonitos arranos que o Luís Figueiredo fez para o disco.
O concerto começa às 21h00. A harpista Ana Isabel Dias, o trompetista e flautista Diogo Duque, a contrabaixista Sofia Queiroz, o baterista André Sousa Machado e o teclista e diretor musical Luis Figueiredo formam a banda permanente.
Na imagem em cima: Marta Hugon com Luis Figueiredo.
