Canções pela paz e pelo desarmamento nuclear

Na véspera do anúncio do Nobel da Paz, levantamos uma revoada de pombas brancas, cujo arrulho é um canto.

No ano passado, a confederação japonesa Nihon Hidankyo foi premiada com o Nobel da Paz pelo seu longo trabalho de pressão para a abolição das armas nucleares. Outros ativistas anti-nucleares receberam esta global distinção como o norte-americano Linus Pauling, o antigo primeiro-ministro japonês Eisaku Sato, o polaco Joseph Rotblat, ou organizações coletivas como a Agência Internacional de Energia Atómica.

Martin Luther King Jr., o chanceler alemão Willy Brandt, o dissidente soviético Andrei Sakharov, a Madre Teresa de Calcutá, o Presidente da África do Sul, Nelson Mandela, ou Elie Wiesel lutaram pela paz de outras formas e também receberam o distinto prémio. 

Levantamos uma série de canções pela paz e pela desnuclearização, como uma revoada de pombas brancas, cujo arrulho é um canto. Há um hino universal dos anos 60, ainda hoje atual, em que se pede a paz:  'Blowin' in the Wind' de Bob Dylan. "Quantos mares tem a pomba branca que sobrevoar para poder dormir no areal?", pergunta Bob Dylan, num tema pacifista, adotado e adorado pelos afroamericanos.

Outras das grandes lendas da folk que cantou pela paz foi a canadiana Joni Mitchell. A cantora portuguesa Joana Espadinha ficou marcada por um tema em especial... ‘The Fiddle and the Drum’.

Joana Espadinha

Joni Mitchell lamenta que os Estados Unidos troquem o violino pelo tambor, o aperto de mão pelo punho. Este tema à capella faz parte do álbum de 1969, “Clouds”.

Joana Espadinha

A luta pela paz foi um dos grandes valores da folk da América do Norte. Pete Seeger pegou num tema gospel como ‘We Shall Overcome’, que se tornou obrigatório nos seus concertos. Foi o que o aconteceu no concerto de boa memória no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, em 1983. Pete Seeger tocou ainda uma segunda vez ‘We Shall Overcome’ nessa noite em Lisboa, num final apoteótico

A reclamação pela paz pode surgir quando se começa a temer perdê-la. Foi o que sentiu o músico argentino León Gieco, em plena ditadura militar na Argentina, em 1978, o ano do Mundial do Futebol no país, quando se inspirou para uma canção pela paz, ‘Solo Le Pido A Dios’. O tema passou por muitas vozes e uma em especial, a mítica cantora argentina Mercedes Sosa. Como muitas vezes aconteceu, Mercedes Sosa cantou este tema ao vivo, ao lado do compositor da canção, León Gieco, cuja voz se pode também ouvir nesta gravação. Apesar da transversalidade da letra, a paz é a maior preocupação da canção. 

Outra lenda latino-americana que cantou pela paz foi o chileno Victor Jara. ‘El Derecho De Vivir En Paz’ é mesmo a sua canção mais célebre. Victor Jara critica a intervenção francesa na Guerra da Indochina e a intervenção norte-americana na Guerra do Vietname, louvando um resistente em ambas as guerras, o político comunista Ho Chi Minh. 

Com um encorpamento mais rocker, os lisboetas Pop Dell’Arte fizeram uma versão muito transformada deste tema no álbum de 2020, “Transgressio Global”, com a voz bem marcante de João Peste.

O vocalista dos GNR, Rui Reininho, lembra um tema da sua banda sobre as tenebrosas guerras.

Rui Reininho

Além do EP “I Don't Feel Funky (Anymore)”, ‘Pershingópolis’ fez parte do álbum irreverente de 1984, “Defeitos Especiais”.

Já dois anos antes, os GNR miravam a “central nuclear em céu aberto”, a tal “horrorosa natureza, pseudo-mãe, até às fronteiras da selva”, no tema ‘Agente Único’ do álbum “Independança”.

É de 1968, durante a ditadura, o fado de Fernando Farinha, ‘Natal Português', onde se ouvem sinos e se sentem as saudades dos familiares distantes. Fernando Farinha canta sobre a emigração e sobre a Guerra Colonial. 

Há um tema ainda mais conhecido de Fernando Farinha, o ‘Fado das Trincheiras’, sobre a missão rastejante e trágica do soldado. Esse fado tinha sido publicado em 1961, exatamente o ano do início da Guerra Colonial. A sua transmissão na rádio deixou de ser possível, apesar do seu sucesso.

Houve um "soldadinho" que não voltou "do outro lado do mar" no tema 'Menina dos Olhos Tristes'. Quando Reinaldo Ferreira escreveu o poema, a Guerra Colonial ainda não decorria mas eclode em cheio na canção primeiramente interpretada por Adriano Correia de Oliveira em 1964 e, de forma ainda mais dramática, por José Afonso em 1969, que choram a vinda do soldadinho "numa caixa de pinho". 

Em 2007, Valete dá o retrato mais profundo do continente onde morreu o soldadinho, com a batucada, os coros e os choros da terra quente. A partir desta versão de Valete, pensamos em todas as guerras que flagelaram a África Lusófona e não só na Guerra Colonial. Esta versão de Valete foi publicada no álbum de tributo a Adriano Correia de Oliveira, de 2007, “Adriano Aqui E Agora”.

Nos anos 60, uma das canções pela paz mais icónicas é 'For What It's Worth', dos norte-americanos Buffalo Springfield. O autor da canção Stephen Stills inspirou-se nos motins de contra-cultura americana nas ruas de Los Angeles, em 1966. A canção tornar-se-ia um hino contra a Guerra do Vietname, mesmo que o tema não tivesse sido escrito com essa intenção.

Quem escreveu propositadamente sobre a Guerra do Vietname foi o jamaicano Jimmy Cliff. A música é um reggae animado, mas a letra é mais dramática, uma história com destino fatal para o soldado americano, que já não foi a tempo de voltar vivo do seu serviço militar pela nação. A música chama-se mesmo ‘Vietnam’. Jimmy Cliff só pede que a Guerra do Vietname pare, neste tema de 1970.

As mazelas da Guerra do Vietname não se sentiram só no mundo cancioneiro. O cinema também se enlameou nos horrores da guerra, através de centenas de ficções, algumas delas autênticos épicos. Um dos mestres sobre a guerra era Stanley Kubrick que retratou bem a crueldade humana no filme de 1987, “Full Metal Jacket”. Ouve-se nesta cena o desentendimento no próprio pelotão americano, em pleno combate.

O mais politizado e reivindicativo dos Beatles, John Lennon, fez o seu tema mais interventivo de todos fora dos Fab Four, 'Give Peace a Chance' (de 1969), mundialmente conhecido mas com foco temático no pedido do fim da Guerra do Vietname e, na verdade, das guerras. 

A música foi criada e gravada quase de forma instantânea, com a sua mulher Yoko Ono, durante a mediática lua-de-mel num hotel de Montreal. A forma rudimentar como o tema foi gravado torna-o ainda mais agregador, com batida simples e muita alma coletivista a cantar e mesmo, no caso de Lennon, a vociferar. ‘Give Peace a Chance’ é o primeiro single de John Lennon sem os Beatles, gravado em 1969, sob os créditos da Plastic Ono Band, projeto que partilhava com a sua mulher Yoko Ono.

Também ladeado por Yoko Ono, John Lennon imaginou uma utopia sem fronteiras, ganância e conflitos em ‘Imagine’, uma das suas canções mais emblemáticas pós-Beatles.

Uma das vozes mais pessimistas e lúgubres sobre a Guerra do Vietname foi Marvin Gaye, no seu álbum seminal 'What's Going On”. As cartas do irmão em guerra inspiraram-no para uma canção como o tema-título, ‘What's Going On’

Marvin Gaye entra numa onda de artistas da editora Motown mais interventivos, a par de Stevie Wonder, com 'What's Going On”, de 1971. Mas quem faz a primeira canção de protesto da Motown, que estava mais vocacionada para canções de inocência amorosa, é Edwin Starr, com o single de 1970, ‘War’. Bruce Springsteen faria mais tarde uma versão ao vivo deste tema.

Quem também chama a guerra pelo nome é Fausto, como na canção ‘A Guerra É a Guerra’. O relato do horror do combate de fogo entre embarcações basta para o tornar um tema de defesa da paz, apesar da folia folclórica que o ambienta. ‘A Guerra É a Guerra’ faz parte do álbum de Fausto “Por Este Rio Acima”, uma autêntica epopeia musical numa viagem no tempo à época dos Descobrimentos no século XVI. O álbum de 1982 é inspirado pelas crónicas de Fernão Mendes Pinto.

Quem é grande admirador do disco “Por Este Rio Acima” é o antigo ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva.

Pedro Adão e Silva

Tal como Edwin Starr e Fausto, também os U2 chamam a guerra pelo nome, no próprio refrão, na canção ‘The Refugee’, do álbum chamado “War”. Se Bono canta a guerra pelo seu nome no refrão de 'The Refugee', o baterista Larry Mullen Jr também baqueteia a guerra pelo seu som, com bombadas nos tambores que dão o realismo de guerra. 'The Refugee' é um tema de guerrilha rock que traça o drama de uma criança refugiada na América, fllha de um soldado perdido... que já não a vai levar à Terra Prometida. 

“War”, de 1983, é o álbum interventivo dos U2, que tem como uma canções mais emblemáticas ‘Sunday Bloody Sunday’, sobre o massacre do “Bloody Sunday” na Irlanda do Norte, em que o exército britânico matou de forma indiscriminada manifestantes católicos na Irlanda do Norte, em 1972. O enérgico vocalista Bono costumava pegar numa bandeira branca e caminhar pelo palco, a pedir paz, tal como aquele padre católico a agitar no ar um lenço branco, no meio do massacre militar do “Bloody Sunday”, em 1972. 

O diretor da Amnistia Internacional, em Portugal, Pedro Neto, identifica-se bastante com o espírito da canção.

Pedro Neto - diretor da Amnisti Internacional em Portugal

Quem também pede tolerância religiosa são os Clash. Três anos depois da revolução de Khomeini no Irão, em que se reprimiram valores ocidentais, o vocalista dos Clash, Joe Strummer, imagina em 1982 um rei árabe poderoso a proibir música de outras culturas no seu califado. Estamos a falar de uma das músicas mais conhecidas dos Clash, 'Rock the Casbah'

Rui Reininho

O rock também viajou às trincheiras da I Guerra Mundial, para valorizar a paz. A banda de Liverpool, The Farm, lembrou-se, no tema 'All Together Now', do armistício natalício e espontâneo de 1914 que ligou em confraternização e trocas de prendas os exércitos inimigos da Alemanha e do Reino Unido no tal No Man's Land, a tal Terra de Ninguém. Os dois exércitos inimigos juntaram-se num só e abraçaram-se. A canção 'All Together Now' é de 1991, mais de 75 anos depois do tal Natal em que os soldados arriscaram o crime de traição à pátria para fazerem do inimigo um amigo.

Vinda da Tunísia, Emel Mathlouthi é a grande cantora de intervenção da Primavera Árabe de há mais de dez anos. No tema 'Kaddesh', a artista é o anjo a voar sobre um tapete eletrónico, em que canta sobre os danos transversais da guerra de um ponto vista planetário. Emel Mathlouthi pergunta “quanto” muitas vezes: quantas crianças morreram, quantas casas foram destruídas, quantos pássaros se silenciaram. Quanto?

No álbum de estreia homónimo dos Sitiados, há também esta canção sobre uma guerra e sobre outras guerras, 'Soldado'. A música é de 1992, quem a canta é o saudoso João Aguardela, que se lembra o que se perde com o fogo incessante da artilharia, perguntando: “Liberdade onde vais?”.

No início dos anos 80, vivia-se uma tensão nuclear similar à de hoje. Além das centrais, o alarme era sobretudo para o crescente armamento nuclear. Kate Bush é mais ficcional para poder dramatizar o perigo real de uma guerra nuclear, ao se pôr no lugar de um feto que se recusa sair da barriga da mãe por causa do inferno radioativo lá fora, na canção de 1980, 'Breathing'. O instinto de sobrevivência de só querer respirar faz o feto restringir-se ao único refúgio possível: a piscina amniótica maternal. É assim a letra da canção de Kate Bush, “Breathing”.
 


Basta carregar num botão para se destruir o mundo e isso causa alarme em todos. No início dos anos 80, agrava-se o conflito no Médio Oriente e aumenta a tensão da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. ‘Enola Gay’ dos Orchestral Manoeuvres in the Dark foi um êxito synth-pop de 1980, que invadiu as pistas de dança. A música é alegre, mas a letra do vocalista Andy McCluskey é sobre a bomba atómica que arrasou Hiroshima. ‘Enola Gay’ era o nome do avião norte-americano que lançou a bomba atómica.
 

Os Orchestral Manoeuvres in the Dark vêm dos arredores de Liverpool, que fora uma das cidades inglesas mais arrasadas pela aviação militar nazi durante a II Guerra Mundial.  Em entrevista que me deu há pouco anos, o teclista da dupla Orchestral Manoeuvres in the Dark, Paul Humphreys, recordava o que os motivou a escrever o tema ‘Enola Gay’.

Paul Humphreys dos Orchestral Manoeuvres in the Dark

 
Os Orchestral Manoeuvres in the Dark tinham como os seus deuses musicais o colectivo alemão Kraftwerk, que, anos atrás, preferiu o minimalismo de slogans no tema de 1975 'Radioactivity' em vez de frases mais concretas. Mas as radiações da mensagem dos Kraftwerk continuam no ar para nos pôr a pensar.
 

Há mais radiações na música. Quando Morrissey canta 'Everyday Is Like Sunday' (de 1988), não está propriamente a falar do tédio, mas sim da tragédia das radiações que esvaziaram e tiraram vida a uma povoação costeira, agora mais cinzenta e nunca mais azul. Todos os dias passaram a parecer-se com os domingos porque a povoação dizimada passou a ser uma terra fantasma. A letra da canção do ex-vocalista dos Smiths é inspirada no romance pós-apocalíptico de Nevil Shute, "On the Beach", sobre uma fícticia III Guerra Mundial, que não queremos real.

Em 1946, Vinícius de Moraes escreve o poema ‘Rosa de Hiroshima’, um ano depois da bomba atómica que arrasou a cidade japonesa. Os Secos & Molhados aproveitam este poema de reflexão sobre este apocalipse da natureza e humanidade, cantado pela voz sensível de Ney Matogrosso... “A rosa radioativa, estúpida e inválida”.

Muitos dos escritos e depoimentos são extraídos do podcast "Canta Liberdade", em especial do oitavo episódio, dedicado às músicas pela paz.

Outras músicas pela paz a serem tidas em conta:

Boris Vian - 'Le Déserteur' 
The Divine Comedy - 'Achilles'
John Foxx – 'Underpass'
Lena D' Água - 'Chá'
Linda Martini - 'A Cantiga É'
Mão Morta - 'Ratoeira Bélica'
Três Tristes Tigres - 'A Guerra'
Primal Scream - 'Deep Dark Waters'