Canções e obras pela salvação da Terra
Hoje é o Dia Mundial do Ambiente. Seleção de canções com chamadas complementares de livros, filmes e pinturas com causas ecologistas.
Hoje, 5 de junho, assinala-se o Dia Mundial do Ambiente. A emergência climática, o aumento das secas, o degelo dos pólos, as espécies em extinção ou a qualidade do ar cada vez mais rarefeita já são alertados há muito pela imaginação e sensibilidade dos artistas, em canções, livros, pinturas ou filmes. Este artigo conta com depoimentos de Lena D’ Água, Aldina Duarte, Capicua, Pedro Neto (diretor-geral da Amnistia Internacional), André Henriques (dos Linda Martini), e ainda Paul Humphries (dos Orchestral Manouevres in the Dark), Adriana Calcanhotto e Alison Mosshart (vocalista dos Kills), que fui entrevistando, com base no 2º episódio do podcast Canta Liberdade.
A questão nuclear é das mais sensíveis para a preservação do planeta. Um acidente deita tudo a perder, com um dano fora de escala geográfica e até temporal, basta lembrarmo-nos do acidente na central nuclear de Chernobyl em 1986. Um dos clássicos da literatura do século XX, o distópico “Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” (de 1968), escrito por de Philip K. Dick e que inspiraria o filme “Blade Runner” (de 1982), marca muito pelo cenário de tensão pós-apocalipse nuclear coabitado por androides. Mas o início dos anos 80 é mais de tensão pré-nuclear. Em 1982, quatro anos antes do pesadelo de Chernobyl, Lena D’ Água e a sua banda Atlântida, reclamaram ‘Nuclear, Não, Obrigado’.
Esta música faz parte do impactante álbum de estreia de Lena D’Água, “Perto de Ti”. A composição é de Carlos Fortuna, a letra é de Luís Pedro Fonseca, o diretor da banda de Lena D’Água. O tema é um SOS de Lena D’Água e de Luís Pedro Fonseca para espevitar almas por um futuro apostado nas energias renováveis. Lena D’Água cantava pelo uso da força do mar, do vento e do calor do sol, e não o ar tóxico do tal “papão nuclear”. “Houve uma tentativa de se fazer uma central nuclear em Ferrel, ao pé de Peniche. Quando começámos a trabalhar juntos, esse foi um tema que surgiu. Quando gravámos o ‘Nuclear’ em 1982, essa ideia tinha poucos anos”, recorda Lena D’ Água em entrevista que lhe fiz por telefone. Foi exatamente em 1982 que o plano de uma instalação da central nuclear em Ferrel foi abandonado, depois de vários anos de manifestações e até com a participação cívica de cantautores como José Afonso, Vitorino, Sérgio Godinho, Fausto e Pedro Barroso.
Um ano depois, em 1983, é estreado o filme biográfico “Silkwood”, de Mike Nichols, sobre a ativista e trabalhadora industrial Karen Silkwood (1946-1974), interpretada por Meryl Streep. Morta em circunstâncias misteriosas, Karen Silkwood havia denunciado a contaminação de plutónio nos trabalhadores de uma empresa metalúrgica norte-americana. A própria sindicalista e a sua própria casa seriam afetadas pelas radiações.
Nesse início dos anos 80, vivia-se uma tensão nuclear similar à de hoje. Além das centrais, o alarme era sobretudo para o crescente armamento nuclear. Kate Bush é mais ficcional para poder dramatizar o perigo real de uma guerra nuclear, ao se pôr no lugar de um feto que se recusa sair da barriga da mãe por causa do inferno radioativo lá fora, na canção de 1980, 'Breathing'. O instinto de sobrevivência de só querer respirar faz o feto restringir-se ao único refúgio possível: a piscina amniótica maternal. É assim a letra da canção de Kate Bush, “Breathing”.
Basta carregar num botão para se destruir o mundo e isso causa alarme em todos. No início dos anos 80, agrava-se o conflito no Médio Oriente e aumenta a tensão da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. ‘Enola Gay’ dos Orchestral Manoeuvres in the Dark foi um êxito synth-pop de 1980, que invadiu as pistas de dança. A música é alegre, mas a letra do vocalista Andy McCluskey é sobre a bomba atómica que arrasou Hiroshima. ‘Enola Gay’ era o nome do avião norte-americano que lançou a bomba atómica.
Os Orchestral Manoeuvres in the Dark vêm dos arredores de Liverpool, que fora uma das cidades inglesas mais arrasadas pela aviação militar nazi durante a II Guerra Mundial. Em entrevista que me deu há pouco anos, o teclista da dupla Orchestral Manoeuvres in the Dark, Paul Humphreys, recordava o que os motivou a escrever o tema ‘Enola Gay’. “Nos anos 60, a II Guerra Mundial não estava assim tão distante, ainda estava presente nas mentes das pessoas e dos nossos pais. Passámos a infância a ouvir histórias sobre a II Guerra Mundial. O meu pai foi prisioneiro de guerra, foi obrigado a trabalhar como lenhador para os nazis na Alemanha. Interessava-nos a maquinaria de guerra, especialmente os aviões. Revendo a guerra, descobrimos a estranha história do piloto que largou a bomba atómica em Hiroshima. Dedicou à mãe o avião que matou centenas de milhar de pessoas. Que história bizarra. Será que ele não gostava da mãe?”.
Os Orchestral Manoeuvres in the Dark tinham como os seus deuses musicais o colectivo alemão Kraftwerk, que, anos atrás, preferiu o minimalismo de slogans no tema de 1975 'Radioactivity' em vez de frases mais concretas. Mas as radiações da mensagem dos Kraftwerk continuam no ar para nos pôr a pensar.
Foi no rescaldo a quente das bombas atómicas que mataram mais de duzentos mil japoneses que Vinícius de Moraes escreveu o poema ‘Rosa de Hiroshima’: “A rosa hereditária, a rosa radioativa estúpida e inválida”, “A anti-rosa atómica, sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada”. A banda paulista Secos & Molhados teve a arte e o engenho para musicar em 1973 este escrito genial de Vinícius, pela voz poderosa de Ney Matogrosso, a dar uma beleza humana que dá alguma esperança, perante o horror massivo. Ney Matogrosso voltou a cantar recorrentemente a ‘Rosa de Hiroshima’ ao longo das décadas subsequentes.
Há mais radiações na música. Quando Morrissey canta 'Everyday Is Like Sunday' (de 1988), não está propriamente a falar do tédio, mas sim da tragédia das radiações que esvaziaram e tiraram vida a uma povoação costeira, agora mais cinzenta e nunca mais azul. Todos os dias passaram a parecer-se com os domingos porque a povoação dizimada passou a ser uma terra fantasma. A letra da canção do ex-vocalista dos Smiths é inspirada no romance pós-apocalíptico de Nevil Shute, "On the Beach", sobre uma fícticia III Guerra Mundial, que não queremos real.
No livro do brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, “Não Verás País Nenhum” (de 1981), imagina-se uma distopia de dias tórridos com cheiro a queimado, onde para se sentir o cheiro a árvores, é preciso um refúgio noturno num centro comercial. A fadista Aldina Duarte segue a mesma preocupação, mas de forma menos distópica, querendo partilhar o que ainda temos. O deslumbramento com a natureza enquanto a temos é uma forma de a defendermos. É o que faz Aldina Duarte quando canta sobre árvores muitos especiais da zona de Sintra, no tema 'Araucária'. No fundo, a cantora lisboeta desenvolve um conceito invulgar... de fado ecologista.
A contribuir para este fado ambientalista está a harpa de Ana Isabel Dias. Aldina Duarte canta ‘Araucária’ como quem pede para apreciar as coisas bonitas da natureza. “Olhem lá para uma árvore, vejam lá a sua importância na nossa vida e como nós nos tornamos mais humanos se formos mais sensíveis à natureza. Esta coisa de perder o vínculo com a natureza para passar a tê-lo com uma máquina pode até ser perigoso e tornar-nos mais insensíveis. O problema é haver crianças a serem formadas por uma máquina, emocionalmente falando. As ligações delas são através do What’s App e não do recreio. A natureza está presente para não nos esquecermos da nossa essência, porque nós vimos dali. Somos seres vivos em que os sentidos são fundamentais. Houve uma altura em que achava que era importante a literatura, a poesia, a música para o ser humano se tornar mais pensante, para desenvolver a sua inteligência e sensibilidade. É verdade. Mas agora já estamos numa fase em que temos que ir mais atrás. Mais do que um livro, se calhar faz falta dar um mergulho no mar”, diz-nos Aldina Duarte, em entrevista.
O fado ‘Araucária’ faz parte do álbum de Aldina Duarte, “Metade-Metade”. A outra metade autoral do disco de Aldina Duarte é Capicua, que assina todas as letras do álbum. A rapper já tem um passado musical ecologista, não só no seu projeto Mão Verde para público infantil, como no seu percurso individual, no álbum de 2020, “Madrepérola”. Em entrevista, Capicua cita-nos como exemplo das suas preocupações ambientais a música ‘Todo O Chão Quer Ser Floresta’ do seu terceiro álbum, “Madrepérola” (de 2020), “que fala de uma visão otimista do pós-apocalipse que partindo da ideia poética da erva daninha que rasga alcatrão ou da hera que cobre os edifícios em ruínas e do terreno baldio que de repente está coberto de ervas, que se transformam em arbustos e depois em árvores. Essa ideia poética de que todo o chão quer ser floresta e há de ser floresta quando partirmos. Há uma coisa que é reconfortante que a natureza se há de regenerar e que, se nós deixássemos, ela ia vencer. Isso dá-nos um banho de humildade de pensar que a nossa sobrevivência está ameaçada, mas a vida no nosso planeta vai continuar. Na nossa ego trip de animal racional que pode tudo e é semi-deus, esquecemo-nos que somos muito menos inteligentes do que a natureza”.
Tal como no fado ‘Araucária’, Louis Armstrong canta sobre as maravilhas da natureza na sua famosa canção ‘What a Wonderful World’. Ouvimos Louis Armstrong a cantar esta música de sorriso largo e só queremos ir até à sua cabeça para ver as cores do tal arco-íris de que fala. Por trás do seu sorriso largo, Louis Armstrong quer-nos dizer algo mais quando descreve o desabrochar deste mundo florido. Onde anda esse mundo maravilhoso? Louis Armstrong prefere sugerir a pergunta em vez de a colocar, descrevendo o que é realmente bonito. Ou que está a deixar de ser.
Já David Byrne prefere reverter a cronologia da poluição terrestre no tema dos Talking Heads, '(Nothing But) Flowers', até ao paraíso pré-histórico. Usando a ironia, lamenta não encontrar mais carros movidos a gasolina, fábricas ou lojas da Pizza Hut, apenas vê flores. É a ironia de intervenção ao serviço do ambiente.
Em 'Fake Plastic Trees', os Radiohead lamentam o mundo natural a ser substituído pelo submundo do plástico, sejam plantas ou as próprias faces humanas. A canção faz parte do segundo álbum dos Radiohead, “The Bends”, de 1995.
Os pós-punks Modern English só vêem plástico à sua frente, no tema de 2024, ‘Plastic’, uma contaminação que vai do fundo dos oceanos ao fundo do nosso corpo. “The world is full of plastic / And our hearts are full of plastic / And the sea is full of plastic / So the fish are full of plastic / So the food is”.
Também Adriana Calcanhotto lamenta o mundo do plástico e o seu destino final, no mar. A cantora dedicou uma trilogia de álbuns ao mar. No último disco da trilogia, “Margem”, há um tema particularmente dramático, de nome ‘Ogunté’
Adriana Calcanhotto vai à mitologia para lembrar o derrame de petróleo e de lágrimas nos mares. ‘Ogunté’ é um tema de 2019, ano em que Adriana Calcanhotto me falou desta música em entrevista. “A humanidade está a considerar os oceanos como um grande lixão. Tudo o que está acontecendo na humanidade vai parar ao mar de alguma maneira. Não é um alerta, é simplesmente uma constatação incontornável. Quando pensamos em toda a mitologia, o Ogunté é uma entidade do mar que não pode estar contente com o que está acontecendo. O que Neptuno estará a pensar sobre a forma como estamos a tratar os oceanos? A canção é sobre isso”.
Sobre a poluição do mar… e do ar, o diretor-executivo da Amnistia Internacional em Portugal, Pedro Neto, sublinha a música que projetou Ben Harper nos anos 90, 'Excuse Me Mr'. “A letra fala muito do ‘desculpe, senhor, dê-me só um minuto é assim tão importante que não pode ter tempo para mim?’ O petróleo derramado no mar, a poluição que existe no ar’. Nesta letra, ele aponta de uma forma muito leve e bem disposta, ao estilo de Ben Harper, todos os problemas que existem, quer na política, quer em termos ambientais, no sentido de que o planeta é o sítio onde vamos buscar todos os recursos de que necessitamos para nos alimentarmos ou para nos vestirmos. Tudo vamos buscar ao planeta Terra. Portanto, é preciso cuidar do planeta para a nossa vida aqui ser possível. É uma justiça económica de que Ben Harper fala muito nesta palavra”.
Se o mar está uma lixeira que destrói ecossistemas e a qualidade da água está mais reduzida, a distopia de uma sociedade futurista sem água é cada vez mais real, tal e qual como o livro de ficção científica de estreia da escritora finlandesa Emmi Itäranta, “Memória da Água” (de 2014), onde a personagem principal Noria, conhece em segredo uma fonte natural de água fora do controlo militar que a coloca num grande dilema pessoal e numa grande responsabilidade. Deverá manter o segredo?
Se os solos estão secos e a água escasseia, olhamos ainda mais para cima, para o ar, e ele está cinzento e às vezes preto, desde a Revolução Industrial. O pintor impressionista francês Claude Monet captou bem esses ares, da sua adorada Londres, em quadros como “The Thames below Westminster” (de 1881) ou, particularmente, “Houses of Parliament in the Fog” (de 1903), com um impacto de alerta ecologista que ainda hoje vinga, apesar da intenção do artista ter sido antes a projeção para a tela do seu deslumbramento com o nevoeiro da capital britânica.
Muitos destes alarmes têm décadas mas o problema de maus tratos ao planeta agrava-se. As gerações mais jovens têm-se preocupado cada vez mais e Capicua dá-lhes razão. “Hoje em dia, parece que não há qualquer outra alternativa, como a famosa TINA [There Is No Alternative ] que estávamos sempre a ouvir durante a Troika. Parece que não há alternativa económica ou política. Parece que a única alternativa é a extrema direita. As pessoas desistiram de discutir utopias. Vêm as gerações mais novas tentar propor alternativas, há uma sobranceria geracional de se achar: ‘lá estão estes putos inconscientes, hippies, fundamentalistas, vêm para aqui falar de coisas impossíveis. Querem voltar à União Soviética?’ Eles estão a propor outras coisas, não estão a querer regressar aos velhos sistemas”.
Da geração de Greta Thunberg, faz parte a cantora Billie Eilish, que aos 17 anos teve a maturidade para cantar sobre o aquecimento do planeta e a subida do nível dos mares, na música ‘All the Good Girls Go to Hell’. Billie Eilish não encontra o guardião do paraíso, só vê o Lucifer e um inferno... já neste planeta.
Billie Eilish vê as colinas da Califórnia a arder. O vídeo do tema é avermelhado por várias chamas, tal como o clipe de ‘103’ da dupla The Kills. Tal como Billie Eilish, também a vocalista dos Kills, Alison Mosshart, tem vivido em Los Angeles, onde o aquecimento global se sente mais. A música ‘103’ também ferve com a subida da temperatura.
Em entrevista no Bairro Alto, em Lisboa, Alison Mosshart falava-me de ‘103’. “Não é só uma preocupação da canção, é uma preocupação minha. Sinto imenso calor a toda a hora e não me agrada. A música é mais uma observação sobre Los Angeles. Quando regressava de carro à cidade pela estrada nacional, durante a pandemia, quão estranho e apocalíptico foi conduzir só eu com uns quantos camiões e mais ninguém. ‘103’ era a temperatura registada no meu carro. No vídeo estamos envoltos pelo fogo. Uma coisa leva à outra”.
O filme “Soylent Green”, realizado por Richard Fleischer, é de 1973, mas já levanta questão ambientais, como o sobreaquecimento, a sobrepopulação, a falta de água e a escassez alimentar. Soylent Green é o nome do misterioso produto alimentar para o povo, num filme distópico sobre a sociedade em 2022, que é também uma trama policial.
O filme de anime, “A Princesa Mononoke” (de 1997), do cineasta Hayao Miyazaki, levanta a questão da deflorestação, numa sociedade japonesa de há mais de 500 anos, numa batalha entre a defesa ambiental e os predadores do “desenvolvimento”. Ao seu estilo, Miyazaki evoca a mitologia de lendas nipónicas.
As questões ambientais afetam, claro, a fauna. A escritora norte-americana Barbara Kingsolver tem sido um dos nomes mais preocupados com a biodiversidade na literatura das últimas décadas. No romance de 2012, “Flight Behavior”, a concentração em massa de borboletas-monarcas na cordilheira dos Apalaches tem por trás a consequência alarmante das alterações climáticas. Mais de cem anos antes, já vinha à tona a questão do animalismo, quando esta designação estava ainda longe de existir. O escritor e ativista norte-americano Upton Sinclair publicou o livro “The Jungle” (de 1906), sobre um imigrante lituano que trabalhava na indústria frigorífica de carnes americana. Upton Sinclair realça a injustiça social do contraste entre a corrupção e opulência do patronato e a pobreza do operariado, mas sobressai também a questão dos maus tratos aos animais, de uma forma industrial que chocou na altura a sociedade.
Nas últimas décadas do século passado, foram avivadas algumas temáticas ligadas às várias espécies na música. A banda de punk-hardcore portuguesa X-Acto abordava a tortura animal no tema ‘Tourada É Tortura’.
Os X-Acto vinham de Queluz, a terra dos Linda Martini. O vocalista e guitarrista André Henriques era um dos fãs dos X-Acto nos anos 90. “Era a banda cimeira do punk na altura e uma das melhores. Esses temas todos, desde as questões ambientais às questões dos animais e das touradas e da luta anti-fascista, abriram-me um mundo. Havia concertos que eram autênticos seminários. Cada canção durava um minuto e meio, toda a gente saltava e batia no teto ao moche e ao pontapé. Pelo meio, entre as canções, havia discursos de quase meia-hora a explicar porque é que aquela canção tinha sido feita ou sobre uma concentração que ia haver no fim-de-semana sobre não sei o quê ou uma manifestação anti-tourada. Portanto, esse momento mais efervescente, onde eu tive um lado ativista mais urgente, deu-se aí”.
Praticamente dez anos antes dos X-Acto, da cidade de Manchester, o vocalista e letrista dos Smiths, Morrissey, era já um grande ativista da causa animalista. O tema dos Smiths de 1985, ‘Meat Is Murder’, é um incentivo ao vegetarianismo e uma crítica dura à carnificina de animais para consumo. Para ilustrar ainda melhor o que Morrissey estava a cantar, usam-se sons de serras elétricas de cortes de animais e de vacas a mugirem, na gravação de Meat Is Murder. Quando Morrissey cantou ‘Meat Is Murder’ no Coliseu de Lisboa em 2014, passavam no ecrã imagens de matança de animais em série, o que deixou muitos dos espectadores impressionados.
Há muito que as causas animalistas habitam no mundo cancioneiro, como a denúncia da caça à baleia, do uso de casacos de peles animais ou de alerta de extinção. Na canção de 2025 ‘Levante-se uma Escola’, A Garota Não junta-se ao movimento cancioneiro anti-touradas, dos X-Acto, sem punk e com a alma no poema da setubalense Mariana Angélica Andrade, escrito no século XIX, em mais uma prova de que já havia animalismo muito antes da designação existir. A Garota Não pega no testemunho da sua conterrânea e reclama também uma escola no lugar de uma praça de touros, mas cantando.
Mais de 100 anos depois do poema de Mariana Angélica Andrade, Lena D’Água também se sensibilizou para os maus tratos a animais na sua carreira de cantora, em 1982. A música ‘Jardim Zoológico’ foi escrita e composta por Luís Pedro Fonseca, o diretor de banda Atlântida, de Lena D’ Água. “Nós tínhamos passado pelo Jardim Zoológico. Desde crianças que não íamos lá. Na gravação do videoclipe do ‘Robot’, a comer saladas de frutas e a andar de patins, demos uma volta pela Jardim Zoológico e ficámos horrorizados a ver os gorilas em celas de vidro de três metros de largura por três metros de fundo, uma coisa horrível. Passados dois anos, fizemos este single, ‘Jardim Zoológico’, contra os animais em cativeiro”, recorda Lena D’ Água.
