CAMAdas de canções despidas de tabus

Celebra-se o Dia Mundial do Orgasmo. Simone de Oliveira, Rita Lee, Donna Summer, os GNR ou os Pixies, e muitos mais, deitaram canções à obra.

É Dia Mundial do Orgasmo. Na música, não falta destemor para traçar o rumo ao prazer carnal e à felicidade. Pela route 69, ou pelo puro desejo, com o nexo do sexo, há nestas canções alistadas mais liberdade do que libertinagem, mais inteligência e graça do que vulgaridade.

Houve uma canção vencedora do Festival da Canção em plena ditadura, que era sexualmente mais ousada, ‘Desfolhada’, cantada por Simone de Oliveira, com uma letra de Ary dos Santos tapada por metáforas. Esta canção é do tórrido ano de 69. Numa letra que é um matagal de trocadilhos sobre a natureza, um verso em bom português podia ter agitado as searas: “Quem faz um filho/Fá-lo por gosto”. A canção é um braseiro de apetites: “Meu corpo lindo/Meu fogo posto”; “Minha palavra dita à luz do sol nascente/Meu madrigal de madrugada”. “A Desfolhada é entregue em quarta mão. Eu não fui a [primeira] escolha para cantar A Desfolhada. Eu só fui a escolha para cantar a Desfolhada, porque ninguém queria dizer: ‘Quem faz um filho fá-lo por gosto". Ninguém queria dizer. E o José Carlos Ary, que não me conhecia, só disse assim: ‘Onde é que está aquela mulher muito grande?’, que eu pesava 85 quilos nessa altura, ‘aquela mulher muito grande que tem aquela voz muito grande’", conta-me Simone de Oliveira em entrevista publicada em 2022. 

Simone de Oliveira

O letrista Ary dos Santos volta a desfolhar e a descamisar, mas com o amor ainda mais a nu, no fado de Beatriz da Conceição, 'Meu Corpo'. “Sozinha numa cama que é só minha/Espero o teu corpo que eu tinha só meu”. Para Aldina Duarte, a fadista teve a mesma coragem de Simone de Oliveira. “Não há nenhuma cantora, a não ser uma fadista chamada Beatriz da Conceição, antes do 25 de Abril, a cantar coisas como ‘Deito o meu nome na minha cama". Não conheço ninguém a cantar nada tão carnal como o repertório da Beatriz em ‘Não peças amor, dá-me prazer’. Estes versos não existiam em mulher nenhuma a cantar. Claro que a Simone, como apareceu no festival com aquela coisa do ‘Quem faz um filho, fá-lo por gosto’, deu mais nas vistas, mas a Beatriz já tem repertório com esta temática”, refere, em entrevista que lhe fiz em 2024.

Aldina Duarte

Além dos temas ‘Dei-te um Nome em Minha Cama’ e ‘Eu Preciso de Te Ouvir a Voz’, Beatriz da Conceição cantou outros fados carnais bem fortes como ‘Madrugada Sem Sono’, onde naufraga a dor da perda do amor nos prazeres com outros. “Andei dum corpo a outro corpo/Só p’ra me esquecer de ti” são versos de um nomadismo corporal, mas também de uma monogamia de coração. A paixão tem um só homem.

Quem também canta as letras ousadas de José Carlos Ary dos Santos é Carlos do Carmo, em ‘Estrela da Tarde’, publicado em 1976, no rescaldo a quente da revolução… ou melhor, num rescaldo tórrido, cravado na paixão amorosa. “Foi a noite mais bela de todas as noites que me aconteceram/Dos noturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram/Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram”.

A cantora brasileira Beth Carvalho dá à fisicalidade do samba um ‘Toque de Malícia’, uma música de 1984, em que canta os versos “Senti num toque de malícia o seu amor/Carinho não se pede por favor”. E acrescenta: “Agora é cantar, deixar o corpo balançar/Não quero ver ninguém de fora/Abre a roda, vem brincar”.

Prince tem CAMAdas de canções despidas de tabus, numa delas o cantor vai um pouco mais a fundo, em ‘Sexuality’, em que aponta à desejada: “Let me take you to another world, let me take you tonight/You don't need no money, you don't need no clothes”. Prince tenta ser ele mesmo o afrodisíaco: “Sexuality is all you'll ever need/Sexuality, let your body be free”.

Quem também experimentou a liberdade sexual através de canções foi, evidentemente, Madonna. A Rainha da Pop acelerou a sua vertigem carnal a partir do single de 1990, ‘Justify My Love’. “Pobre é o homem cujos prazeres dependem da autorização dos outros”, clama Madonna numa das frases mais fortes do lascivo ‘Justify My Love’. Os desejos sexuais de Madonna em ‘Justify My Love’ tornam-se ainda ardentes no videoclipe a preto e branco da canção. Madonna entrega-se a um devaneio com desconhecidos, num quarto de hotel, sob o olhar fotográfico de Jean-Baptiste Mondino.

Sempre no lugar de comandante, Madonna vai ainda mais longe nas suas fantasias em 1992, com o tema e o álbum “Erotica” – “I'll give you love, I'll teach you how to/I'd like to put you in a trance/All over” - mas não tão longe como o ousado vídeo, com cenas de sexo mais explícito, incluindo o mundo de couro do sado-maso. Muitas destas imagens vêm do seu livro fotográfico, de nome “Sex”. Todo este risco sexual é feito com uma estética artística apurada. Nestes temas, Madonna parecia uma artista de pop underground, não uma estrela pop mainstream.
  

Uma música em especial que ganha uma irreverência sexual pela ilustração do vídeo é ‘Wicked Game’, de Chris Isaak. Se a letra escalda nos desejos, o videoclipe materializa-se no erotismo do abraço entre Chris Isaak e a desnudada top-model Helena Christensen, encostados a uma palmeira de praia e enrolados num areal escuro de uma ilha vulcânica que nem a lava aqueceu tanto. A água salgada e o suor combinam nos dois corpos. O verniz das unhas de Helena Christensen espalha-se pelos corpos de ambos. ‘Wicked Game’ nunca mais foi a mesma canção depois deste vídeo. Esta canção é de 1989 e projetou-se um ano depois na banda sonora do road movie de David Lynch, “Wild at Heart”, “Um Coração Selvagem”. Logo depois, veio o vídeo.

Um tema censurado por cá nos tempos de ditadura foi evidentemente a canção ‘Je T'Aime... Moi Non Plus’. Serge Gainsbourg entra num vai & vém especial e sexual, acoplado à voz e à respiração ofegante da sua namorada inglesa, a atriz Jane Birkin, num dueto bem lascivo. “Je vais et je viens entre tes reins”. A canção é publicada no ano erótico de 69. A canção tinha sido escrita inicialmente para um dueto com Brigitte Bardot. Essa versão seria engavetada até 1986. 

O single de Serge Gainsbourg com Jane Birkin foi um dos primeiros discos que Rui Reininho comprou no centro do Porto, durante a nossa ditadura. “Comprei-o ali na [rua] 31 de Janeiro. O disco vendia-se por baixo do balcão. Era proibido, claro. E foi com uma certa emoção. Fui eu e um antigo companheiro de luta, assim, um coleguinha. Juntámos ali uma massa. Nós tínhamos um grupo de amigos que comprava discos mais ou menos a meias. Já não era meu, não era teu, não é? A gente reunia-se antes de formarmos os primeiros conjuntos em que mandávamos vir coisas dandy lá de fora, um bocadito de prog rock, daquelas coisas assim. Nomes pouco conhecidos como os Love, não é? O Quicksilver Messenger Service. Coisas que não eram evidentes que não eram só Beatles, nem Stones. E soubemos que [Je T'Aime... Moi Non Plus] estava ali à venda e comprámos ali o single. E estivemos a ouvir aqueles gemidos com uma certa admiração”. 

Rui Reininho

Rui Reininho teve um avistamento numa capela, mais carnal que etéreo, quando viu uma mulher a fumar em frente ao altar, no tema dos GNR, ‘Vídeo Maria’. “Há em mim um profano desejo a crescer/Sinto a língua morta e o latim vai mudar”. Foi num concelho com o nome casto de Vila do Bispo que Rui Reininho teve a tentação pecaminosa, num dia de chuva. “Por causa do aparecimento de uma virgem em cima de uma árvore. Pelo comportamento, se calhar, pouco adequado de alguém estar a fumar numa, numa igreja. Mas foi uma imagem que me ficou precisamente perto de Sagres, numa igrejinha, que eu achei muito interessante alguém até com um ar assim um bocadinho turístico na altura em que eu realmente entrei e vi sair um fumo que não era o do incenso. E achei curioso, porque entrei na capela, só estava essa rapariga precisamente ali a fumar, com um ar assim muito meditabundo. Daí ter sido inspirado por aquela imagem. Eu achei muito interessante, muito pagão, mas muito bonito também, porque não estava em atitude de desrespeito”, recorda Rui Reininho.

Rui Reininho

Quem achou desrespeitoso foram alguns gabinetes de meios de comunicação social em meados dos anos 80. “Foi uma canção que foi abertamente boicotada por uma emissora portuguesa e depois mais tarde até pela própria RTP, num programa em que nós fomos convidados a participar, na altura em que nós ainda participávamos naqueles programas, como eu costumo chamar, para os acamados, ali de manhã. Eu sei que normalmente não ligam nada, mas depois quando se deram conta que íamos fazer o Vídeo Maria em directo num programa da manhã da RTP, sugeriram-nos de uma maneira forte que não podia ser, que fizéssemos outra. Na altura até foi aquele apresentador, o Carlos Ribeiro, que veio falar connosco e disse: ‘Ó pá, vocês têm toda a liberdade para fazer o que quiserem, se quiserem fazer, se, se não quiserem, não façam’. E nós fizemos finca-pé disso. Ou se faz esta ou então vamos embora, que também estamos em Gaia, é perto também, não é? Em meia hora chegamos a casa”.

Rui Reininho

O vocalista dos Pulp, Jarvis Cocker, é um autêntico Don Juan. O cantor enfiou a sua personagem em muitas casas e quartos alheios, e muito pouco ou nada em compromissos sérios. Na comédia sexual de desejos que perfaz toda a sua carreira musical de mais de 40 anos, Jarvis Cocker imaginou de forma desaberta uma perda de virgindade desastrosa na canção emblemática dos Pulp, ‘Do You Remember the First Time?’. Jarvis Cocker não consegue imaginar um pior momento que a primeira vez. Esta canção é de 1994, quando os Pulp se estavam a tornar autênticas lendas da música britânica.

Na era do disco-sound, em 1977, as temperaturas tornaram-se escaldantes em algumas músicas, hoje clássicos, como ‘I Feel Love’. Donna Summer canta este como quem faz amor, em que as palavras são curtas, mas as sensações são elevadas. A voz de Dona Summer abana-se com o sintetizador Moog de Giorgio Moroder. 

Novamente à boleia instrumental de Giorgio Moroder, Donna Summer volta a movimentar-se no império dos sentidos da boémia de final dos anos 70, no êxito 'Hot Stuff', à procura de dançar um último tango em pares: “Lookin' for a lover who needs another/Don't want another night on my own”.

Rita Lee também se aventurou e muito no cancioneiro do reino de Afrodite, aquecendo-se muito em temas como Mania de Você, Flerte Fatal ou num Banho de Espuma. Mas o seu acto de reprodução musical mais atrevido talvez seja ‘Lança Perfume’, uma canção de 1980, fruto do acasalamento entre Rita Lee e o seu companheiro musical e de vida Roberto Carvalho. “Me vira de ponta cabeça/Me faz de gato e sapato/Me deixa de quatro no ato”, canta Rita Lee, que liberta uma hormona neologista (e ritaleegista), de “Desbaratina”.


Lena D’ Água, que chegou a cantar em 1983 o animalista ‘Jardim Zoológico’, grava 41 anos depois ‘Carne Vegan’ (com letra de Pedro da Silva Martins, ex-Deolinada), onde experimenta o “arroz malandro”. “É a primeira de toda a minha carreira que me lembro. É a primeira letra assim com esse [toque sexual] e eu cantei-a a pensar não numa só pessoa, mas em várias. Eu também já não tenho marido há muitos anos, nem namorado sequer, de maneira que estou livre para poder pensar em quem eu quiser quando estou a cantar as canções, seja mais de amor ternurento, seja mais assim como a ‘Carne Vegan’, que é muito malandreca. ‘Tu até marchavas cru’”. É um tema valente, sobretudo “para uma pessoa que não come carne há quase 20 anos”.

Lena D'Água

Os indie-rockers Pixies reviraram a canção, fazendo do refrão, o momento de maior berraria e ira, contrariamente ao padrão. O grau de excitação provocado pelo andamento das canções dos Pixies gerou entre os fãs o termo de “eargasm”, para definir os orgasmos auditivos que as músicas da banda de Black Francis provocavam. Há também uma enorme carga sexual em alguns temas, no EP “Come on Pilgrin” (de 1987) e no álbum “Surfer Rosa” (de 1988), mas é no disco mais popular dos Pixies, “Doolittle” (de 1989), que está o tema em que se sente mais a ginástica acrobática de pares sobre lençóis: ‘Tame’. “I'm making good friends with you/When you're shaking your good frame/Fall on your face in those bad shoes, Lying there like you're tame” [Estou a tornar-me um bom amigo teu quando estás a abanar o teu corpo bonito/Cai de cara no chão com esses sapatos horríveis, deitada aí como se fosses], canta a fera indomável Black Francis que, com a baixista Kim Deal, entrelaça gemidos picantes antes de mais um pico na música.   

Noutro ângulo, os ingleses Frankie Goes To Hollywood recorrem ao imaginário homoerótico e de que maneira, no tema de 1983 ‘Relax’. A letra é sobre sexo explícito, mas a forma como mostram o tema é de um modo panfletário, se possível chocante. Os Frankies levaram o aparato cénico de um clube gay ao palco do programa da BBC, “Top of the Pops”. Mas mais do que um tema provocador, ‘Relax’ é politicamente uma canção de intervenção pelo direito à diferença sexual. A canção seria banida da BBC e de outros meios de comunicação. Mas ao tornarem-no um produto proibido, provocou um aumento da curiosidade e da procura, tal como acontecera no final dos anos 60 com o tema de Serge Gainsbourg, ‘Je T’aime, Moi Non Plus’. ‘Relax’ foi um sucesso comercial contundente. Foi o público a contornar a censura na procura da liberdade.